21 setembro 2007

Cartas de amor

Quem as escreve ainda? Antes, uma, duas ou três por mês. Agora, com os computadores - e com a idade - talvez uma por ano. A tecnologia barata a matar o sublime. Folheio Verlaine, Keats e Twain, desinibidos cultores do género. Esses não temeram o ridículo, nunca ! Saibamos copiá-los.


Ich küsse ihre Hand, Madame

19 setembro 2007

Vergonha


Este homem foi cúmplice de um crime de sangue. Fabricou bombas, traficou revólveres, participou ou teve conhecimento da matança da Família Real. A República leva-o para o Panteão. Só lá faltam o Costa e o Buiça. Bom exemplo para o Estado, a Lei, a cultura cívica e demais valores que se ensinam na escola às crianças deste país. Se não estás de acordo com a forma de governo; se o teu partido não vence pelos argumentos e pelos comícios, mata, dinamita e elimina. Que excelente escola, esta, das virtudes republicanas ! Acresce que Aquilino, passe a torturada escrita, o prodigioso arsenal vocabular, o quase maníaco coleccionismo de ditos regionalistas, não passa de um escritor medíocre, como hoje lembrou VP Valente.

18 setembro 2007

Os portugueses, sempre esquecidos


Dos últimos dois textos aqui depositados recebi uma dúzia de comentários. Retive três, porquanto, carreando a sensibilidade corrente europeia a respeito de uma certa ideia de Ásia, indiciam a fixação de tópicos e tropos que julgo feridos de preconceito anti-ocidental, vulgarizado por décadas de inculcação de uma "culpa" que não cabe, decididamente, nesta tribuna. Ainda há semanas, relendo Borobudur, de Roger Vaillant, senti o peso desse incómodo sentimento de reparação que os asiáticos das décadas de 40, 50 e 60 atiravam aos europeus sempre que se aflorava o passado das relações euro-asiáticas. Qualquer ocidental, para agradar aos seus ouvintes asiáticos, tinha de se desculpar. Paradoxalmente, esse discurso anti-colonialista, anti-ocidental e anti-branco estribava-se na forma mais radical de imposição da "ciência ocidental" - i.e, o marxismo - e não raro axaltava a revolução dos povos oprimidos, as lutas anti-imperialistas e outros rodriguinhos hoje felizmente decaídos, dela decorrendo a aceitação incondicional de regimes absolutamente tirânicos que se foram instalando na China, com Mao, no Vietname, com Ho Chi Minh, e no Cambodja, com Pol Pot.


Um dos simpáticos censores lembrava-me o comportamento do "homem branco" vis-a-vis dos asiáticos, a brutalidade e as guerras que "movemos" contra povos pacíficos, o esbulho e arbitrariedades por "nós" cometidos no Oriente. Uma outra leitora, que presumo goesa, fazia requisitório cerrado contra o "colonialismo português", considerando-o tão ou mais nefasto que outras experiências coloniais, nomeadamente a holandesa, a britânica e a francesa. Por fim, um "estudante de História" salientava o carácter pioneiro da "pirataria lusa" e procurava demonstrar a intrínseca falta de respeito dos nossos antepassados face a culturas e civilizações "mais avançadas".


Como lembrava Gide noutro contexto, "a literatura não é feita de boas intenções". Mutatis mutandis, diria que o labor historiográfico também não o é. Porém, a verdade é que a História e os temas com ela relacionados envolvem uma componente promocional que se confunde com a propaganda dos Estados, as modelizações ideológicas e a necessidade de vulgarização requerida pela opinião pública; logo, quem tem poder para imprimir, vender e fazer prevalecer um ponto de vista tem oportunidade de reverter, manipular, escamotear e impor perspectivas que não resistiriam a um modesto contraditório.


Compro e leio com interesse obras relacionadas com a matéria asiática, sobretudo aquelas dedicadas ao Extremo-Oriente e Sudeste-Asiático. Nelas prevalece, ora a apologia da Grã-Bretanha - se escritas por britânicos - da França - se escritas por franceses - ou da Holanda. Portugal, bem como a Espanha (que nunca teve grande impacto sobre a Ásia, mau grado a permanência castelhana nas Filipinas até 1898), são liminarmente reputados como agentes de guerra, fanatismo e brutalização das culturas nativas. A história é velha e até os italiotas - sim, porque italianos só os há desde o século XIX - fazem um tremendo esforço em imputar aos "jusuítas italianos" o que de melhor a Europa e o Ocidente fizeram por terras da Ásia.


Comprei há dias um desses álbuns de leitura recreativa, em formato apelativo, belas reproduções e bom papel, destinado à mesa das casas burguesas, onde se recebe bem e onde os anfitriões deitam amiúde mão a objectos lembrando viagens e "mundo" conquistados pelo bem estar que se respira numa casa desafogada. De Gianni Guadalupi, China: Through The Eyes of the West, pretende oferecer uma visão panorâmica dos olhares que a Europa lançou, ao longo dos últimos dois mil anos, sobre esse continente que exerceu e continua a exercer marcante sortilégio sobre todos nós. As páginas e capítulos sucedem-se e vão acumulando os testemunhos da sinofilia - de Du Halde a Voltaire, Leibniz a La Mothe le Vayer, Bayle a Wolf - bem como da sinofobia emergente a partir do segundo quartel do século XVIII, de Rosseau a Vico, de Fénélon a Montesquieu.


Onde estão os Portugueses ? Nem sinal deles. Uma ou outra alusão discreta a Macau, um ou outro apontamento de margem, sempre impreganado pelo desprezo e por uma quase determinação em fazer esquecer que todos os outros europeus - sobretudo os jesuítas "italianos", "franceses", "belgas" (pasme-se) - com os seus telescópios, os seus relógios, autómatos, pincéis e artifícios encantatórios para os olhos do Trono de Jade - entravam em Pequim via Macau, via Portugal e graças ao Padroado. Uma nota de rodapé - uma bagatela - para o papel histórico dos diplomatas portugueses de sotaina. Foi graças ao Padre Pereira que a China dos Qing escapou a uma quase certa invasão russa. Através do tratado de Nerchinsk, o czar de Todas as Rússias e o Filho do Céu estabeleciam um modus vivendi que durante século e meio preservaria as frnteiras do Império do Meio às arremetidas ocidentais. Em última instância, foram os jesuítas [portugueses] que refrearam a perigosa aproximação da Europa. Mas nada disso rezam as obras de divulgação. Um ódio de estimação anti-português aflora, contudo, em textos bem mais cotejados por eruditos e académicos. Lembro L'Europe chinoise (1 e 2), de René Étiemble, um devastador tratado em que saímos em tiras, insultados, redicularizados e enxovalhados por um acérrimo defensor da cultura francesa, a tal que, chegada ao Vietname, tratou de se impor a chicote, trabalhos forçados e confiscações fundiárias; a tal que, numa das invasões da China pelas "potências", pegou fogo ao Versalhes Chinês (Palácio de Verão de Qianlong).


A historiografia oxfordiana, bem como a sorboniana e de Leiden, edificaram desde meados do século XIX um cerrado ataque à memória portuguesa na Ásia. O que lhes custa aceitar é o carácter dessa presença que, como Boxer lembrou, se fez, também de guerras, é certo, mas, sobretudo, pelo trato, pela concessão recíproca, pelo interesse mútuo e até pela criação de figuras vagas de partilha de soberania. Aqui temos lembrado repetidamente o papel que coube aos católicos siameses na preservação da independência do Sião na segunda metade do século XIX. Essa minoria, apelidada "portuguet", facultou aos soberanos thais a utensilagem teórica, os apetrechos tecnológicos e a informação do mundo exterior que tornou possível ao Sião escapar à agressão e colonização europeia. É destas coisas que os "scholars" britânicos e os eruditos franceses não versam nas suas obras.


Cancioneiro Jesuíta: Vau Mei (século XVIII)

16 setembro 2007

Bocageana

No Nesta Hora, sob o signo de Elmano Sadino.