13 julho 2007

Previsões da minha mão partida


Esborrachei a mão esquerda há anos. Tudo se reparou, mas ficou-me um barómetro. Se a minha mão esquerda não se engana, serão os seguintes os resultados de domingo:

  1. Costa não consegue a maioria
  2. Carmona passa a perna a Negrão
  3. Negrão vai suar para os dois dígitos
  4. Roseta fica aquém dos 10%
  5. O voto macróbio do PC garante a votação de Carvalho
  6. Sá Fernandes não passa dos 5%
  7. Telmo Correia é eleito
  8. O maior entre os pequenos será Garcia Pereira

Voto em Telmo, claro: é sereno, cumprirá o que prometeu e é monárquico. Preferir o chá às zurrapas, eis o que me leva às urnas.


Tea for Two

12 julho 2007

Ainda restará força para continuar ?


O actual quebranto nacional não encontra paralelo na longa história do país. Poderão alguns discordar do pessimismo radical, outros lembrar dias funestos em que o rei acabara de morrer nas areias de Marrocos e os cofres do Estado estavam esvaziados; outros dir-me-ão que houve um momento em inícios do século XVII em as nossas armadas se viam assaltadas pela chusma de piratas ingleses, holandeses e omanitas, pilhadas as nossas feitorias, queimadas e reduzidas a pó as missões, tomados os baluartes e fortalezas do Brasil a Angola, de Moçambique à Insulíndia; outros ainda lembrarão que a crise pós Restauração atirou-nos, literalmente, para o abismo. Portugal esteve para morrer, exaurido de forças, privado de amigos e aliados - num tempo em que o Papado no açulava os mastins da missionação francesa e nos ultrajava com a Propaganda Fide - mas havia, ao contrário de hoje, duas ou três poderosas e intocadas reservas ao serviço desta nação.


  • Por aqui havia jesuítas, dominicanos e franciscanos, fidelíssimos ao Rei e a Portugal, que se deixavam matar no Ultramar pelos direitos do Padroado;

  • Por aqui havia uma nobreza de armas, valente até ao absurdo, que partia da barra do Tejo sabendo que jamais regressaria das aventuras trágico-marítimas ou que chegava esfarrapada e incógnita fugida dos terços de Filipe IV para servir o Rei do Portugal Restaurado.

  • Por aqui havia um povo cerrado, sofrido e esfomeado que dava voz pela liberdade do Rei e da Nação, que acudia com gadanhas e foices sempre que os sinos repicavam anunciando a aproximação do pirata berbere ou das incursões do castelhano.

Pergunto. Se hoje algo de verdadeiramente trágico nos acometesse, que forças e reservas poderiam esboçar essa reacção ? De tão degradados, desnacionalizados, embrutecidos - ridículos no estar; ridículos no agir; ridículos no sonhar - não haveria nesta massa inerme de pândegos telenovelizados, futebolizados, socratizados e cavaquisados um gesto, por simbólico que fosse, lembrando essa orgulhosa liberdade de outrora. Há nações em que as elites parecem não pertencer ao povo de onde saíram; aqui as elites são um aviltamento do povo. Teimo - acusem-me de lunático - que este povo, se foi e fez o que foi, merece melhor sorte que as elites que se lhe impuseram.

Waldteufel:Die Sclittschulaufer

11 julho 2007

A tropa do descalabro


Mau grado o degradante espectáculo de demissão que as Forças Armadas exibiram no imediato 25 da Silva - graças à cobardia, ao cómodo situacionismo e fechar de olhos, ao trepadorismo sempre de bem com todas as situações, aliado a um quase analfabetismo, características bem lusitanas - sempre pensei, ingenuamente, que a oficialagem se nutria de valores para uma ocupação que seria - idealizava eu - mais uma "vocação" que um emprego. Por lá estive cinco longos anos, entre formaturas, marchas, semanas de campo e manobras, pelo que nunca consegui atentar - como era crédulo na altura - nas beberragens, nos vícios das cartas e dos dados, na madracice e dolce-fare-niente que envolvem esse mundo quase à parte. Senti-o tardiamente, quando passei das unidades operacionais para serviços de ar-condicionado, burocracia e cadeirões. Aqueles homens, fartos e sonolentos, aqueles oficiais tardios vindos de sargentos, aqueles pequeno-burgueses fardados das 9 da manhã às 5 da tarde eram os anti-heróis de uma instituição que idolatrara. Ali pouco ou nada se fazia: jogava-se muito, bebia-se muito, discutia-se futebol, ia-se ao depósito de géneros atestar a bagageira, à bomba de gasolina para atestar o depósito e até se faziam levas de fim de semana para levar uns quantos miúdos fardados para obras e pinturas em casa do senhor capitão x, do senhor major y e do sargento-chefe z.


Desenganado, esqueci tudo isso e voltei à vida civil. Continuei a idealizar a velha estirpe dos soldados patriotas, render preito e homenagem aos raros vestígios de um tempo remoto em que os militares eram, de facto, cavalheiros dos pés à cabeça, orgulhosos das suas fardas e dos seus juramentos de fidelidade à pátria. Agora desfazem-se-me definitivamente as ilusões. Leio e já não me espanto. Os aviadores, pagos com o nosso ouro para ganharem as asas, fogem da Força Aérea para o negócio do comércio das núvens. Enganam, traem e espezinham as juras de fidelidade à pátria, deixam indefesos os céus portugueses. A fuga não envolve mecânicos, jovens cadetes ou humildes sargentos. Agora são generais, coronéis, majores pilotos-aviadores, ávidos por ordenados. Entretanto, lá vamos tendo ministros da defesa num país indefeso, comido e aviltado por dentro, da presidência ao porteiro do mais ignoto instituto; todos mobilizados pelas pulsões do estômago e do status conferido pelo dinheiro. Onde o dinheiro domina, já não há lugar para vocações, nem para o serviço do Estado nem pelo amor de Pátria. A coisa acabou. A tropa mostra, com isto, que deixou de ser reserva para o que quer que seja. A "civilização" tornou-os iguais à populaça: futebol, dinheiro e mariscadas.


Sing, Sing, Sing: Benny Goodman (1938)

10 julho 2007

A televisão não mente


A maquineta encerra um poder inaudito e quase diabólico; ali não há ruga, olheira e papada que escape. Se, a acreditar nos catarpácios, há telegenia ou privação de boa-imagem televisiva, no que ao desembaraço, fluidez, bom discurso, inteligência, informação e boa educação respeita, não há pó de arroz, make-up, laca ou lápis miraculoso que impeça que sobre um mortal caia, fulminante e implacável, o juízo.


Ouvi ontem o debate dos doze apóstolos dessas boas-novas que nos vêm fustigando. Fazia zaping, pois Roma, com Voreno, Pulo e Cleópatra interessa-me mais que bairros sociais, arrumadores, túneis do Marquês e magnas matérias afins. Fiquei siderado pelo tom amador e bedutante de uns, pela crassa ignorância, português de rua e deserto mental de quase todos, mas, sobretudo, pela notória impreparação da totalidade. Como aqui dissera, confirmei duas excepções: Garcia Pereira e Telmo Correia.


Costa fez a rábula que lhe pediram. Não sendo nem tolo nem ignorante, mas tão só um oligarca, deu o redondo e o circular que competem a um homem instalado. O candidato do PSD é uma lástima; dali não sai um tiro certeiro, uma invectiva desarmante, um sarcasmo polido, um motivo para andar embarcado nesta galera. O PSD de Marques Mendes ameaça desabar, mas só não cai de vez porque ao PS interessa eternizar esse mal-entendido de trinta anos que é um partido sem ideologia, sem doutrina e sem programa. Os "independentes" Carmona e Roseta demonstraram aquilo que há muito sabia: não há espaço para independentes neste mundo condicionado e monopolizado por partidos. Carmona acabou a falar sozinho e Roseta a bichanar com Câmara Pereira, presumo que sobre Schelling ou Fichte. Uma última palavra para a direita. Manuel Monteiro parece não ter acrescentado uma molécula ao consabido "deixe que lhe diga" e ao "permita-me dizer" com que vem entretendo anos de dolorosa solidão. A Nova Democracia - que até poderia ter sido um cadinho de renovação do conservadorismo - parece-se agora, ponderados e estimados muitos daqueles que nela militam, um partido rural especializado numa desajeitada contestação dos "temas fracturantes". Acresce que Manuel Monteiro, que creio ser uma excelente e bem formada pessoa carece, definitivamente, de queda para a actividade a que consagra todo o seu irrepreensível e sofrido esforço. A direita portuguesa, se anémica em ideias, até poderia exibir a fortaleza dos fracos. Poderia ser simpática, sedutora, cativante, desempoeirada. Mas não, monopoliza o odioso, o sectário, o intolerante; em suma, faz o trabalho que dela esperam os seus críticos.


A política é um espectáculo. Os maus actores - aqueles que não possuem preparação e aqueles que não possuem o dom - não cabem no mundo da vida política hodierna. Até há trinta ou quarenta anos, dou-o de barato, a fama, a reputação e o sucesso de um político realizavam-se pelo jornalismo. Hoje, a televisão não permite retoques, cortes e pausas. Aquilo ontem foi um verdadeiro massacre. Ontem, inopinadamente, oito ou nove dos apóstolos cometeram harakiri em directo. À saída havia poças de sangue até aos tornozelos.

09 julho 2007

Liber de Spectaculis

A campanha que flagela Lisboa, sujando-a ainda mais, atingiu a última semana de vida. Confesso estar tão longe de todo esse crisól de paixões olissipográficas, do desespero que atira para o troitoir grandes, médios e pequenos candidatos - por sinal, quase todos pequeníssimos, com excepção de Telmo e Garcia Pereira - da catadupa de banalidades e frases-feitas com que se enche o vácuo de ideias e disfarça a mediocridade dos putativos, do lastimoso estado da esquerda, do centro e da direita para se duvidar que tais comícios consigam tirar de casa mandriões como eu. Por maior que seja a boa-vontade, a permissividade e abertura, confesso não os conseguir seguir nas errâncias de um "pensamento", de um argumento, de uma proposta; muito menos andar pelas ruas, feito tonto, de camisola de algodão e bandeira de plástico a angariar papeluchos, convencer donas-de-casa de saco aviado para o mercado, beijocar velhotas e oferecer abanicos, bóinas e outros saguates para selvagens. A politiquice tornou-se-me ainda mais indiferente que a futebolice - paixão que nunca experimentei - pelo que invejo a sorte daqueles que a ela entregam as mais nobres ficções-dirigentes ou a mais casca-grosseira cupidez. Vou votar no domingo, pois prometi que o faria. Mas fá-lo-ei absolutamente convencido da inutilidade do acto.

08 julho 2007

Aquilo que aconteceu à Sita Valles foi o que aconteceu à dissidência em qualquer parte do mundo. Foi tão chocante e brutal... Ela estava grávida, foi violada e torturada, deixou um filho sem pai nem mãe. Mas não provocou nenhum frisson no PCP. Falei disso com o dr. Cunhal e logo a seguir ele publicou no Avante! uma nota a dizer que tinha sido "para pôr ordem na casa". Era assim...

Zita Seabra faz as contas à memória

Finalmente, o comunismo à portuguesa franqueia as portas à memória e debita a conta-corrente dos mistérios que envolvem esse que é o mais incensado, propagandeado e indiscutido mito português da segunda metade do século XX. Um retrato fiel ao modelo: Cunhal déspota, um ser privado de respeito pelas pessoas, indiferente à dor, tirânico, denunciante, até, de toda a manifestação de personalidade autónoma, bulímico de adulação, falsamente humilde e paternalista perante a servidão e implacável na destruição de qualquer vestígio de consciência crítica. Em suma, como dizia Homem Cristo (Pai), era "um pulha de bem". Depois de Pacheco Pereira, Cândida Ventura e Zita Seabra não há, decididamente, lugar para comunistas românticos.



Shulzhenko (193-)