22 outubro 2007

A desconstrução


A tradição filosófica ocidental moderna assenta na problematicidade do conhecimento, pelo que duvidar e tomar os fenómenos como enganadores, quaisquer que sejam, se transformou numa verdadeira obsessão que mobiliza a totalidade do esforço de pensar. Daí que, entre nós, a "teoria do conhecimento", a hermenêutica, a heurística, a crítica e outras ferramentas de desconstrução tenham ocupado a quase totalidade do espaço da reflexão. Para quem já não busca qualquer certeza, mas tão só se contenta com a contemplação da artificialidade do discurso, o pensamento passa a reflectir, apenas, a melhor forma de lobrigar o erro, voluntário ou involuntário, o mascaramento e aquilo que se esconde por detrás das palavras. Brincar com o ininteligível, confundindo-o com primitivismo, como o quiseram os Iluminismos; recusar outras instâncias para além da razão, tomando-as como formas pré-lógicas, logo insusceptíveis de qualquer forma de conhecimento; recusar o sentimento, desprezar a espiritualidade - absolutamente subjectiva - determinaram a falência das instituições sociais e políticas, lançando sobre a cultura o véu da mentira partilhada. A coisa vem de longe, de Rosseau a Hume, de Marx a Nietszhe, de Freud aos auto-proclamados pós-modernos. E como a Filosofia é o arrimo invisível que mantém o Ocidente, mesmo que o taxista e a mulher-a-dias não queiram saber de Aristóteles nem de S. Tomás, o desastre da desconstrução atingiu esse mesmo taxista e essa mesma mulher-a-dias. Hoje, já pouco se acredita e a suspeição impera, como mancha que se espraia, nas atitudes e nos juízos que se formulam a respeito das pequenas e grandes coisas da vida comum.

Ao invés de se libertar dos profetas e das crenças, o homem ocidental revelou ao longo dos últimos dois ou três séculos uma crescente tendência suicidária e niilista. Se o sem-sentido, o absurdo ou o vazio se substituíram a formas integradoras, ditas "tradicionais", como nos podem exigir o cumprimento das leis, o respeito pelas instituições, o acatamento das decisões superiores, a aceitação da cultura e desses valores sem os quais não existiríamos ? Li, com notável atraso, o inquientate ensaio Le Défi de l'incroyance, de André Grjebine, que recomendo vivamente.
Aqui na Ásia, ainda muito "tradicional", questiona-se o acessório, mas poucos se atrevem atirar a primeira pedra a tudo aquilo que "é porque é". Talvez resida nesta prudente atitude o triunfo do Oriente. Perguntava ontem ao meu porteiro por que razão mostrava um semblante tão triste. Respondeu-me: "o nosso rei (nai muang, que quer dizer "o rei que está dentro de nós") está muito doente e não sabemos o que será de nós sem ele". Tomara nós que ainda persistisse em nós, ocidentais, tal veneração e respeito pelas instituições e pelos servidores da comunidade.