04 agosto 2007

Dois anos de Combustões, agora perto do fim



Faz agora dois anos que dei início a estes postalinhos. Preferindo sempre a intensidade à duração, procurei diversificar, provocando e precipitando, a abertura de um leque temático que não reproduzisse o figurino do blogue político, certinho e previsível, com aquela cerrada coerência ideológica que a tantos agrada como um ritual a que se vai sabendo de antemão o que se vai ouvir e ler.
Como sempre prezei a minha liberdade, nunca me deixei submeter à expectativa e previsão de quantos, por vezes com infinita paciência, aqui pretendiam encontrar a resposta canónica, de forma e conteúdo, como a farda que se enverga, anula, indiferencia e normaliza, naquela adolescente tendência de muitos em fazer parte de uma tribo, de um povo em marcha, de um grupo ou pandilha. Aqui disse, com acerto ou exagero, com caricatura e muita superficialidade, o que me perpassava a alma. Passaram dois anos e, tal como nas paixões, o coração arrefeceu e o ritual impôs-se à espontaneidade.


Entretanto, um novo e apaixonante desafio coloca-se-me profissionalmente. O animador de Combustões vai abandonar o país, livrar-se de uma atmosfera que se foi putrificando a extremos dolorosos e da qual me liberto com alívio. A partida está para breve, pelo que assinalar a passagem do segundo aniversário de Combustões poderá significar o anúncio, sorridente e plácido, do passamento de uma conta-corrente que se vem arrastando há mais de setecentos dias.


Around the World (Nat King Cole)

O rafeirismo


Os últimos vinte anos têm sido pródigos em obras que destapam o percurso escuso da esquerda francesa - a filha predilecta do comunismo - aqui entendida enquanto quinta-colunista do maior flagelo totalitário do século XX. Se alguma direita não se isenta moralmente de haver prestado pontual colaboração ao comunismo de direita - o nazismo - a esquerda, quase toda a esquerda, dos tíbios bem-pensantes da social-democracia aos mais cabeçudos marxistas louvou, incentivou, relativizou e escamoteou o concentracionarismo, perseguindo, ridicularizando ou silenciando toda a crítica fundada e objectiva às enormidades cometidas em nome do socialismo.´
Já lera François Furet ( Passado de uma Ilusão), Stéphane Courtois e Nicolas Werth (Livro Negro do Comunismo), bem como Michel Winock (Século dos Intelectuais), todos reforçando aquilo que grandes e destemidos académicos chamados Raymond Aron e Jules Monnerot a seu tempo haviam denunciado. Em plena guerra-fria, desmontar e denunciar os artifícios com que comunistas, filo-comunistas e compagnons de route atraíam incautos era sinónimo de banimento: banimento da vida cultural e editorial, banimento dos movimentos e correntes que faziam reputações, condenação à periferia e à leprosaria onde jaziam os "inimigos de classe", os "cães-de-fila do imperialismo" e os "fascistas".
Comprei há dias uma obra que me passara despercebida e cuja capa acima reproduzo. Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévillia, é mais que uma história da cultura francesa contemporânea e suas polémicas: trata-se de original abordagem aos mecanismos de fabricação de um certo tipo de verdade imposta sem debate, à mistura com intimidação, amálgama e sufocação do normal processo de discussão que, juntas, permitem a ciência. Sévillia desmonta esta engrenagem nascida no imediato pós-guerra. Ao prestígio reclamado pelos comunistas - a tão propalada superioridade moral - foi-se edificando uma teia de lugares-comuns inquestionáveis, umas quantas crenças indiscutíveis, uns adornos pseudo-científicos que concorreram para que a percepção dos acontecimentos coroasse o discurso comunista.
Assim, os intelectuais - ah, como detesto o termo - impuseram até meados dos anos 50 um acrisolado culto por Estaline, tão intenso como cego ao ponto de inverter todos os dados de sensibilidade, rasurar todas as consabidas práticas genocidas do tirano comunista e permitir fazer crer aos pacatos leitores de jornais que as causas da paz, da fraternidade entre os povos e da liberdade se encontravam para lá da Cortina de Ferro. Nessas piedosas patranhas acreditaram quase todos. O odioso ficou para os anti-comunistas, tidos como lacaios do americanismo "fascista", do imperialismo" e do belicismo.
Depois, assentaram armas contra o odioso "colonialismo". A esquerda francesa, incluindo o PCF, que sempre havia defendido o império colonial, receberam instruções do Kominform para desencadear a mais que questionável tese dos "ventos da História". Tratava-se, naturalmente, de abrir o campo à acção soviética e carrregar a má-consciência dos europeus, minando-lhes a capacidade de reagir e obrigando-os a reconhecer a inevitabilidade da descolonização. Sévillia desenvolve com particular argúcia esta questão, porquanto desmonta uma a uma as teses da sociologia e historiografia marxistas. Como os estudos mais recentes permitem demonstrar ( vide Jacques Marseille, Empire Colonial et Capitalisme Français), as colónias jamais enriqueceram os colonizadores; antes pelo contrário, foram um peso acrescido e um freio ao crescimento económico metropolitano, um factor de conflitualidade entre as potências coloniais e um cadinho de problemas políticos internos em cada Estado colonizador. Mas aos comunistas interessava diabolizar, imobilizar pelo remorso, desconjuntar as forças anímicas de políticos, militares e administradores coloniais. Quando partiam para a Indochina e a Argélia, os jovens franceses já não tinham ao seu lado e atrás de si o incentivo da nação. Não, partiam como vulgares criminosos e opressores dos povos colonizados. Era o tempo que em Ho Chi Mihn se reverenciava como um sábio confuciano, em que Ben Bella reproduzia os românticos guerrilheiros da literatura oitocentista e em que Lumumba, um simples serviçal dos russos, era exibido como "mártir".
Com a descolonização executada, o rafeirismo voltou-se para outras empolgantes causas: o "black is beautifull", o multi-culturalismo, o proibido proibir, a safada compreeensão da Revolução Islâmica - "tudo o que é anti-Ocidental é bom" - o ecolo-regressismo e dos os mitos climatéricos em voga. Pese a expressão destas fortes correntes, verdade é que lhes falta, a todas, matéria académica credível. Estas opiniões, contudo, ganharam tamanha respeitabilidade que discuti-las acarreta o desprezo da auto-constituída "comunidade de razão", aquela que domina a "inteligência estúpida" do jornalismo, dos "fazedores de opinião" e demais pequenos intelectuais divulgadores. Lembro com particular surpresa o recente debate em Portugal sobre a interrupção voluntária da gravidez, onde a autorizada voz de médicos, cientistas, sexólogos, sociólogos "reaccionários" foi liminarmente cilindrada pela autoridade da rua. Este é o rafeirismo.

Old Shanghai



Zhou Xuan: Noite em Xangai (1934)

01 agosto 2007

Entrismo do novo MDP do PS


Sá Fernandes e o Bloco não resistiram à charcutaria da Baixa. O snobismo que brinca às revoluções, sempre deslumbrado pelos adamascados, filho, neto e bisneto de gente que deteve o poder, absolutamente convencido do direito natural que lhe assiste desde o berço, aceitou - custou mas foi - emparceirar com os desviacionistas sociais-burgueses kautskyanos do PS. O Bloco acabou. Deixou de ser uma alternativa eleitoral. Agora é muleta, claro uma muleta dessas ortopedicamente desenhadas, feitas à medida, materiais raros, mas uma muleta. O Bloco deveio em MDP/CDE do estertor da III República. Em 74, as meninas e meninos dos descapotáveis, das festas do Tamariz e das capelinhas do Rato, a um salto do Botequim, quiseram brincar à classe operária e constituíram-se em MDP. Agora, que o PC é mina exangue, submeteram-se ao pródigo PS. Há na História uma cruel moral nas estórias que vai debitando.

A Grande Fuga

Fuga precipitada dos confrades Je Maintiendrai, Jansenista, Exactor, Senhora Sócrates e Sobre o Tempo que Passa. O País está mais vazio. O último a sair que feche a luz.


Paloma: Hans Albers (1944)

Os meus oldies: lembrando Zhou Xuan



Minha Pátria (canção patriótica da China Nacionalista, 1937)
Interpretada por Zhou Xuan, a grande vedeta chinesa dos anos 30.

31 julho 2007

Servir a Pátria


De um oficial do Exército recebi a seguinte nota, que julgo justíssima e animada daqueles princípios que deviam ser comuns a todos os portugueses, fardados ou paisanos. É evidente que me terei excedido - pedindo desculpas pela generalização - lembrando ter conhecido muitos militares acima de qualquer suspeita, prontos para o serviço do Estado e da Pátria. Ainda acredito que a maior ventura de um português é a de amar a Pátria e saber sofrer por ela.
MCB

Caro confrade «Combustões», já há algum tempo que sigo a sua actividade «bloguística» e devo dizer, que não concordando com algumas das suas ideias, sempre admirei o seu estilo e a sua forma de pensar fora do convencional.No entanto, há um dos seus posts com o qual não concordo em absoluto. Refiro-me em concreto ao post intitulado «A tropa do descalabro». E antes de continuar digo-lhe desde já que sou Oficial do Exército Português.Sobre o que lá escreve queria apenas dizer-lhe que é injusto fazer generalizações. Aliás você mesmo refere que só quando deixou funções operacionais é que constatou a existência de determinadas atitudes e posturas.Na realidade, e falo do meu ramo, porque o conheço, a maioria dos Oficiais, dedicam-se de corpo e alma à sua causa. Sacrificam-se, prescindem de tempo com a família, dizem presente quando são chamados, seja para ir para o Iraque e para o Afeganistão - se calhar não sabe, mas neste momento integramos uma missão da NATO no Iraque de treino de quadros locais. No mínimo será injusto incluir nessa sua acusação quem ainda acredita nos valores de defesa da pátria.Não lhe quero dar lições, mas apenas dizer-lhe que pode ser muito bom dizer que o rei vai nu, mas ao fazê-lo não se esqueça é de ponderar se isso corresponde à verdade. É que não é só você que ama o seu País e que poderá estar disposto a prescindir de tudo para o defender. E até lhe digo mais, a nossa motivação, ou até mesmo a crença nas instituições, não deve nunca depender da eventual motivação dos outros.Cumprimentos.

29 julho 2007

A marques mendização da classe política


António José Seguro foi ao Diga Lá, Excelência. Como se não bastasse o título do programa - que soa a ironia de mau tom, pois ali poucas excelências aparecem e dizerem, dizem muito pouco - a entrevista foi a todos os títulos elucidativa da caquexia a que chegou o baronato que cativou a representação parlamentar.


O homem está há trinta anos na "política", nunca se lhe conheceu um emprego por conta e risco, nunca conheceu as noites longas do estudo, os exames, as provas públicas, os concursos para provisão de um lugar, uma avaliação, um objectivo. Está, é tudo, e sente-se bem, tão bem que Almeida Santos o considera um águia pronto para grandes vôos.
Eu teria vergonha. Faria uma cova de seis metros e enterrar-me-ia sem alardes. Mas não, estes homens que nunca se evidenciaram por nada, que nunca leram, nunca se lhes conheceu uma ideia, uma batalha, uma causa, governam, representam e vão enchendo curriculos que são, sem tirar nem por, um insulto à democracia. É a marques-mendização, a mediocridade que não pede desculpas, perfeitamente senhora de si. Por outras palavras, é o regime a matar-se.
Até que poderia ter alguma graça, um discurso montado sobre rábulas, uma pose, um estilo. Nada disso, as palavras de ordem são invisibilidade, banalidade e mediocridade. Se lhes juntarmos um riso parado pedindo urgente aferição de idade mental, mais as traquitanas das frases moles e um soberbo deserto de ideias, aí temos um deputado vitalício.