24 agosto 2007

Senilidades


Dantes, a direita era velha: os fatos cheiravam a naftalina, os senhores vestiam de preto, não largavam o chapéu de feltro e razoavam interminavelmente sobre acontecimentos, figuras, livros, frases e coisas de um passado tragado pelo esquecimento. Onde quer que fosse, lá estavam esses respeitáveis Enoques, Lameques, Noés e Matusaléns embrenhados em solilóquios sobre a Monarquia do Norte, as incursões couceiristas, António Sardinha e a sua prole de pelicanos, o 28 de Maio, a Legião e a Mocidade Portuguesa. Parecia que o tempo parara algures entre 1920 e 1945. Essa direita recusara olhar para o calendário, perdera o interesse e curiosidade pelo quotidiano, recusava liminarmente toda "a loucura que vai pelo mundo", não se dando ao cuidado de aferir a actualidade ou caducidade dos seus pontos de vista, recusando qualquer análise crítica dos textos que venerava. Não é de estranhar, pois, que a partir dos anos 50 tudo o que fizesse emanasse o fedor da decomposição. O clamoroso fracasso das suas publicações, dos seus movimentos e do seu jornalismo, ao invés de a obrigar a rever, fechou-a ainda mais. E como a nossa direita era ruralista, confessional, nacionalista e contra-revolucionária, tudo aquilo se ia alegremente precipitando no ridículo do pastiche da imitação da imitação. Anti-arte moderna, anti-música moderna, anti-literatura moderna, anti-mercado, proteccionista, estista, anti-individualista, anti-partidos, anti-tudo, constituia a polarização do medo de viver. Parece que, em 1974, a "direita" só tinha como valores a Eva e os livros de Odete Saint-Maurice. Veio o 25 de Abril e essa direita, que não era coisa alguma, eclipsou-se. Se a única atitude que sabia esboçar era a negação, passou a fazer parte do partido do contra: foi contra, mas não apresentou alternativa. Eleitoralmente, desapareceu e foi confiscada pela "direita sociológica". Passaram trinta e tal anos. Lendoblogues que se reivindicam da "direita", espanta-me que os netos e bisnetos daqueles velhos senhores de preto vestidos e chapéu de feltro elegantemente pousado sobre os joelhos continuem a repetir os mesmos lugares-comuns, a mesma prosa e as mesmas crenças. Que excelente trabalho faz a direita portuguesa às esquerdas !




Mas à esquerda não há melhor. Aqueles homens, auto-proclamados intelectuais, que tão cruamente zurziam no "velho" António, no senil Tomás e na brigada do reumático, transformaram-se por sua vez em novos comensais das novas sociedades de Geografia, dos novos círculos Eça de Queirós e dos novos SNI's. Este país gosta, verdadeiramente, de lares de repouso.

23 agosto 2007

Nova Galeria dos Reis de Portugal


D. Filipe III, o Rei Planeta, da paleta de Nuno Castelo-Branco.

21 agosto 2007

Antes da morte da Europa



Mein Liebeslied muß ein Walzer sein ( Robert Stolz): Stan Meus (tenor)
Vienna 1900: Art, Life & Culture ou o ocaso luminoso do espírito europeu, recentemente publicado, convida a séria reflexão sobre o descaminho que uma sociedade tolerante, curiosa e experimentalista pode levar quando sucumbem subitamente a riqueza, a autoridade benigna e a cultura se perverte, transformada em ariete político. Prolongando o clássico Viena de Freud, de Bruno Bettelheim, e essa verdadeira apoteose nostálgica que foi a exposição Viena 1900, que em 2005 tive a ventura de visitar no Quay d'Orsay, este estudo tem muito a ver com a Europa de hoje, placidamente adormecida na ilusão da "mentira real" de um regime perfeito.

20 agosto 2007

Ponto rebuçado


O PS é objecto de pilhéria. Nunca, em trinta e tal anos que leva esta geringonça, se atingiu a proeza de reunir num só ministério tantos gaffeurs, tantos vazios enfarfalhados e tanta estultícia. Mas se o PS é o que é, o PSD está a rebentar pelas costuras com essas overdoses de inteligência, sentido da oportunidade e equilíbrio que dão pelos nomes de Alberto Jardim, Marques Mendes e Menezes. Se o casca-grossismo e a alarvidade já não provocam o menor pestanejar num povo habituado a conviver diariamente com a nata da nata dos relvados e das maisons de alterne, a gozaria que precede, acompanha e fica no ar sempre que surgem esses dois titãs engalfinhados na luta pela direcção do PSD dói e levanta séria preocupação. A última coisa que um homem deve perder é o sentido do ridículo. Aqueles dois já não são só ridículos: são o ridículo. O regime está atingir o ponto de rebuçado.

19 agosto 2007

As fezes das fezes da blogosfera (...)


(...) "são como o escaravelho estercorário que só tem como objectivo fazer rebolar a sua bola de m..."
(Camilo Castelo-Branco)
A máxima aplica-se:
- ao riso canalha e escarninho dos habitantes de nauseabundos universos de lixo;
- aos invejosos e invertebrados que se escondem no valente anonimato;
- aos que vivem no espesso negrume dos esgotos sem jamais terem respirado oxigénio incontaminado;
- aos eternos repudiados pela inteligência, pelo berço e pelos braços de outrém;
- aos martirizados por complexos de inferioridade, falhados eméritos e demais espécimes entomológicas.
A blogosfera tresanda de anonimato, tendo-se transformado num quase paraíso para criaturas fantásticas que de literário têm muito pouco. É uma pena, pois as máscaras que afivelam têm, afinal, bastante maior consistência que os trémulos e suados dedos que as animam. O anónimo luta desesperadamente por um nome, mas fenece-lhe a coragem, contorcem-se-lhe as vísceras e envergonha-se de si no momento derradeiro em que a assinatura é requerida. Nesta dolorosa invenção e sublimação de uma personalidade que não pode dizer o seu nome há muitas histórias por contar, muitos dramas e cicatrizes por sarar. Compreendo que alguns - poucos, bons e íntegros - não possam, por imperativo e por defeso, revelar o seu nome sem que os velhos fantasmas lusitanos da intolerância persecutória, da vil maldadezinha e da denunciazinha canalha lhes crie amargos de boca. O país vive derrancado na maledicência.
Esta será das poucas comunidades humanas que vive quase exclusivamente dessa energia autoflageladora que retira do desconforto excruciante da mediocridade força para prosseguir para nenhures. Aqui não há "oposiociones", nem guerras civis, nem noites de S. Bartolomeu nem barricadas onde se possa trucidar, cevar e decepar o inimigo olhos-nos-olhos. Aqui também não há duelos, nem uns valentes bofetões em plena rua ou um soberano e desdenhoso cuspir-na-cara. Aqui mandam-se envelopes, riscam-se cruzes nas portas, bichana-se nos cafés. Toda a energia portuguesa tem estampado o sinete da verrina, da frustraçãozinha e do prazer solitário. Ora, o anonimato acaba por ser a serpente que morde a sua própria cauda. Definem os teóricos da literatura o anonimato como "indíviduo sem renome"; aquele que não tem nome; aquele cuja pronúncia do nome verdadeiro é igual a um não-nome, a uma não-existência ou não-reconhecimento.