30 agosto 2007

Faz hoje 33 anos, com champanhe e tudo...


...que sobrevoei pela primeira vez as terras do Portugal europeu. Fazia um sol esplendoroso e o Comandante até mandou abrir uma garrafa de champanhe em simpática atenção para com o miúdo que ali em plenas núvens celebrava o aniversário natalício. Lembro-me da grandeza da ponta de Sagres, expressão de tudo o que aprendi a respeitar. Meia hora depois eclipsara-se a África Minha e em plena Portela tivemos de aturar um labrego barbudo e carregado de um ódio puro que jamais esquecerei. Foi assim que entrei na pátria dos meus bisavós e trisavós, então já nas garras de Cunhal e Otelo. Faz 33 anos e a minha memória repete instante a instante a descida do paraíso. Desde esse dia nunca mais liguei ao dia do meu aniversário.

"To take me home
What joy shall fill my heart
Then I shall bow in humble adoration
And there proclaim my God how great thou art"


How Great Thou Art (Elvis Presley)

29 agosto 2007

A maldição da poesia


Eduardo Pitta escreveu ontem no Público admirável texto, transcrito no seu blogue, a propósito do passamento de Alberto de Lacerda. Abstenho-me, pois, de acrescentar, comentar, fazer exercícios de estilo. Morreu um poeta e com ele morre mais um fragmento da velha comunidade literária luso-brasileira, hoje em esboroamento; morreu mais um filho das terras do Moçambique português; morreu mais um português que aqui não conseguia respirar. Terra fatídica esta, que com uma mão concede aos seus maiores o estro da rainha das Letras e com outra os obriga ao exílio interior ou à distância: assim foi com Luís Vaz, Bocage, Sá Carneiro e Pessoa; assim foi com Alberto de Lacerda.
Se Lacerda fizesse parte da "cultura oficial", nesse tráfico que cuida de trocar tenças e prémios literários pela prostituição açaimada dos jograis de serviço aos canis do poder, hoje teria sido um dia de ditirâmbicas loas. Mas não, com a agravante de haver sido um dos mais proeminentes animadores da Távola Redonda, movimento que salvou a honra das letras portuguesas frente ao neo-realejo imperante do início dos anos 50. Um outro grande poeta - António Manuel Couto Viana - vive hoje recluso na Casa do Artista, e como anti-comunista de sempre e poeta de corpo inteiro, ate já foi morto em vida por Óscar Lopes numa das reedições da História da Literatura Portuguesa.



Ilha de Moçambique
Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

27 agosto 2007


Nas mãos do general, depois imperador, a sorte da Europa. As outras batalhas do Corso, das que não rezam as crónicas militares, pela mão de Max Gallo. O amor é, sem dúvida, a mais esplendorosa das coisas.


Love is a many splendored thing (The Four Aces)

O país anda cheio de pessoas "bem vestidas"


O trapismo - adereço mais fácil de uma sociedade recém-burguesa e consumista - parece ter conquistado aqueles que eu julgava manterem a velha e aristocrática inteligência do trajar. O meu caro Francisco Múrias, no termo de uma contestação ao que aqui disse há dias sobre o cadaverismo das nossas direitas, esperou pelo fim para lançar uma elegante piada a respeito do meu trajar de eterno veraneante. Ora, caríssimo Francisco, todos sabemos que não é no fato e na gravata que reside a qualidade de uma pessoa. Saber estar à altura das circunstâncias exige que na praia se esteja de chinelos e numa cerimónia nos aprestemos com a necessária regalia. Saudades teremos todos do tempo em que os operários exibiam com orgulho a bata azul, em que os sacerdotes não se envergonhavam do cabeção e os militares flanavam de farda pelas ruas. Agora, dos vendedores de computadores aos pasteleiros, dos generais aos banqueiros, o gravatismo impera. É o triunfo da uniformidade, a rendição da burguesia à pragmática do pronto-a-vestir. O Francisco, que é um senhor, sabe perfeitamente quão fácil é distinguir um senhor de um labrego, mesmo que este último se encontre recamado de arminhos.



Ty rjadom so mnoj (N.Glejzarov)

26 agosto 2007

Eduardo Prado Coelho


O falecimento de Eduardo Prado Coelho não me colheu de surpresa. Habituado a vê-lo frequentemente, muito embora apenas tivesse com ele trocado por duas ou três vezes impressões de circunstância - aliás pouco amistosas, devo confessá-lo, não obstante terem decorrido à mesa do almoço - recebi a notícia com tristeza, pois ao longo dos últimos anos fui perdendo a quase hostilidade que a sua figura me inspirava e convergido em muito do que escrevia nas colunas do Público.



Acresce que a insidiosa doença que o foi minando e deixando impressionantes sulcos me moderou os ímpetos e reservas que tinha em relação a um homem cujo percurso, vedetismo e arrogância - devo lembrar o tom afectado de intelectual sempre engagé em todas as voltas e reviravoltas deste regime - faziam de emblemata a essa fulanagem altiva e vazia que pulula pelas universidades. Prado Coelho era um homem com todos os defeitos do intelectual orgânico, mas era, indiscutivelmente, um homem informado, senhor de vasta erudição e incansável curiosidade que se espraiava pelos domínios da literatura, das belas-artes, da música, do teatro e do cinema.



Notoriamente inferior ao seu pai na perdurabilidade da obra, foi na intervenção cronística que exibiu predicados que esperaram pelo ocaso da vida para se revelarem. Confesso hoje que comprava o Público para o ler: aqueles valentes artigos, escorchando sem dó nas misérias deste país em que a noção do ridículo praticamente desapareceu, aquela declaração de guerra aos futebóis, aos autarcas e à maléfica influência das ETARES-televisões, a quase temerária investida contra os medíocres que enxameiam o Parlamento, os governos-regionais e o governo central; tudo isso concorreu para quebrar a monotonia prevalecente na esquerda situacionista. Prado Coelho morreu e com ele morre a parte de leão do francesismo soixante-huitard. Fica Carrilho. Mas esse não lhe chegava aos calcanhares.


Les feuilles mortes ( Juliette Gréco e Nat King Cole)