20 julho 2007

A nova onda iberista e a monarquia


O fenómeno repete-se cada cem anos. Lá, transidos de fúrias compensatórias ou exibindo riqueza recém-adquirida, há uns senhores em Madrid - na banca, nas casernas, nas lojas ou no púlpito - que de quando em vez lembram a monarquia dual (que Madrid traiu com o centralismo) e querem voltar ao status quo ante 1640.


Tentaram, insistiram teimosamente em reconstituir o sonho de uma península unida, mas Afonso X não volta, como também não voltam os tempos das monarquias patrimoniais, posto que as nações, após as revoluções democráticas do século XIX, deixaram de lado qualquer outra fidelidade para além daquela devida às pátrias organizadas em Estados independentes. E como a Espanha é uma frágil construção, e o seu patriotismo uma outra palavra para designar a fidelidade à monarquia - a única instituição que une aquela manta de rivalidades regionais - soa a sereia do iberismo sempre que o Estado Espanhol, de monarquia não-natural, sente haver ao seu lado uma incómoda região que soube constituir-se em Estado e assim manter-se livre e independente.


A existência de Portugal não é um "azar", nem um apêndice da história espanhola, como quis e quer grande parte da historigrafia madrilena, como a nossa independência de 1640 não foi "rebelião", mas restituição do poder ao povo português. Carvajal, e depois Floridablanca - e também os próceres do maçonismo, do republicanismo, do socialismo e do falangismo, e agora os europeístas - exprimem essa constante de desejo seguido de frustração que povoa a cabeça de todos os espanhóis, como lembrou Andrade Corvo em Perigos (1870): "Não há para que ocultá-lo. Esta preocupação [iberista] existe, com mais ou menor intensidade, no espírito de todos os Espanhóis".


Aqui, o Iberismo foi sempre coisa ora de ingénuos, ora de traidores. Ingénuos como Silvestre Pinheiro Ferreira, que acreditava num dualismo de igualdade, ou como Oliveira Martins, que depressa se libertou dessa aliciante perspectiva; ingénuo António Sardinha, cujo ódio à aliança britânica o predispôs a aceitar uma parceria luso-espanhola que redundaria em absorção. Mas os traidores são, decerto, os únicos aliados que Madrid controla, estipendia e mantém, mesmo que ao arrepio do elementar interesse da nação portuguesa. Essa gente vive prenhe de ambições a que aqui não pode aspirar. É um partido de ambiciosos, que sabe quão difícil como frágil é o poder português, quão difícil é o trabalho exigido na manutenção de um Estado que foi sempre, desde a primeira hora, um acto de vontade. Como dizia Herculano, "nós somos livres porque queremos ser livres e independentes".


Acenam os traidores iberistas com o dinheiro, o "bem-estar" e outras tentadoras ofertas de riqueza sem esforço, pensando tolamente que os espanhóis pagariam o atraso, a desorganização e o chupismo proverbial das nossas elites desmioladas. A dar-se a união, essa seria duplamente penalizadora. Os vestígios da soberania passariam de Lisboa para Madrid, a elite portuguesa reduzir-se-ia a elite regional, sem capacidade para agir em conglomerado na defesa das suas parentelas, clientelas e conhecido tráfico de influências. Por outro lado, o Estado central tudo faria para reconstruir a memória colectiva, fragmentando-a em localismos exóticos em constante luta.


A estratégia dos iberistas encontra paralelo na história das ideias com o modo operativo de algumas correntes de opinião do século XVIII. Lembro-o, porquanto, ao ler Hume, Bayle e Voltaire, não passaria pela cabeça de qualquer britânico ou francês de Setecentos por em questão a religião (Hume, Bayle), nem a soberania do Rei, mas tratar-se de escritos puramente filosóficos sem reflexo na vida dos povos. Engano. As ideias, quando laicizadas, são sumamente perigosas, pois da simplificação e da divulgação não nasce a luz, mas a demagogia. Ora, no que ao Iberismo diz respeito, está em curso uma tentativa de simplificar o fenómeno, reduzindo-o a um mero negócio de secos e molhados, de charcutaria ou de super-mercado. E como não temos uma elite preparada para sacrifícios - esta elite é tão ventre-ao-sol e pé-rapado nos miolos como os ventre-ao-sol e pés-rapados que enchem os estádios - temo que, desta vez, o perigo seja sumamente maior. Resta-me a consolação que aqui há, in spirito, inscrita na memória genética deste povo - que raramente se pronuncia, mas que lá está, sempre - a possibilidade de travar o passo aos traidores. Essa resposta tem o nome de monarquia. Tudo o resto são...tretas !


Rosita (Pasodoble)

18 julho 2007

Pacheco Pereira disse-o, finalmente


Ninguém queria carregar o ónus por haver sido o primeiro a carregar no gatilho. Pacheco Pereira não ponderou as consequências, não procedeu a cálculos hipócritas, tão useiros nas pequenhas manhas com que se faz e desfaz a politiquice e os politiqueiros, e disse claro: o PSD não existe, não possui nem doutrina nem arrimo, serve pequenas, médias e grandes capelinhas e encontra-se agora em avançado estado de decomposição. Aliás, esse conglomerado de homens e mulheres não é hoje nem mais nem menos daquilo que foi no passado.


Sá Carneiro foi um imenso logro. Por detrás daquele tom imperioso, do inegável carisma e de uma enorme paixão pelo mando, pouco havia de substantivo, mas era o que a direita sociológica requeria naqueles tempos em que Portugal era, até no ordenamento constitucional, um país de costas voltadas para o Ocidente. Depois, veio Cavaco: um deserto de ideias, combóios de números e falar economês fugindo à assunção das ideias e à demarcação das fronteiras. De queda em queda chegou-se a Marques Mendes, sem carisma, sem presença, sem poder e autoridade de espécie alguma, nem tão pouco para centuriar favores pelos estômagos em prolongado jejum que o amparam. É o ponto terminal de trinta anos de evasivas e errantes justificações para uma direita sociológica que nunca leu e jamais se libertou dos medos de um PREC remoto, sempre se acomodou ao culto da mediania, que se mantém hirta de medo perante os mitos da esquerda. O mal que essa "direita sociológica" fez à direita à custa de quem vive eleitoralmente é questão ainda por reflectir. Tenho para mim que o mal de que padece o CDS se encontra, não no Caldas, mas para os lados da Lapa.

17 julho 2007

Porque na blogosfera fazem falta as boas plumas

O João Ribeiro, excelência de primeira plana, lançou o Nesta Hora, que vai certamente emular outro grande senhor.

16 julho 2007

Os resultados da direita, cabeça fria e sem paixão



A análise crua dos resultados de ontem, despida de partis-pris, preconceito e ornatos, permite-nos assinalar:
  1. O PSD cindiu-se em duas correntes. Carmona, quer queira quer não, tem ao seu lado aquela ala PPD tão reclamada por Santana Lopes (liberal-conservadora, populista, basista e patriótica) que olha com desconfiança os aboletados sem-ideologia da tecnocracia pardacenta. A Marques Mendes e à gente do aparelho - que serve tudo e todos, é Aliança Democrática e Bloco Central, Convergência Democrática ou orgulhosamente só, segundo as conveniências e o número de lugares disponíveis na política de saque e presúria a que se dedica desde os anos 80 - só resta sair antes que se repita o tremendo desastre de ontem. Lendo atentamente os resultados, somados os votos de Negrão e Carmona, o PSD teria mantido a CML, não fosse a desastrada iniciativa de Marques Mendes em retirar a confiança política a Carmona.

  2. O CDS/PP tem agora pouco tempo para escolher e acertar a melhor solução para um partido que, pesem as qualidades pessoais do seu líder, não mudou um milímetro desde a saída de Ribeiro e Castro. Votei no CDS por Telmo Correia, mas não sei, sinceramente, que outros motivos me levariam a repetir tal voto. A Paulo Portas exige-se maior acutilância e menor improvisação. Esperei, ao longo dos últimos meses, que aquela chama que se lhe reconhecia viesse ao de cima; baldadas esperanças, pois Portas parece tardar em escolher o papel que se lhe pede no "casting" da política portuguesa dominada por um PS arrogante, autista, controleiro e impune.

  3. A Nova Democracia desapareceu, não restando a Monteiro outro recurso que o de pedir uns "Estados Gerais da Direita", para os quais acudiria sem votos e sem ideias. A campanha de Monteiro foi um duplo fiasco: queimou o seu líder e andou a reboque do programa do PNR.

  4. Não comungando em nada com as preocupações, estilo e propostas do PNR, não posso deixar de concordar que teve o resultado que merecia. Estando muito longe de qualquer lugar elegível, conseguiu, contudo, chamar a si a atenção da comunicação social, desdobrou-se em iniciativas e duplicou a votação. O CDS que aprenda um pouco com o PNR a agenda da provocação. O PNR demonstrou não ser necessário nem dinheiro nem amigos na imprensa para se fazer ver e ouvir.

  5. O PPM é um caso perdido. Poderia ter um passamento digno, mudadas as circunstâncias que assistiram à sua génese e desenvolvimento, mas, ao invés, transformou-se num risível foco de anedotas, num elemento comprometedor para a ideia monárquica, felizmento muitíssimo mais larga que a meia dúzia de votos do fadismo, que rima com mariavismo, sol e touros.

A(s) Direita(s) precis(am) menos de doutrina - que está lá - e mais criatividade. Pede-se-lhe maior visibilidade, um estilo ousado, menor verbosidade e menos apego à geringonça retórica do centrão consensual. Pede-se-lhe que compreenda vivermos numa sociedade quase analfabeta, de reduzidíssima capacidade para a apreensão de subtilezas, ausência de concentração e memorização, voto habitual e um assustador desinteresse pela vida da Cidade. Para quem está de fora e de fora pretende ficar, deixaria meia dúzia de conselhos:

  1. Ao PPD do PSD para que tenha, finalmente, coragem de sair a terreiro e impugnar aquela gente incapaz, aqueles proteus e criaturas de terceira linha crescidas nos tempos de acefalia do cavaquismo e que continuam convencidas que a actividade partidária vive desligada do mercado das ideias.

  2. Ao PP e a Paulo Portas para que se definam até ao Outono. Portas que não saia agora, pois nunca mais voltará. As pessoas não aceitam consecutivos exílios, muito menos generais que abandonam as tropas após uma pequena derrota táctica. Portas é uma força da natureza, mas tem de dar ouvidos àqueles com quem trabalha ou poderia trabalhar. Governar por decreto um partido, reduzi-lo a meia dúzia de amigos e incondicionais, tem destas coisas: perderam o sentido e o pulsar da rua.

  3. A Manuel Monteiro - figura com quem simpatizo, mau grado o azedume e jeremíadas que teima em cultivar - que não nos lembre mais ter sido o líder do CDS e que faça tábua-rasa dos seus ódios de estimação. A ND perdeu anos em remoques, não tem uma ideia, uma proposta ou um assomo de positividade.

Fly me to the Moon

Cinco Livros a pedido de Nesta Hora

Sugerido amavelmente pelo Nesta Hora, eis os cinco livros que leio ou aguardam leitura para as férias que começam terça-feira. De notar que não faço questão em estar em sintonia com os escaparates, lembrando ser um inveterado dos alfarrabistas.

- CIERVA, Ricardo de la. Misterios de la Historia (segunda serie). Madrid: Planeta, 1992

Mistérios: A obscuridade visível e as novas relações maçónicas; A conversão de Manuel Azaña; A beatificação canónica de Josemaria Escrivá de Balaguer e a canonização comunista do Padre Jose María de Llanos.

- DAVID, Saul. The Indian Mutiny. London: Penguin Books, 2002

- DECAUX, Alain. L'avorton de Dieu, une vie de Saint Paul. Paris: Perrin, 2003

- LOTI, Pierre. Japonesices de Outono. Porto: Lello & Irmãos, 1932

- SMITHIES, Michael; BRESSAN, Luigi. Siam and The Vatican in the Seventeenth Century. Babgkok: River Books, 2002

15 julho 2007

Não há democracia que resista


...a 63% de abstencionistas e 5% de votos brancos ou nulos ! Não há democracia que resista à invocação de uma ida à praia ou do estio para inimputar os causadores da deserção dos cidadãos do acto maior de escolher os seus representantes ! Não há democracia que resista a partidos sem militantes e isolados do conjunto da sociedade ! Não há democracia que resista a listas de candidatos a braços com a Justiça ! Não há democracia que resista a 12 primeiros-ministros em 30 anos ! Não há democracia que resista a investigações judiciárias a titulares de cargos públicos orçando 60% do volume de trabalho das polícias ! Não há democracia que resista a candidatos betas como os que se apresentaram ao eleitorado de Lisboa. Da conjugação de todos estes desastres poderá nada resultar no imediato, mas hoje estaremos, sem dúvida, naquele momento em que o regime, incapaz de se refazer, submetido ao jugo da mais férrea mediocridade, exprime falta de vontade para continuar.

[União Nacional] Socialista


O excursionismo caciquista volta em força, fazendo jus às advertências de quantos experimentam o déjà vu de um país manipulado, condicionado e abusado a extremos infantilizadores dignos do mais profundo terceiro-mundismo. O excursionismo, que rima ora com caudilhismo, ora com populismo, é uma das muitas indignidades da partidocracia. Aquela gente rural e quase medieval arrebanhada nas aldeias e trazida pelo PS a Lisboa com a promessa de uma sandwich de queijo e umas cervejas, vem evidenciar o comatoso estado a que chegou o regime, incapaz de um mínimo de decência e afanosamente trabalhando para a total descredibilização da democracia e da cidadania.