05 dezembro 2007

Um dia para não esquecer (6): fogo real


Extenuado, não quis seguir o cortejo que se concentrou frente ao Palácio Real. Manda a prática que pelas sete e meia, quando o Rei abandona a cerimónia budista no Wat Phra Kew, a multidão acenda uma vela e entoe as velhas canções patrióticas que fizeram deste reinado o mais longo e próspero da história recente do país. Regressei a casa. Porém, uma surpresa aguardava-me. Os meus vizinhos apinhavam-se no hall do prédio para, juntos, celebrarem o aniversário com cânticos de louvor a Rama IX. Tendo faltado à cerimónia das velas, foi aqui que a segui. Entoado o hino nacional e os vivas ao Rei, cada um foi plantar a sua velinha no canteiro da entrada.


Long live the King of Siam

Um dia para não esquecer (5): o monarca e o seu povo


O Rei da Tailândia, que subiu as escadas do trono em 1946, é um verdadeiro prodígio político. Quando assumiu funções, a monarquia havia sido confiscada por ditadores-regentes, uns fascizantes com sonhos presidencialistas, outros deslumbrados pela ideia de uma "República Popular" à imagem dos tristes satélites e peões da URSS e da China maoísta. Rama IX foi-se impondo ao respeito do povo e desmontou, um a um, os argumentos da clique politiqueira que desde 1932 transformara o país numa fruste cópia dos regimes autoritários que fizeram história no entre-guerras, ou no imediato pós-guerra. A Revolução que Rama IX desencadeou assenta, desde então, na fusão de nacionalismo, budismo e democracia representativa, forças potencialmente explosivas mas aqui direccionadas para uma síntese que se tem dado bem. O rei promoveu a reforma agrária, fomentou e dignificou a agricultura, decretou o ensino obrigatório para todas as crianças - a Tailândia só tem 1% de analfabetos - e lançou uma rede de grandes planos de fomento social e contenção dos estragos causados por uma imparável industrialização. O homem é idolatrado e os tailandeses sabem que lhe devem a vitória militar sobre o comunismo - o PC da Tailândia desencadeou guerrilhas a partir de 1966 - e a promoção da sociedade civil. Deve-se-lhe, também, a protecção e promoção dos direitos das mulheres, a luta contra a toxico-dependência, a solidariedade para com as vítimas do SIDA, a protecção às crianças orfãs e um interminável esforço na luta contra a corrupção e o autoritarismo, velhas doenças do Estado. Vi-o hoje no sua blindada limousine. As pessoas ajoelharam-se, choraram e chamaram pelo seu nome. Um coro tremendo saudava-o com um Son Phra Ja-roen, o que na língua real - os reis possuem, como no Japão, uma língua exlusiva - se pode traduzir em "tenha uma vida longa e cheia de saúde". Pela segunda vez comovi-me. Quem me dera ter um chefe de Estado assim !

Um dia para não esquecer (4): os pilares da autoridade







Hoje não há parada, mas as Forças Armadas - que estão no poder, diz-se com o beneplácito real - vieram em peso para desiludir quem pense em contra-golpes. Estamos a duas semanas das eleições que reporão a legalidade democrática, mas a Tailândia, mais que uma democracia constitucional, mantém-se uma monarquia. Aqui o Rei tem a última palavra a dizer. Oficialagem dos três ramos (tahan bok/ Exército; tahan rewa/ Marinha; tahan agard/ Força Aérea), mais Guarda Real, Milícias e Polícia enxameiam os passeios. As fardas são esplêndidas, impecáveis e altivas. Aqui respeita-se o uniforme. Soldado que se preze não o larga e a população adula-os com sorrisos e vénias. Vejo, também, aqui e ali, com o seu semblante ausente e meditabundo, monges budistas, de açafrão enrolados e sobrancelhas rapadas, como manda a tradição eremita siamesa.

Um dia para não esquecer (3): a força do povo




Apanho um tuk tuk - motorizada-táxi com caixa para dois passageiros, sucedâneo do velho riquexá - e atravesso a grande metrópole em direcção a Ratchadamreong, a enorme artéria de oito pistas que rasga o coração histórico da capital siamesa, local dos grandes ajuntamentos e sala de visitas do país. É aí que se situam os ministérios, o velho palácio real de Dusit e o Wat Phra Kew (templo do Buda Esmeralda). Um mar de gente - serão 300.000, 400.000, 500.000 - desloca-se para o maior evento do ano. Uma mole de amarelo vestida, bandeiras nacionais tricolores e bandeiras douradas da casa real. Com a impunidade de farang (europeu) circulo ao longo da avenida, coisa a que nenhum thai se atreveria, pois aqui a polícia é senhora e dona. Vou tirando fotos avulsas. Crianças de colo, idosos, ricos e pobres, a burguesia dos negócios, a burguesia do funcionalismo, os calceteiros, carregadores e operários do Isan (região deprimida da Tailândia), estudantes das universidades, , gente minúscula e gente de cabedais junta e sorridente, fazendo jus ao turístico slogan do "país do sorriso". Dizem que ali estão desde ontem, para melhor poderem ver o seu Rei. Curioso não ter assistido a altercações, gritos, discussões e empurrões. Até os sisudos policias estão descontraídos e, coisa rara, sorriem como o povo paisano. É o grande povo tailandês, de sorriso quase infantil, que ali está em peso. Comovo-me e não me revejo em nada que vi até hoje na velha, manienta e afectada Europa.

Um dia para não esquecer (2): a alegria do povo chão


Saio de casa em em plena soi (ruela), cruzo-me com dúzias de pessoas cujos rostos me são já familiares: vendedores de rua, mulheres da limpeza, varredores, donas de casa, cauteleiros, polícias, idosos e crianças. Dir-se-ia não haver outra cor. Todos trajam de amarelo: o meu velho amigo que poderia ter saído de uma gravura orientalista de Oitocentos, o tal que me vende as papaias, as bananas e os abacaxis cumprimenta-me com um "viva o Rei". Adiante, um condutor de táxi-motorizada, diz-me que hoje não trabalha, pois está de festa e vai participar nas cerimónias do aniversário do Dia do Pai (o dia do Rei). O seu cão traja a rigor com o amarelo dourado da realeza.

Um dia para não esquecer (1): o sol vermelho

Seis horas da manhã, 22 graus, tempo "frio" para os tailandeses; o pino do inverno tropical (redoo nau). Acordo ao som de fanfarras. Na mesquita atrás da minha casa, o muezin chama os fiéis do alto do minarete. Uma enorme fotografia do Rei, em oração com muçulmanos, lembra que neste país budista todas as religiões e credos são tolerados, sendo o monarca o protector que a todas ouve, protege e pede lealdade. Faz hoje precisamente 80 anos que Bumibhol, rei da Tailândia, nasceu no exílio numa pequena cidade dos EUA. Sem paixão, mas sem juízos precipitados, desço do meu apartamento. À porta, no hall, um altar foi preparado ao longo da noite pelos funcionários do condomínio, mostrando o soberano com a regalia dos grandes dias, sentado e hierático como cabe a um homem tido como um deus pelos seus compatriotas.

A Grande Farra


A Point de Vue acaba de publicar os dinheiros de algumas listas civis de chefes de Estado. É edificante e merece reflexão:
Isabel II, 15.500.000 Euros
João Carlos, 8.050.000 Euros
Beatriz I, 5.600.000 Euros
Margarida II, 8.600.000 Euros
Carlos XVI, 5.200.000 Euros
Harald II, 15.000.000 Euros
Alberto II dos belgas, 9.542.000 Euros
Henrique do Luxemburgo, 650.000 Euro
Cavaco Silva, 16.000.000 Euros
Sarkozy 100 Milhões (!)
É claro que a dotação para Belém passa sempre entre as malhas da discussão parlamentar, sem que se fale no caso, especialmente na comunicação social. Que contraste com o passado. A estes gastos, temos que somar três presidentes passivos, cada um com as suas mordomias (escritório, carrão, chauffeur e secretária). O atelier da rainha D. Améli, passou para a posse de Sampaio, custando mais 800.000 ao erário. É claro que sai logo um republicano a terreiro dizendo que urgia recuperar o edifício ! Sugiro que para a comemoração da república, o presidente passe a consumir a mesma soma de há setenta anos atrás, como acontecia com D. Carlos. Na verdade, a dotação de D. Carlos I era exactamente a mesma desde o tempo de D. João VI e ainda por cima 20% era imediatamente cedida ao tesouro para minorar o défice. Ficava apenas com o dobro do salário de um ministro. Proponho, em conformidade, que em 2010 o Senhor Presidente receba o mesmo que o marechal Carmona em 1930, assim como o palácio de Belém passe a consumir o mesmo com que tinha de se arranjar naquela data. Havia de ser bonito, lá se iam as dótóras todas, os Mâcedes SLK e os assessores.

03 dezembro 2007

Victoria's Wars


Embrenhado no estudo da história do Sião nos umbrais da contemporaneidade - i.e, da formalização da identidade de um Estado asiático moderno à luz das concepções de soberania, tradição e nacionalismo importadas do Ocidente de Oitocentos - não deixo de acompanhar lateralmente o vertiginoso ritmo editorial de bibliografia dedicada à res asiatica, surpreendendo-me a cada passo pela qualidade, profundidade e actualidade das matérias contida nos títulos que me vão chegando às mãos. É sabido que tais temas não interessam à generalidade dos nossos leitores, nem aos académicos, nem aos decisores políticos. Não fosse o labor de três ou quatro reputados estudiosos dessas questões - Jorge Flores, Vasconcelos Saldanha, Luís Filipe Tomás, Maria Ana Marques Guedes - e para nós, portugueses, esse momento axial da formação do mundo globalizado passaria à margem, tão afanosos andam os nossos historiadores agarrados às minudências de catarpácios dedicados às lutas sociais nas campinas e lezírias do Ribatejo em finais do século XVIII, ao estatuto da mulher camponesa na Vidigueira de 1930, aos cacos de barro encontrados numa herdade de Castro Verde ou à problemática das "lutas femininas" e do "medo do falo" nos contos populares. Tudo questões relevantíssimas, destinadas à poeira das bibliotecas ou à aprovação de uma tese que não altera uma molécula que seja no minúsculo e tristonho ambiente da Universidade Portuguesa.



Devoro neste preciso momento a mais recente obra de Saul David, autor de grande fôlego que já conhecia de um admirável Indian Mutiny e de um arrebatador Zulu. O autor tem-se especializado em questões de história militar britânica, nesse preiamar do imperialismo e do colonialismo que catapultou a Velha Albion victoriana para a posição de império mundial. Tenho mudado de opinião a respeito dos britânicos. Vira-os, durante muito tempo, intoxicado pelo despeitado francesismo ou pelos ecos do republicanismo saloio, como um povo de piratas e aventureiros ávidos e sem pingo de respeitabilidade; a velha tese posta a correr desde os tempos de Napoleão, de Hitler e Estaline, ou seja, dos continentalistas sem visão do mundo. Nestas Guerras Victorianas abre-se-nos em visão panorâmica o cadinho de lutas em que os britânicos se envolveram, da Crimeia à Índia, do Afeganistão à China, ao Sudão à Birmânia para imporem a sua Pax, mas sobretudo a concepção de um mundo aberto ao livre comércio e a ideia de uma comunidade internacional fundada na aceitação de uma cultura diplomática e de um direito internacional que tornasse possível evitar os conflitos armados. Sei que os britânicos - quem não teve pecados no tribunal da História ? - exorbitaram dessa força, que cometeram massacres, desencadearam guerras de agressão não provocadas, que exploraram até às últimas consequências as vantagens da metralhadora (e até do avião, no Iraque dos anos 20) para se apossarem dos pontos vitais por onde passava o comércio e a riqueza mundiais. Mas fizeram-no por uma ideia que veio a triunfar. Fizeram-no, também - preconceitos à margem, racismo à margem - em sintonia com o espírito do tempo. Nesse particular, a força do imperialismo britânico foi, aceitemos ou não, o artífice da globalização da ideia de Estado moderno, da imposição de elites urbanas e letradas e, até, das independências. Sem essas guerras, sem esse grande império, o mundo teria sido diferente, autárcico, fragmentário, regional.


Elgar: Pompa e Circunstância, 1