01 novembro 2007

Algo em mim diz sim ao intervencionismo


De novo o debate sobre as virtudes e defeitos da iniciativa particular. Se sou absolutamente liberal, anti-estatista, anti-intervencionista e ferozmente avesso à manipulação pelo Estado do aparelho produtivo, bem como ao regulamenteirismo, à codificação e a esse supino abuso que se exprime pelas "políticas sociais" - forma recorrente de usurpação do bem-comum pelo Estado refém de ideologias - mantenho sérias reservas sobre a bondade da iniciativa dos cidadãos em domínios onde não há expressa intenção de lucro.


As pessoas movem-se por interesses, o que numa economia aberta à concorrência (vulgo capitalismo) se deduz da lucratividade de qualquer investimento. Não há investimento sem lucro desejado; logo, não há iniciativa particular que não transporte expectativa de retorno. O fracasso do ensino público não significa, pelo menos entre nós, que o ensino privado e cooperativo representem uma alternativa ao Estado. Bem pelo contrário. Se há instituições em que a sede de lucro, a tentação da ilegalidade, do favorecimento e do nepotismo, a promoção da mediocridade e o estilhaçar do bom nome da vocação encontram pleno significado, estas são - a história recente comprova-o à exaustação - as universidades privadas, os colégios, os pré-universitários e toda essa malha fraudulenta que se foi espraiando pelo país desde a década de 80.


A Revolução desqualificou a Universidade, proletarizou o secundário, exauriu o ensino básico e matou, por preconceito ideológico e igualitário, o ensino técnico-profissional. Neste particular, o maior desastre de 33 anos de regime encontra na Escola expressão carregada de funestas preocupações. Porém, a sociedade civil portuguesa, ao invés de apresentar uma alternativa, cavou ainda mais fundo o descalabro. Atentar nos escândalos da Moderna, da Independente e doutras Donas-Brancas produtoras de diplomas e mentecaptos, mais que um exercício estatístico e factual, deve ser, antes de tudo, uma reflexão sobre a tendência inata dos portugueses em enganar, falsificar, abusar e favorecer amigos, parentes e cúmplices. Falta-nos aquele sentido de pertença comunitária que impede a um britânico, a um alemão, a um canadiano ou a um australiano tirar vantagem pessoal de algo que está ao serviço da comunidade. Em Portugal, do porteiro ao Presidente, todos partilham de uma visão casualista, pelo que ninguém cumpre a lei conquanto esta não traga vantagem pessoal. O ensino privado mostrou quão impreparados estávamos para aceitar uma sociedade de direitos abstractos. Nisto, sou absolutamente anti-liberal. Afinal, para um vulgar gangster, que diferença haverá entre o negócio dos copos, da "movida nocturna", das pensões de má frequência e o ensino ? A meu ver, nenhuma.

30 outubro 2007



VERONIKA, der Lenz is da

28 outubro 2007

Fazendo inveja aos nostálgicos do Raj

O meu "Ashram", lembrando o Jansenista. Trinta e sete graus à sombra. Ventoínha no tecto, um gélido copo de chá com limão - Cha Manao - na mão esquerda e um cigarro de betel na direita, olhando o velho jardineiro de cócoras que ali vai aparando com paciência budista a natureza que cresce imparável. Algures entre as memórias de Paul Scott e as realizações de Jim Thompson.

Na terra dos elefantes

Nas margens do Indo, à sua visão Alexandre ficou siderado; Aníbal fez soar as trombas dos proboscídeos às portas da Cidade Eterna; D. Manuel usou-os em Roma como prova que os Portugueses não blasonavam das suas façanhas em terras do Oriente. Que eu saiba, o último eco da prestabilidade castrense das grandes feras mansas foi a oferta de Rama IV a Lincoln de uma dúzia destas bestas, para que a União as usasse na Guerra Civil. A gentil proposta foi delicadamente recusada. Talvez o Sul se tivesse rendido perante as carapaças invulneráveis. Hoje, vejo-os em verão ecologista da janela do meu quarto.