20 outubro 2007

O Conserto das Nações

Para os amantes e entusiastas das artes da diplomacia, um blogue a consultar.

19 outubro 2007

Assassinando alegremente o meu inglês


Com o passar dos dias, cercado e solicitado pela nova língua, aqui vou matando com prazer indisfarçável e uma pontinha de revanche a língua franca da nossa era. Assim, deixei de dizer caviar, que passou a CAÚIAR, lancei às urtigas os subtitles e adoptei os SUB-TITEN, esqueci-me das apple e adoro APPEN, vou à farmácia e peço PARACETAMON, substituo as BE-TA-REE do meu walkman e coloco um novo SÂ-TI-KÂR (autocolante) no meu passe. Para além disso, deixei de saber o que é um melão, pois aqui tomou a graça de FUCK-TONGUE ! A Ásia é um portento de criatividade. Não se copia, reinventa-se. Direitos de autor.... out !

16 outubro 2007

Tout ce qui est excessif est insignifiant !


Para os defensores de formas expeditas de governação - aquelas que se baseiam na aplicação do poder nu, sem negociação e sem controlo, vulgo ditaduras - os partidos políticos constituem, mais que um obstáculo à aplicação da vontade, um freio à realização e à produção de obra. Os ditadores e seus objectos - pois que, em ditadura, o apoiante é sempre um escravo da vontade do governante - confiam na liberdade de acção que o seu poder sem freio faculta para, assim, aspirar a grandes metas históricas. As ditaduras, que vivem obcecadas com a história, transformam o quotidiano em apetrecho logístico para grandes feitos. Aceito sem relutância que algumas ditaduras permitiram operar mudanças necessárias à fixação da modernidade, quando muitas democracias - vulgo sistemas representativos confiscados por elites divididas - fracassaram estrepitosamente. Aceito até de barato que algumas formas degradadas de democracia são nocivas, corruptas e dispendiosas; comprazem-se com o jogo estéril do debate sem ponto de aplicação e se transformam em escolas de mediocridade, de demagogia e mentira. É o velho modelo das "democracias latinas", que sempre convidaram ao retorno das ditaduras e do poder personalizado. Confiando mais no "governo das Leis" que no "governo dos homens" - por melhores ditadores que haja e por piores cumpridores da Lei que existam - não compreendo o afã desculpabilizador de muitas cabeças da esquerda nativa a respeito do processo em curso na Venezuela. As esquerdas, que acreditam na engenharia social, na reconstrução do homem e no governo perfeito, absolvem os ditadores portadores dessas boas-novas. Lembro, ainda, que nos bancos da universidade se ensinava que as "transformações necessárias" se operam com o sacrifício de vidas e que a marcha da história se faz sobre os seus "inimigos" [da história]. Era a desculpabilização marxista do comunismo de guerra de Trotski, do concentracionarismo estalinista e de todas as enormidades que pelo mundo se cometeram ao longo do século XX contra pessoas singulares, grupos sociais, etnias e confissões. Ora, o que nos é dado concluir, tendo presentes os últimos 50 anos, é que as ditaduras - todas, sem excepção, de esquerda - falharam, semearam pobreza, dependência, esvaziaram a iniciativa dos indivíduos e quase mataram a sociedade civil. A Venezuela não será excepção, com a agravante de se saber já, com a experiência vivida, qual o destino de tal aventura.

14 outubro 2007

Vendedores de depilatórios, arrumadores de cinema e portageiros


O congresso do partido sem ideologia, sem ideias e sem programa está a exibir em todo o esplendor o afundamento da dita classe política - cada vez mais sem classe e sem utilidade - que atinge a terceira geração sob o regime. De desclassificação em desclassificação, chegamos a este ponto sem regresso, entregues a fulanos e fulanas de vão-de-escada, semi-letrados e apenas mobilizados pela busca de uma nesga de notoriedade, de um lugar ou de uma promessa de favor. Sigo, aterrado, o tropel da jogatana, de exibicionismo alarve e falência que por ali vai. A Terceira República vai mal; antes, está comatosa. Se ao menos houvesse um De Gaulle; mas não, como sempre aconteceu, o regime cairá de podre às mãos de betas e logo virá um novo regime. A esse regime colar-se-ão os adesivos, os trânsfugas e os parasitas do erário do Estado. E assim continuará a vil tristeza em que o país escolheu viver.