15 novembro 2007

Do meu cruel anti-manicurismo


É elemento de toda a evidência que da leitura de uma nota aqui deixada há dias não surgia como prioritária a exibição da mais pequena mácula de desdém pelo nobre ofício de cortar unhas, afinar garras, alisar manápulas e pedúnculos. Recebi meia dúzia de críticas, umas apostrofando o meu orgulho e preconceito, outras lembrando a dignidade de qualquer profissão "honesta"e da dimensão "espiritual" e utilidade social do esforço de qualquer trabalho assalariado. Se bem que desconheça a existência de profissões desonestas e me interrogue sobre a elevação nirvânica da maioria das ocupações, nesses comentários induzidos pelo mais sincero e respeitável apreço pelo esforço alheio detectei, contudo, a sombra de tudo quanto me assusta no mundo moderno: o mito da igualdade e da horizontalidade, o mito da incompetência e a indistinção dos direitos dos cidadãos. Reporto dois comentário, por neles se alinharem os argumentos desta curta réplica e por reconhecer nos seus autores estimáveis qualidades humanas merecedoras da minha atenção.


"Depois vem toda a sua dissertação sobre o Kaiser, Hitler, enfim... Penso que não preciso de lhe relembrar as selvajarias cometidas pelo Rei da Bélgica no Congo (apenas para dar um exemplo)! A superioridade moral, ou civilizacional, não advém do berço nem da posição social. A moral, a ética e os valores são resultado de uma equação muito mais complexa onde uma coroa, ou um nome de família são apenas um dos coeficientes e, porventura, dos menos importantes." (Olindo Iglésias)




Caros Olindo Iglésias e Jansenista:
Nada mais errado presumir existirem valores suspensos no ar. Os valores são, para os essencialistas - que acreditam nas coisas em si mesmas - como para os dialécticos - aqueles que neles identificam um confronto de qualidades em relação - parte da vida de qualquer ser humano. Nunca vi a bondade, mas esta revela-se no comportamento de cada um; nunca me cruzei com a piedade pelos fracos, o respeito pelos inválidos, a caridade pelos ofendidos e injustiçados, o amor de pátria e o bom gosto, mas estes manifestam-se como insofismáveis na acareação com os seus contrários. Ora, situando-me apenas no elementar registo historicista e sociológico, verifico que tudo aquilo que consideramos "valores" transporta, pelo menos no Ocidente, uma genealogia e uma genética aristocráticas. Mesmo aqueles "valores"- produto da mundivisão burguesa - que se foram impondo ao longo dos últimos três séculos, mimetizaram ou foram inspirados pela percepção aristocrática de um mundo alinhado por categorias irredutíveis sem as quais não há - não pode haver - entrega, sacrifício, penosa aceitação de deveres e voluntária privação daquela pequena, humana e subjectiva vontade pelo prazer. Há, notoriamente, pessoas cuja preocupação maior é a de tirar, fruir, coleccionar, armazenar. É nestes consumidores de coisas, nestes esfomeados pela posse e nestes ansiosos pela expectativa do celeiro vazio da manhã seguinte que encontramos, sem deslustro, o "espírito classe-operária". Por isso, sociedades governadas por pessoas movidas por tal mundivisão, inventaram a falácia da "assistência social", pois desconheciam a caridade; por isso, sociedades submetidas ao jugo das "manicures-capitalistas" foram resvalando para a demagogia, o populismo e a pieguice lamecheira, pois desconhecem a demo-filia, a indistinção dos cidadãos perante o Estado, a noção de Bem-Comum e, mais importante, o sacrifício da corveia da governação. Para as "manicures-capitalistas", o Estado é um "nós" oligárquico a cuja posse se acede pelo dinheiro, pela influência e pelo lóbismo que vai matando a abstratividade, vai matando o sentimento de pertença a uma comunidade e convidará, mais tarde ou mais cedo, ao ascenso de tiranos e "salvadores". A monarquia, quer queiram quer não - mesmo que as tenhamos limitadas, deformadas e reduzidas - continua a ser o espelho das qualidades a que as repúblicas vão beber a respeitabilidade, a fruição do sagrado, a grandeza e a encenação. Contudo, como o mundo não é feito de Pigmaleões e Galatéias, as pequenas vendedoras de flores não são mais inspiradas por Professores Higgins, mas por ex-vendedoras de cravos que do seu ofício muito sabiam e que tudo o mais desconhecem. E por desconhecerem, odeiam, ridicularizam ou têm medo. O melhor republicanismo português é, assim, fruto da arrogância das estúpidas "classes médias", sempre intolerantes perante aquilo que a auto-estima e a ambição individual não podem alcançar, bem como da inveja da classe-operária por aquilo que não está exposto nas bancadas de um super-mercado. Entre o poder do dinheiro atrevido, a vontade de assalatar a baixela do vizinho e o respeito por aquilo que não sou e nunca poderei ser, mas que me garante a liberdade perante o dinheiro - que só se quer reproduzir - e a inveja - que nos quer ver a todos pobres e iguais - escolho, sem pestanejar, as monarquiais (quaisquer que sejam).