15 setembro 2007

Meditação nas águas


No convés do batelão que me leva a Ton Buri, um monge budista, impassível, goza a brisa do fim da tarde.

13 setembro 2007

China Town


A ideia não lembra ao diabo. Os chineses não são propriamente atracção para câmaras fotográficas, pelo que uma aldeia sínica em Lisboa só aceleraria a exclusão de uma comunidade que tende a fechar-se no seu particularismo racial, linguístico e cultural. Os chineses não são, também, nem hotentotes nem recolectores do Xingu. Os vergonhosos "zoos humanos" que fizeram as maravilhas de exposições universais, mundiais e nacionais das primeiras décadas do século XX - atracção pelo exótico e pelo misterioso - não têm cabimento nem cumprem a agenda da inclusão das minorias. As comunidades agregam-se espontaneamente em zonas residenciais, pelo que inscrever essa tendência num plano urbanístico surge como excentricidade ou, pior, como um erro histórico tremendo. Os chineses são chineses onde quer que vivam. Não conheço povo mais cioso da sua identidade, mais orgulhoso da sua pedatura, mais compacto na manutenção de tudo o que os distingue dos outros: da Tailândia à Malásia, de Moçambique aos Eua e Canadá, do Brasil a Portugal, os chineses pautam a sua existência pela obediência à sua família, antepassados, líderes locais, aos seus negócios e lucros. São um povo admirável pela capacidade de sacrifício e trabalho, pelo investimento que fazem no futuro dos filhos, pela quase ausência desses impulsos a que chamamos individualistas e em que baseamos o rumo das nossas escolhas. Tal qualidade encerra um defeito. O chinês, quando excluído, acentua o autismo em relação ao mundo exterior. Teríamos, dentro de anos, escolas chinesas, jornais chineses, rádios e tv's chineses, templos chineses, salas de espectáculos chineses, bares chineses. É nessa atmosfera que germinam e prosperam as máfias, velha reacção de comunidades ausentes da vida política das sociedades de acolhimento. Creio que a Dr.ª Nogueira Pinto, ignorante das coisas orientais, não se terá dado conta que uma das forças mais activas no mundo globalizado contemporâneo é a diáspora chinesa. A China recobrou o ânimo, perdeu os complexos e medos face aos Ocidentais e vai alcandorar-se - já o é - em pólo de oposição à Europa e aos EUA. Os chineses não o dizem, mas sinto-o. Toda a minha admiração e amizade pelos chineses não me impede, contudo, de enxergar para onde caminha e ao que a China aspira na ordem internacional.


Zhou Xuan

12 setembro 2007

Dalai Lama


A visita do Dalai Lama a Portugal evidencia a consumação do triunfo da real politik do Ocidente em relação ao Tibete. Os negócios marcham, sempre, na dianteira da agenda diplomática, não havendo princípio algum de natureza moral que se lhes possa sobrepor. Se bem que o Tibete jamais fosse reconhecido como membro de pleno direito na comunidade das nações - não integrou a SDN nem a ONU - foi, desde o século XVIII uma região dotada de grande autonomia no quadro imperial chinês, tal como o Xinjiang (Turquestão Chinês), a Mongólia Interior e a Mongólia Exterior. O estatuto de nação tributária - que se estendia também, na concepção sinocêntrica em vigor até meados do século XIX, à Birmânia, ao Vietname, ao Cambodja e Sião - privava-o de manter relações com quaisquer outras potências.


Se a Birmânia, o Cambodja e o Vietname saíram da órbita chinesa por intrusão das potências europeias, caíndo na condição de colónias ou protectorado, o Tibete - importa lembrá-lo - foi intervencionado pelos britânicos em 1904. Se os chineses ali cometeram atrocidades inenarráveis a partir dos anos 50, com claros propósitos genocidas ou, pelo menos, etnocidas, os britânicos comandados por Younghusband não se livram do pioneirismo no recurso à força da metralha.



Os ocidentais responderão ao problema do Tibete como Churchill o faria aquando da invasão da Etiópia pelos italianos: "estamos como a venerável senhora, outrora prostituta e dona de um bordel, a respeito da moralidade dos outros; isto é, não temos moral alguma para condenar aquilo que já praticámos".



Se bem que a grandeza da figura do Dalai Lama seja inquestionável, o Tibete não existe enquanto entidade política distinta da China. A clerocracia lamaísta funcionava intramuros como funcionavam os coutos medievais. Mas não mais. A prová-lo, a preocupação, desde Qianlong, em proteger a diversidade das religiões existentes no Império, a devoção do Filho do Céu ao budismo dos Himalaias e a elevação do Lamaísmo a culto oficial da dinastia Qing.



O monopólio do odioso não pertence apenas ao governo comunista ou aos britânicos. No início da década de 1930, a SDN formulou críticas acerbas à violência e arbitrariedades cometidas pelo governo nacionalista de Nanquim contra as minorias étnicas, nomeadamente contra a cultura tibetana.



O que nos incomoda em tudo isto é a atrapalhação das autoridades de Lisboa, sempre ufanas na exibição de facínoras tolerados que aqui aportam no quadro da presidência portuguesa e tão cobardes no esboçar de uma singela demonstração de respeito pelo chefe espiritual do budismo tibetano. Lembro que o príncipe Aga Khan, quando aqui esteve em 2005, foi recebido, condecorado e aclamado pelas autoridades enquanto benfeitor e líder espiritual dos Ismaelitas. Dois pesos, duas medidas.

11 setembro 2007

Seis anos em luta pela nossa Liberdade



America, the Beautiful (Ray Charles)
Morreram para que continuassemos a viver como ocidentais.

10 setembro 2007

O comunismo como seita


O Avante teve ontem a homilia costumeira, com catarse de litanias, bandeiras e juras. Como qualquer seita, o comunismo alimenta-se dessa forma menor de religiosidade profana - dessa sacralidade laica sem transcendência que se empareda na dita ortodoxia - e que nunca se questiona para além dos limites daquilo que satisfaz a necessidade de se sentir de bem com aquilo que toma como realidade. Como qualquer religião menor que se desconhece, o comunismo vive a sua realidade de costas voltadas para a sua natureza pseudo-religiosa. Os comunistas dizem-se historicistas, mas socorrem-se do mito para salvar um pensamento carregado de crença - crença na teleologia da História, que se saldará por uma Revolução salvífica e num embate final entre o Bem e o Mal, aqui reduzidos ao ter e não ter - pelo que o seu discurso se torna opaco aos não iniciados, insusceptível de adesão racional e convocador de uma ligação, mais que emocional, mística.

Lembrando Caillois no seu sempre jovem ensaio Instintos e Sociedade, diremos que tal seita "não existe senão por oposição ao resto do mundo" e que, perdido o último arrimo ao bom-senso, com a defecção dos elementos mais inteligentes, "tomados pelo asco ou eliminados pela intriga dos velhacos", dela não mais resta que um teimoso grupo que se vai cristalizando em patéticas demonstrações de coerência. Li e ouvi os discursos dos pequenos sacerdotes do culto. Falam para dentro e repetem a linguagem religiosa - ininteligível para o vulgo - fascinados com o poder encantatório das frases-feitas. Dali já não vem mal ao mundo. Estão condenados à incomunicabilidade, perderam o pé à realidade dos outros - do mundo - e sentem-se cada vez mais fortes na sua distinção. Aquilo vai morrer nos próximos dez anos. O comunismo continua tão jovem como o espantalho de Lénine no mausoléu da Praça Vermelha.