18 agosto 2007

A garra leprosa


O João chama a atenção: o Professor José Adelino Maltez , quiçá das poucas pessoas inteligentes e livres desta terra assolada pela pobreza de espírito, está a ser alvo de inadmissível perseguição pina-maniqueira. Porque tem obra; porque a coloca, com verdadeira vocação e mestria ao serviço daqueles que buscam na raíz das coisas a essência e destinação deste país dominado, amestrado e reduzido; porque não repete a cartilha e não se submete ao ranço do não-pensamento que dá empregos, sinecuras e cartas de nobilitação; porque o devora essa chama e afã de verdade e clareza que atormenta os espíritos livres, Maltez é incómodo. A garra leprosa, que macula, apodrece e mata tudo em que toca, a mesma que quer reduzir os funcionários do Estado a serviçais dos fanariotes que se julgam donos da coisa-pública, que vive do orçamento, o centuria pelos medíocres e caudatários, já só tem um argumento: cala-te e obedece. Assim vai caindo a noite.

16 agosto 2007

60 anos da Índia

Gandhi, hóspede de Mussolini



Após sessenta anos de independência, do mito de Gandhi - agora usurpado pela hipocrisia alter-globalização - já pouco resta. A Índia fabricada, imaginada e impulsionada pelo mahatma foi, desde o início, para lá do décor anti-ocidental, do culto pelo ruralismo e nostalgia de uma Era Dourada, uma cópia do nacionalismo europeu. Gandhi era, sobretudo, um inglês e um colonizado. As vestimentas, os jejuns, o tom predicatório de mestre, a roca de fiar e a cabra que o acompanhava eram, sabe-se hoje, adereços de um líder arguto, imperioso, teimoso e extremamente duro. Gandhi escolheu a forma europeia para alcançar o seu objectivo. Tomou um partido político, serviu-se da imprensa para melhor divulgar as suas campanhas, inventou uma identidade indiana que jamais existira, fazendo tábua-rasa das insuperáveis animosidades étnicas, linguísticas, religiosas e sociais do sub-continente e escolheu a via que melhor se coadunava com o poder colonial britânico. A desobediência civil, a não-violência e a resistência passiva que ensinou e tanto entusiasmo concitaram depois entre Luther King e Mandela escondiam, afinal, uma inspiração hoje impronunciável. Gandhi, no conteúdo que não na forma, bebeu da fonte do "nacionalismo dos pobres". E onde a foi buscar ? Aos fascismos.



A modernidade reaccionária de Gandhi, glosando a expressão de Sternhell, era, mutatis mutandis, de signo fascista. Gandhi era adepto do nada mudar, era absolutamente avesso à ideia de progresso e um tradicionalista na expressão radical do termo - não tocou no regime de castas; aliás, como pode um hindú recusar aquilo que é essência da sua concepção do mundo e da vida ? - e justificava o seu nada mudar no organicismo e solidarismo nacional indiano com a mesma convicção com que os fascismos o faziam: primeiro o Estado, depois a Nação. A cada um o seu lugar, conforme a competência - neste caso pureza - de cada. Ora o Estado Indiano - uma construção artificial - geraria uma "nação indiana" para lá do puzzle étnico e religioso. Essa uniformidade - esse gleichaltung Gandhiano - só foi ultrapassado em intensidade por um dos seus discípulos, Subhas Chandra Bose, fascinado pelo nazismo.
Fica, assim, descartado o ónus que impedia sobre Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Muçulmana e responsabilizado pela separação do Paquistão. Jinnah foi confrontado com a recusa de Gandhi em aceitar cláusulas especiais respeitadoras da identidade cultural dos muçulmanos e compreendeu que o "especificamente indiano" a que Gandhi com frequência aludia era, sem tirar nem por, o simples esmagamento da cultura muçulmana-indiana herdeira dos Mogóis, a única, sem dúvida, que ofereceu verdadeira resistência à colonização britânica.


Jana Gana Mana

Kann denn Liebe Sünde sein?

Para desenferrujar o alemão, há muito descurado, uma biografia apaixonante de um mito da filmografia alemã: Zarah Leander. Uma mulher inquietante que desafiou todas as convenções do seu tempo, desafiou o gemütlichkeit pequeno-burguês do efémero Reich, escandalizou meia Berlim com tumultuosas festas e foi Casanova feminina num tempo em que as mulheres se atinham ao KKK: Kinder, Küche, Kirche/ crianças, cozinha e Igreja. A atestá-lo - leiam os leitores mais atentos e temperados na língua de Mann - este Kann denn Liede Sünde sein? Pode o amor ser pecado ?



Jeder kleine Spießer macht das
Leben mir zur Qual,
denn er spricht nur immer von Moral!
Und was er auch denkt und tut,
man sieht’s ihm leider an,
dass er niemand glücklich sehen kann.
Sagt er dann: Zu meiner
Zeit gab es sowas nicht!
Frag‘ ich voll Bescheidenheit,
mit lächelndem Gesicht:
Kann denn Liebe Sünde sein,
darf es niemand wissen,
wenn man sich küsst
wenn man einmal alles vergisst vor Glück?
Kann das wirklich Sünde sein,
wenn man immerzu an einen nur denkt,
wenn man einmal alles ihm schenkt vor Glück?
Niemals werde ich bereuen, was ich tat
und was aus Liebe geschah‘
Das müsst ihr mir schon verzeihen,
dazu ist sie ja da!
Liebe kann nicht Sünde sein,
doch wenn sie es wär‘, dann wär’s mir egal.
Lieber will ich sündigen mal, als ohne Liebe sein!




Kann den die Liebe Sünde sein ? (1938)

15 agosto 2007

Os Colonialistas: a tribo branca da África Oriental (11)

Eu, os meus irmãos e mãe com o Gigante

No tempo dos gigantes

Foi há muito, muito tempo, lá para 1967 ou 1968. Um almoço no campo, para os lados de Boane, que dista 50 ou 60 km de Lourenço Marques. Lá estavam os meus pais, irmãos e avós, mais uma meia centena de amigos e colegas do meu pai. Lá estava - nunca esqueci a figura Pantagruélica - o Coronel Anta, um gigante de quase dois metros que fora observador militar português na Frente Russa durante a Segunda Guerra Mundial. O homem, careca como Mussolini, passou a tarde a comer sardinhas - foram mais de 60 ! - regadas com cinco litros de vinho. No fim da tarde afirmou estar cheio de sede e fome. Um portento.



A surpresa do dia estava reservada a outro gigante, desta vez o de Manjacaze. Um colosso triste e lento, a quem agarrei a enorme mão, quase mitológica, mas que inspirava simpatia e pena. O homem foi atracção mundial, casou com uma portuguesa e regressou a Moçambique para morrer. A lembrar, como Ozymandias, que a estatura não é eterna.

14 agosto 2007

Socialismos e neofilias


A voga chega a Portugal irremediavelmente atrasada, não tendo ainda sido suficientemente inculcada para permitir mudanças assinaláveis nos comportamentos e atitudes. Na França de finais da década de 70, perante a falência dos credos e "mitodologias" do marxismo, nascia a "Nova Filosofia". Nos EUA, pela mesma altura, revelada a linha genealógica que levava directamente o estatismo, o intervencionismo e o dirigismo ao socialismo - sempre sinónimo de totalitarismo, ora de signo brando ou indisfarçado no grotesco comunista - nasciam os "Novos Economistas". Na Grã-Bretanha, após décadas de socialismo mitigado - partilhado por Conservadores e Trabalhistas - surgia a "Nova Política". A aposição do neo exprimia ainda o medo em revelar o objecto da contestação: o socialismo, o seu sistema de crenças, as suas fórmulas, mandamentos, altares e papas mas, sobretudo, a linha directa que conduzira o esquematismo do Iluminismo, a arrogância racional do positivismo e do marxismo ao concentracionarismo.



Ao tempo, os protestatários - fossem Bernard-Henri Lévy, Gilles Deleuze ou Foucault - tentavam proceder à acareação do comunismo e do nazismo, na vã ilusão de destrinçar a imanência pervertida de um sonho (o comunismo) da objectividade maléfica de um pesadelo (o nazismo). Assim, o estalinismo seria um "fascismo", uma doença saída do corpo do marxismo "desvirtuado". Ora, como a "Nova Direita" (outro neologismo) quis demonstrar - e como Soljenitsin, Arendt e Revel o haviam feito - comunismo e nazismo, mais que vagamente aparentados, eram filhos do socialismo. A questão foi já suficientemente escalpelizada para com ela nos perdermos em delongas. O socialismo, mais que uma ilusão, é uma pulsão sempre pronta a sair da garrafa, seja na fórmula da "democracia social", seja na "social-democracia", ou ainda na forma mais dura que não se inibe em afirmar o nome.



Ouvindo as declarações de todos os líderes políticos nesta fase já anunciando a "reentrada", o socialismo está ali presente, do PC ao PS, do PSD ao PP. Tanta "peocupação social" esconde o interesse em manipular, condicionar e ter na mão as pessoas, características de qualquer socialismo. Já é tempo, caramba, de perder o medo e cortar cerce com essa superstição que esteve na origem das maiores catástrofes do século XX, pois importa lembrar que antes dos Direitos do Homem há os Direitos da Alma, antes da sociedade há os homens concretos, antes da humanidade abstracta há as pátrias, antes da ideologia a cultura, a memória, a história e os afectos. Os socialismos quiseram varrer a riqueza dessa desigualdade que completa, dessas diferenças que potenciam, dessa pluralidade que vivifica.



China: Toda a Força para o Povo (1967)