22 dezembro 2007

Extinguir partidos políticos


Nada há de mais incongruente numa democracia que o acto jurídico de extinguir partidos políticos. Os partidos, grandes ou pequenos, com ideias ou sem elas, honestos ou desonestos devem ser extintos pela ausência de votos. O eleitorado que os extinga virando-lhes as costas, votando-os ao desprezo. Não cabe a nenhuma Mesa Censória, a nenhum Conselho Nocturno, a nenhuma vestal da pureza ou a nenhum vigilante impedir que cidadãos participem em actos eleitorais. Se os partidos incorrem em actos considerados lesivos das regras do jogo, que sejam punidos, mas punidos pela natureza das infracções. Alertado pelo recurso apresentado por Pedro Quartim Graça, nada mais posso fazer que exprimir solidariedade por todos os "pequenos partidos", da extrema-esquerda à extrema-direita, agora ameaçados de desaparição por uma nova Lei dos Partidos que vai transformar o nosso sistema democrático numa torpe caricatura da liberdade. Com quejanda legislação serão extintos sem apelo o PPM, o POUS, o MRPP, o PNR, o PND, o MPT e o PH. Ora, estes partidos exprimem correntes, minoritárias é certo, irrelevantes eleitoralmente é claro, mas merecedoras da protecção e atenção devida a todas as sensibilidades que, juntas, oferecem o retrato da sociedade portuguesa. Acresce que alguns dos pequenos partidos sem representação parlamentar são detentores de invejável património programático e que pelo pioneirismo com que se entregam à difusão de novas ideias são verdadeiros aceleradores das discussões magnas por onde passa o futuro da vida política nacional. Sem eles, habituados à roncante mediocridade que impera nos partidos com representação parlamentar, a democracia portuguesa ficará, definitivamente, nas mãos de pequenos habilidosos de discurso redondo. Como serão tristes e convidativos à abstenção futuros pleitos eleitorais sem a rebeldia dos "pequenos partidos". Veremos, brevemente, perante a desertificação que avança, surgir uma lei obrigando, sob terríveis penas, o corpo eleitoral a votar. Uma democracia fundada na coercividade é uma não-democracia. Para lá caminhamos.

21 dezembro 2007

Leandermania

Para os grandes ornamentalistas


.... do Oriente com votos de um Santo Natal e um Ano Novo plein de cadeaux para Je Maintiendrai (como é bela a nossa Zarah Leander), Exactor, Bic Laranja, Jansenista, Miss Pearls e Afinidades Afectivas.


Heimat, deine Sterne, por Hans Wocke (1942)

Heimat deine Sterne,
Sie strahlen mir auch an fernem Ort.
Was sie sagen, deute ich ja so gerne,
Als der Liebe zärtliches Losungswort.
Schöne Abendstunden,
Der Himmel ist wie ein Diamant.
Tausend Sterne stehen in weiter Runde,
Von der Liebsten, freundlich mir zugesandt.
In der Ferne träum' ich vom Heimatland.
Stand ich allein in der dämmernden Nacht,
Hab ich an dich voller Sehnsucht gedacht.
Meine guten Wünsche eilen,
Wollte nur bei dir verweilen
Warte auf mich in der Ferne.
Heimat! Heimat deine Sterne,
Sie strahlen mir auch an fernem Ort.
Was sie sagen,
deute ich ja so gerne,
Als der Liebe zärtliches Losungswort.

20 dezembro 2007

A "fuga" para o Brasil: um exercício de história comparativa


15 de Novembro de 1940. Uma imensa frota composta pela totalidade dos efectivos da Royal Navy, deixa os portos da Grã-Bretanha, prevendo-se a sua formação em comboio nas imediações da Islândia. No navio-almirante da RN, o cruzador de batalha HMS Hood, seguem o rei Jorge VI e a rainha Isabel, enquanto o recentíssimo King George V transporta as princesas Isabel e Margarida. Os restantes membros da família real viajam em outros couraçados e cruzadores, assim como os soberanos e governos exilados da Holanda e Noruega. O primeiro ministro Winston Churchill, acompanhado pela família e por altas patentes da Armada, segue no Repulse, encontrando-se o gabinete de guerra britânico espalhado, também por razões de segurança, por outros navios.Couraçados, cruzadores, porta-aviões e todas as unidades menores e auxiliares são acompanhadas por centenas de navios de comércio, carregados de documentos, oficiais do exército, marinha e RAF, além do tesouro do Banco da Inglaterra. O destino é o Canadá, refúgio onde o legítimo governo estabelecerá a base para a continuação da guerra contra a vitoriosa Alemanha. As Ilhas Britânicas estavam na iminência de ser totalmente ocupadas pela Wehrmacht, após o sucesso do Adlertag e da Operação Leão Marinho. Centenas de quilómetros a sul, a esquadra do Mediterrâneo Ocidental, escapando à destruição no porto de Gibraltar, recolhia em Lisboa o governo de Salazar e o presidente Carmona. Acompanhada pela pequena mas recente esquadra portuguesa, tinha como destino provisório os Açores, onde a soberania seria mantida. Esta retirada tornara-se imprescindível pelo desencadear da Operação Isabella, que reunindo o exército espanhol de Franco e os efectivos alemães destinados à ocupação de Gibraltar e de Portugal, previa a transformação da Península numa base avançada do Eixo, fechando o Mediterrâneo e o Atlântico Norte à navegação aliada.

Era este um cenário possível, no caso do colapso britânico no Verão-Outono de 1940. A transferência do governo inglês para um outro território da Commonwealth, deixaria intactas as possibilidades quanto ao desfecho da guerra mundial iniciada um ano antes. Negando-se à rendição, não existia qualquer probabilidade de entrega forçada da esquadra e de qualquer território ultramarino, ao mesmo tempo que os Estados Unidos eram forçados a reagir à nova situação criada. Essa retirada, seria hoje encarada como um alto serviço prestado ao mundo e à causa Aliada e uma clara demonstração de firmeza e determinação. Podemos imaginar apenas o que escreveriam os historiadores do nosso tempo, mas decerto a avaliação não poderia deixar de ser positiva.

***

Em absoluto contraste, temos uma vez mais a realidade portuguesa, que após 200 anos decorridos sobre a invasão franco-espanhola, ainda discute a conveniência ou o acerto da transferência do governo e corte para o Brasil, apodando-a muitos - os mesmos de sempre -, como fuga. Não se foge quando a bordo da quase totalidade esquadra real parte o governo em peso, a rainha e o regente com a família, o tesouro do Estado, a biblioteca real (que ficou para sempre no rio de Janeiro), documentos e bens de toda a espécie. Acompanhada por muitas dezenas de navios de comércio, a esquadra de guerra furtou-se à sua utilização por Napoleão. O príncipe regente e a família, símbolos da soberania, não vão negociar nem espolinhar-se aos pés do Corso. Chegado ao Rio, o soberano tem como primeira medida declarar guerra à França, guerra esta que se prolongará até à entrada do exército português em Toulouse (1814). Em toda a Europa, o presidente-coroado Napoleão I tinha manipulado, ofendido e humilhado os soberanos e as nações. Retalhara impérios seculares, criara novos Estados à medida dos seus interesses e da sua família. Espezinhara direitos adquiridos e violara todas as regras da diplomacia, levando Talleyrand a pronunciar a célebre frase ..."o que é excessivo torna-se insignificante"... Bonaparte estabeleceu uma tirania em todo o continente, impondo pautas aduaneiras abusivas, saqueando recursos dos países ocupados e estabelecendo a desigualdade como base de consolidação da França imperial. A política de destruição e de saque, acompanhada por todo o tipo de atrocidades sobre as populações era o quadro geral que se oferecia. Contudo, sempre houve quem entendesse ir ao encontro do invasor, procurando o entendimento possível que permitisse o exercício de um qualquer tipo de poder, por muito ilusório que fosse. Assim aconteceu com a deputação enviada à pressa a Baiona, prestando vassalagem ao conquistador que já tinha como refém o sogro do príncipe regente, o rei Carlos IV de Espanha. Cedendo e negociando, a Espanha sujeitou-se a todas as arbitrarieades imagináveis, tendo mesmo que suportar a colocação no trono do inepto José Bonaparte, arvorado em simples maire de Madrid com o pomposo título de rei da Espanha e das Índias. Numa época em que a honra ainda contava no âmbito das relações internacionais, o futuro D. João VI poupou-nos a tudo isto. No memorial de Santa Helena, Bonaparte acaba por reconhecer o fracasso da sua política no ocidente, quando viu frustrado o seu projecto de capitulação portuguesa. Nada surpreendente é a posição da generalidade dos académicos brasileiros, que julgam esta transferência da corte e governo de uma forma absolutamente positiva. Não se encontrando comprometidos com os interesses e "legitimações" dos regimes que têm vigorado em Lisboa, estabelecem a partida da família real como um marco imprescindível para a compreensão dos acontecimentos que, tendo garantido a sobrevivência de um Portugal independente, conduziram também à pacífica independência do Brasil. E nisto são inamovíveis. Os náufragos da putrefacta barcaça de 1968 encontram sempre motivos para o amesquinhar da nossa História. Desprezando o povo de que fazem parte, são eles, em suma, os principais responsáveis pela actual situação de ignorância, cobardia e desânimo vigentes. Do alto das suas pretensas cátedras, não ensinam: balbuciam lugares comuns, enraízam preconceitos. Intimamente, têm consciência da sua pequenez, não pesquisando e rejeitando todo o trabalho sério que possa abalar as suas periclitantes e rizíveis certezas. Destes, Portugal nada pode esperar. Não alfabetizaram, não despertaram um verdadeiro espírito científico nos estudantes e pior que tudo, são totalmente incapazes de construir a base mais sólida de qualquer verdadeira democracia: o espírito cívico. Estejamos ou não em desacordo com Mário Soares - como geralmente estamos -, há que reconhecer que tem sido a única figura pública a tecer comentários válidos acerca dos sucessos do Outono de 1807, assim como à histórica transcendência da decisão de D. João VI e do seu governo. A sua já longa vida, o sentido de oportunidade e, talvez, um certo renascer de um esquecido orgulho nacional, não o têm calado nesta época do Centenário. Não há dúvida que comparando-o ao nanismo mental vigente hoje em Belém e S. Bento, o homem parece agigantar-se, não perdendo qualquer ocasião para vincar aquilo que verdadeiramente interessa. Nem a sua paixão pela França parece fazê-lo esmorecer. Só lhe fica bem, mas espero que esta capacidade de discernimento lhe venha permitir fazer outro julgamento acerca de outro centenário que se avizinha: o do Regicídio. Esperamos para ver.

E Lucas Pires triunfou no Sião


Chegou com tímida afabilidade, armado de sorriso e obra. Foi ontem no Patravadi Theater em Tonburi, na margem oposta de Banguecoque, que Jacinto Lucas Pires, um dos mais destacados escritores portugueses da nova geração apresentou Universos e Frigoríficos, agora em tradução vertida para língua tailandesa por Puchong Dejakom. Um sucesso absoluto, com casa cheia até à porta, muita imprensa e, sobretudo, muitos lusitanistas. Lucas Pires portou-se à altura e conquistou a plateia confessando o amor recente pela Tailândia. O público siamês, habitualmente pouco expansivo, rendeu-lhe demorada aclamação. Uma vitória para a literatura portuguesa num gesto de verdadeira diplomacia cultural a que não faltou o nosso embaixador no Sião, Faria e Maya, cujo trabalho começa a render frutos. Hoje, na velha mansão apalaçada da embaixada, almoço com Jacinto e meia dúzia de excelentes conversadores. É aqui, longe de casa, que sinto uma pontinha de orgulho - daquele que provoca pele de galinha - sempre que são evocados os séculos ininterruptos de gesta portuguesa no Oriente. Esperemos agora, com o artista refeito do jet lag, que a matéria asiática aflore. À saída, uma foto com Pralom Bunrasamee, outra campeã das coisas portuguesas na Tailândia.

18 dezembro 2007

Os nossos "cães de guarda"


Já nos havia bastado a inépcia dos missionários gauleses para a Ásia expedidos pelo Rei Sol - que aqui semearam sizânia q.b. - para nos vermos livres da concorrência dos pregadores da Boa Nova. Porém, em inícios do século XIX, com a Europa em cinzas e parte das colónias europeias asiáticas ocupadas manu militari pela Union Jack, a London Missionary Society, mas também a American Board for Foreign Missions, começaram a querer reescrever a história do cristianismo na Ásia, mudando-lhe o registo e procurando impor a gramática de Lutero, Calvino e toda essa turbamulta de iluminados que convencionamos crismar como "protestantes". Gente sem qualquer preparação, fanática, intolerante e perfeitamente indiferente ao meio, começou a demandar a China, a Insulíndia e o Sião. É evidente que nada conseguiram, mas do seu porfiado como vão esforço ficaram relatos e memórias desses pregadores do "Gospel"que merecem a maior atenção.
Leio presentemente um fantástico Early Missionaries in Bangkok: the Journals of Tomlin, Gutzlaff and Abeel 1828-1832 para melhor compreender esse outro vector da ocidentalização que foram (e são) as companhias missionárias protestantes. O título peca, infeliz, pela arrogância. Os "Early Missionaries" do século XIX chegaram, por sinal, bem atrasados à reunião: os nossos portugueses já cá andavam na pesca de almas há quase trezentos anos, conheciam a língua, os costumes e instituições e estavam tão envolvidos com a vida dos povos que eram, a um tempo, pregadores, funcionários, médicos, engenheiros e diplomatas ao serviço dos potentados. Que supino atrevimento esse de missionários ad hoc ao presumirem que aqui chegavam e, zás, num toque de mágica, manipular com as suas boticas e sangrias e com o arsenal de medos e apóstrofes, obrigar os gentios a abandonar a "idolatria". Ora, para nos darmos conta de quão entranhados estavam os portugueses nestas paragens, nada melhor que deixar o inimigo falar. O inimigo, neste caso, Jacob Tomlin, que chegou ao Sião em 1828 e foi confrontado, no primeiro encontro com as autoridades siamesas, com o comandante do porto de Banguecoque - um "português", isto é, um católico - e, logo de imediato, com o Praklang/Barcalão [Ministro dos Exteriores], bem assessorado por "portugueses". Nada melhor que um naco de deliciosa prosa para elucidar os nossos leitores:


"Sabbath August 24 th, 1828: "I called Mr. Hunter and went with him to the Captain of the Port. He is head of the Christians residing in what is called the Christian Campong. (...) He speaks a sort of Portuguese English, seems a mild, candid, inteligent spirit (...). We went together to the Phra Klang's and found him sitting on a bamboo platform in the corner of a carpenter's shop contiguous to his house. Gutzlaff was already there. The Captain, who interprets, with several other Catholics, sat crouching behind us like dogs".


O elogio não cabe na letra das palavras. Sim, os católicos "portugueses" eram os cães, mas os cães de guarda do Sião, impedindo qualquer cedência e qualquer manipulação. Acresce que, conhecendo o país ou sendo dele naturais, cumpriam as regras da etiqueta, coisa que não passava pela cabeça dessa gente recém-chegada das pocilgas dos portos londrinos. É evidente que nada conseguiram. Regressaram, cheios e desculpas, aos portos de onde haviam partido. Os portugueses", que aqui já estavam há trezentos anos, aqui permaneceram. Hoje, os 500.000 católicos tailandeses são a memória dessa presença.

17 dezembro 2007

Annunziata do Vantagem Comparativa

Pensava haver perdido os admiradores desde que me mudei com armas e bagagens para as Ásias. Tantos amigos eu tinha que me sentia o mais afortunado dos blogadores. Saí de Lisboa, deixei a barra e perdio-os quase todos. Longe dos olhos, longe do coração ! Qual não foi o meu espanto quando hoje, com tantas ligações do Vantagem Comparativa, fui confrontado com um saboroso prémio, na companhia de outros três virtuosos: Jansenista, Mar Salgado e Portugal dos Pequeninos. Deu para recarregar o Ego. Obrigado.