08 setembro 2007

Eva Peron


Uma forma diferente de santidade. Tela de Nuno Castelo-Branco.


Cumparcita

06 setembro 2007

A guerra estúpida

Medições frenológicas de sacerdotes sob a Primeira República


O João faz o retrato da coisa e do coiso: a esta III República coube um Pai da Pátria que pede palmas aos filhos e, com idade de bisavô, ainda quer mandar e dispor dos negócios do Estado. Agora deram-lhe uma Comissão para a Liberdade Religiosa. Pergunto: há alguma inibição à liberdade religiosa em Portugal ? Há um problema religioso, ou trata-se de uma manobra escondida - controleira e patrulheira - para desenterrar o cadáver fedorento do anti-clericalismo primário do Senhor Afonso Costa ? Se assim for, o Pai da Pátria de 89.000 km2 será tudo menos equidistante e independente. Eu sou agnóstico, respeitador das coisas da religião dos outros e compreendendo a genética cristã que deu corpo e razão à existência da pátria portuguesa. Ao invés, o Pai da Pátria mínima é laico, despreza a religião e considera-a um inimigo do "progresso", das "luzes" e do Estado. O Pai da Pátria soube utilizar a Igreja para lançar a contra-ofensiva nacional anti-comunista no verão de 75. Espanta-me que, com a idade do fim, repita o erro clamoroso que levou à cova a Primeira República de má memória. Portugal, gostem ou não, é um país católico. Não há, entre nós, qualquer questão religiosa que requeira intervenção, correcção e legislação. Sempre que os regimes se envolvem nestas questões, perde-se um pouco a liberdade dos cidadãos, a liberdade da sociedade e o respeito devido ao Estado. É, em suma, uma guerra estúpida.


Ragtime Dance, de Jopliniana (Advis)

04 setembro 2007

Alpoim Calvão e os milionários descolonizadores


Debitam os noticiários a prisão de Alpoim Calvão na Guiné-Bissau. Alegadamente, o antigo oficial das tropas especiais portuguesas estará na origem do desaparecimento de uma estátua de Ulysses Grant existente em Bolama. A justiça pelas paragens tropicais sempre foi um mero adorno sem préstimo. Em países em que tropa, polícias e governo se portam como bandidos, onde não funcionam serviços de saúde e ensino, não há distribuição de água, nem electricidade, nem telefones, nem recolha do lixo - no caso vertente, na Guiné-Bissau, agora transformada em narcocracia marcada pela Interpol - surge-me como grosseira ironia o súbito interesse das autoridades pela sorte de uma estátua erigida na vigência da colonização portuguesa.

Calvão é algo mais que um sucateiro: dá emprego a mais de mil e quinhentos guineenses - ou seja, alimenta mais de oito mil pessoas - coisa que nenhum empregador local garante. Ao invés, muitos ex-MAF'a transformaram-se em prósperos negociantes de botas em segunda-mão, vinho a martelo, enlatados fora-do-prazo e aparelhos de ar condicionado reciclados, quando não em traficantes de armas e outras barganhas que permitem, com meridiana clareza, saber quem gosta e quem mais ama essa África que foi um dia portuguesa: se Calvão, se os valorosos Capitães. Houve um tempo, senhores - queiram ou não aceitar - em que colonizar era entendido como um dever, uma obrigação. Depois, mudaram os ventos e vieram as independências. Só que, como a realidade o demonstra, as independências não funcionaram e foi necessário, de novo, chamar os portugueses. Ora, os bons empresários da África independente são precisamente aqueles que um dia defenderam a colonização; ao invés, os maus empresários que por lá prosperam são os mesmíssimos que um dia quiseram descolonizar sem condições, cumprir o calendário soviético e enriquecer por fim. Nesta acareação, Calvão é um excelente empresário.

03 setembro 2007

Em grande forma, imperdível


A não perder o quase-livro de notas ao rebusco que Jansenista oferece nestes últimos dias de verão. A confirmação de um talento literário.

02 setembro 2007

Valor e cumplicidade


A saída de Paulo Teixeira Pinto da direcção executiva do BCP parece vir dar razão àqueles cujo pessimismo em relação à cultura empresarial portuguesa se estriba na verificação de que a carreira e segurança profissional de um indivíduo, por mais sólido, competente e dedicado que este seja, depende mais de factores irracionais - logo incontroláveis e imprevisíveis - que do gabarito, da honestidade e inteligência. Dir-se-ia, no mundo dos negócios como em todos os outros sectores profissionais, que às pessoas lhes seja exigida à cabeça participação e cumplicidade em lóbis, grupos e demais curibecas antes de todas as demais competências requeridas para o exercício de funções. Ou seja, em Portugal, antes da prestação curricular, atenta-se sobretudo à subjugação a um grupo religioso, a uma maçonaria, a um partido/empresa ou, simplesmente, a um qualquer patrocinador. Assim, os indivíduos detentores de coluna vertebral, independência e sentido crítico, não têm outra alternativa que a de partir. Sinistra, empobrecedora e controleira, tal sociedade está votada a figurar entre as mais arcaicas, imobilistas e medíocres do Ocidente. É aí, precisamente, onde estamos !
E depois, de cordelinhos na mão, há sempre um geronte que não larga, até ao caixão, as afrodisíacas rédeas do poder, preferindo dá-las a serviçais medíocres, mesmo que tal custe o sacrifício supremo da morte da instituição.