30 junho 2007

Um amigo dos turcos


General Friedrich Kress von Kressstein, comandante do IV Exército Turco que combateu no Suez entre 1915 e 1917. Outro entusiasta da máquina otomana.

Ocidentalização turca

O Tenente-general Liman von Sanders (1855-1929), grande entusiasta da entrada do Império Otomano na [guerra] europeia, inspector-geral e conselheiro dos exércitos da Sublime Porta e autor de umas memórias que interessa recordar, cheias que estão de reflexões sobre a insuperável distância que separa turcos e europeus.

29 junho 2007

Guerras turcas


A não perder este duelo reunindo dois Mestres de Armas (1) (2). Uma peça de antologia, demonstrativa da qualidade que a blogosfera pode apresentar na discussão de um tema geralmente tocado com desinformada ligeireza pela comunicação social.



Isktlal

28 junho 2007

Turquia: respeito pelo exotismo e amálgama

1. O confrade Jansenista levanta com a inteligência que se lhe conhece - mesmo quando não tem razão - objecções a respeito da argumentação aqui reunida ontem. Sou, como o disse, avesso à adesão turca por razões de natureza étnica; étnica e não racial, porquanto, como o lembrei, se a raça não existe como categoria diferenciadora, a etnia - i.e, língua, tradição religiosa, instituições, hábitos, costumes, formas de sensibilidade - continua a ser elemento demarcador de fronteiras. Há turcos tão ou mais brancos que os portugueses, as mais das vezes de tez mauritana e traços fisionómicos retintamente berberes. Para quem foi à Turquia (ou à Cabilia, ou à Síria, ao Líbano ou à Tunísia) não pode passar despercebida esta evidência: "eles" são "mais brancos" que os portugueses. Porém, os portugueses são etnicamente europeus; "eles" não.



Importa lembrar que sou admirador dos turcos - como o sou dos israelitas, dos siameses e chineses - sem que tal me obrigue a querer vê-los no mundo ocidental; pelo contrário, a Turquia , o Sião e a China que me interessam integram o exótico, o diferente, o absolutamente inacessível àquilo que convencionamos cunhar com o detestável palavrão de "mentalidade".


2. A Turquia não é o Império Otomano. Esse foi, objectivamente, inimigo, fronteira, concorrente e ameaça. A Turquia é uma decorrência daquele e do processo de ocidentalização. O pior que aconteceu ao Império Otomano foi o nacionalismo turco, copiado do nacionalismo europeu, que alienou arménios, judeus, gregos, valáquios, moldávos, transilvanos, curdos, sírios e árabes, excluindo-os, privando-os de direitos e empurrando-os para a secessão. Lembro que os "reis" da Valáquia (da Roménia actual) eram gregos do Fanar de Istambul, que o Kediva do Egipto era albanês, que janízaros e restante elite militar e política da Sublime Porta eram cristãos educados no serviço do Sultão, que os célebres dervixes turcos consumiam alcóol, que mulheres pertencentes a algumas seitas islâmicas, bem como de outras religiões estavam isentas do porte de véu, que os judeus foram os melhores administradores, financeiros, contabilistas e tesoureiros do império. Ao converter-se em Estado-nação, os turcos desenvolveram políticas de deportação, massacres e até extermínio contra minorias étnicas, aplicando severas medidas repressivas contra comunidades não turcófonas. Lembro também, por maior admiração que possamos ter por esse grande estadista que foi Kemal Mustafá, que este foi acicatador de brutais massacres perpetrados contra os cristãos ortodoxos gregos da Anatólia e arménios autocéfalos do Caúcaso.


3. O passado histórico não legitima candidatura à Europa. Os otomanos dominaram o norte de África, o Médio Oriente, o Caúcaso, a Crimeia e os Balcãs. A posse de uma região não legitima a reivindicação da história do território. Assim, o Egipto moderno não é a civilização egípcia, o Iraque moderno nada tem a ver com Assurbanípal ou Nabucodonosor, a Índia de Gandhi naõ é, decididamente, o Grão-Mogol. É verdade existir uma minoria culta, ocidentalizada e laica na Turquia, tão ou mesmo mais europeia que a nossa nativa, dada a touros, caçadas e superstições de vária índole. Mas essa minoria é duplamente minoria: é-o no conjunto da sociedade em que vive e na imagem que a europa tem da Turquia.

27 junho 2007

A Turquia não deve entrar, não pode entrar, não vai entrar


Anda o Turco alvoroçado com a resistência francesa à adesão do antigo império otomano à União. Ora, não se compreende a crispação. Custou-nos o Turco quatrocentos anos de guerras até que circunscrevesse o pé na Europa ao Corno de Ouro. Foram séculos de batalhas e escaramuças que mudaram o mapa étnico e religioso da Europa danubiana. A Turquia não é Europeia: não o foi sob a Sublime Porta; foi ferozmente anti-europeia sob o reformismo dos Jovens Turcos e, depois, quis seguir a via da ocidentalização técnica e administrativa à japonesa para, com essa força, restaurar a grandeza perdida. Kemal Ataturk foi um modernizador. Compreendeu que o Estado laico, nacionalista, codificador e unitário era a solução que melhor se adaptava ao reservado diagnóstico que desde finais do século XVIII se fazia ao "doente da Europa", mas tal não quis nem quer dizer que o país se tornasse europeu. Pelo contrário. Como lembra Nail Fergusson, se o Império Otomano fora multi-étnico, multi-confessional e multi-cultural, a Turquia moderna quis ser um Estado-império, desrespeitador das minorias. Não escolheu o caminho do Islão, pois não detinha o Califado e perdera o domínio sobre o Médio Oriente. Teve, fatalmente, que ser nacionalista. ATurquia, não sendo europeia senão por acidente, é, claramente, mediterrânica. É nesta condição que a Europa com ela deve trabalhar.



A questão não é a de saber se a Turquia deve ou não integrar os aliados do Ocidente, se os turcos integram a cepa europeia, posto ter sido há muito superada a categoria racial na formulação e resolução dos problemas políticos internacionais. A Turquia não é, também, um Estado "bárbaro", sendo signatária de todas as grandes cartas internacionais. Acresce que possui todos os adereços de um Estado moderno a apresenta garantias indiscutíveis para parcerias com o nosso mundo ocidental. Mas é etnicamente diferente: pelo passado, pela religião, pela sensibilidade e instituições culturais. A Europa é um clube de países de cultura cristã; iniludível, como lembrou o Papa, mesmo que Giscards e outros aventaleiros o quisessem escamotear. A recusa e resistências da União à entrada vem desmentir o lugar-comum, injusto como perverso, segundo o qual a União não passa de uma vulgar negociata de supermercado. Ao contrário do que dizia o Chevalier de Chaumont a Luís XIV, no termo da embaixada de 1685 ( "Senhor, O Sião não produz nem consome nada"), a Turquia poderia produzir muito e consumir ainda mais. A questão não é, pois, económica: é cultural. A Turquia não é europeia.

Lágrimas que o tempo não secou


Recebi de Maria - simplesmente Maria - um comovedor depoimento, igual e diferente a tantos outros milhares que se guardam ao longo de décadas. Reproduzo-o pois confirma aquilo que ontem anteontem aqui depositei.

Miguel,
Sobre este post
só posso dizer que sou mais "uma branca de segunda" e que as suas palavras fizeram correr algumas lágrimas de saudade, por um parar abrupto, por um abandonar desnorteado de Lourenço Marques.
Só viemos em Setembro de 74, mas lembro da minha mãe dizer que um dos caixotes partiu-se na viagem e como era o da loiça - partiu-se tudo. Eram tantos caixotes carregados de vida, brutalmente despejados em Lisboa, que a maioria perdeu a fé no recomeçar de uma nova vida... Lembro de alguns dias após chegar começar a ter crises fortes de otites que só pararam alguns anos mais tardes (tempo frio demais!), lembro da minha mãe dizer que eu não queria colo de ninguém/não ia para ninguém quando chegamos (da família e amigos que estavam em terras lusas) - não se retira uma criança de um meio e integra-se em outro sem existir tempo de adaptação!; lembro das conversas constantes sobre o sol, a praia, a marginal, as trovoadas, as acácias em flor, os baldes enormes de fruta que se compravam no mercado por "tuta e meia", de dormir na varanda com o meu pai por não aguentar o calor dentro de casa, da ama do meu irmão que o levava às costa para todo lado (e ele delirava!).... apesar de vir muito nova, essas recordações mantiveram-se bem vivas pelo amor que temos por África - Moçambique (minha terra) - Lourenço Marques (eu e mais uns milhares que deixamos o coração por lá).
Mas acima de tudo, lembro e sinto quase todos os dias a revolta do meu pai (militar da força aérea) contra Mário Soares, segundo as suas palavras "vendeu" a vida dos portugueses que lá estavam e de todos os Moçambicanos, que se não fosse ele teria sido uma independência consertada e possivelmente com menos mortes, miséria, abandonos, destruição registadas até aos dias de hoje.
Até podia ser o contrário, não saberemos nunca, em todo caso: Mário Soares não é bem vindo em nossa Casa (na hipotética hipótese de algum dia querer vir à nossa humilde cubata).
Depois de ler o teu texto, não conseguir deixar passar sem agradecer por este momento de partilha e emoção.
São vidas com muito sentimento, são momentos únicos que só quem passa sabe dar algum valor e que não nos deixa indiferentes, mesmo que seja só palavras ou uma simples imagem...
mais uma vez, muito obrigado.
Maria

25 junho 2007

Faz hoje 32 anos


Lisboa vivia na estúrdia loucura do suicídio colectivo. Abatera-se a indústria pesada, os bancos e seguradoras que, dizia-se, pertenciam às "tais cinco famílias que governam Portugal"; enxotara-se as multinacionais e o investimento estrangeiro; levara-se ao colapso da produção alimentar a sul do Tejo; as relações com o mundo livre estavam por um fio e estivera-se na iminência de uma intervenção espanhola por ocasião da destruição e queima do palacete da Palhavã. Nessa noite, no outro extremo do hemisfério sul, Moçambique era oferecido à Frelimo de Samora. Ao baixar o pavilhão português, entre um coro de assobios e vaias, Vasco Gonçalves e Otelo aplaudiam sorridentes.


Passaram 32 anos, três décadas de exílio. Lembro ainda, na penúria extrema de párias em que nos debatíamos, do silêncio de derrota e da desesperança que se abateu nessa noite sobre a nossa casa. Ouvi, no quarto contíguo, o choro da minha avó, a mágoa silenciosa que se colara à cara da minha mãe, a incredulidade das crianças - minha e dos meus irmãos - perante essa derrota total, irreversível e brutal. Deixáramos, num ápice, de ser moçambicanos; os brancos de África estavam, por decreto, extintos. Fiquei, desde esse dia, privado de parte da minha cidadania. Soubemos, nessa semana, por cartas lacónicas, abertas e censuradas de familiares inconscientes que por lá teimavam, que o "branco tinha de receber reeducação", que tinha de limpar as ruas, matar moscas e mosquitos nas "campanhas populares de dinamização". Soubemos, contristados, que as outrora senhoras do asfalto se haviam empacotado nas capulanas do Xipamanine, que Ariosa Pena e outros jornalistas europeus se excediam em denúncias aos colonialistas revanchistas, que as lápides e estátuas jaziam por terra nas lixeiras e escolas, avenidas, ruas e praças se haviam convertido ao novo tempo que se cantava: Mao-Tsé-Tung, Lenine, Nyerere, Jossima Machel, Lumumba e Friedrich Engels faziam a corografia de Maputo. Lourenço Marques morrera.


É curioso. Nunca em família ouvi um impropério, um reparo maldoso ou uma praga contra aquela gente que ficara refém da roda trituradora da história. Pelo contrário, ao longo dos anos sempre lembrámos amigos, colegas e empregados africanos, perguntando-nos se haviam sobrevivido à fome e aos campos de concentração, se a guerra que sobreveio, terrível e quase bíblica, deles se afastara misericordiosa. Lembrámos, tantas vezes o fiz, se os nossos gatos e cães haviam sido acolhidos por mãos piedosas, se a casa da Namaacha a outros trouxera acolhedora utilidade, se os nossos vizinhos e amigos - perdidos para sempre - haviam conseguido refazer as vidas pelas Austrálias, Brasis e África do Sul. Tudo acabou. Aquele mundo morreu e já no fim da memória quase não aflora senão em imagens remotas, quase fragmentárias, que dir-se-ia virem de uma outra vida, de uma encarnação passada.


Os anos passam, as mágoas dissipam-se e as paixões não resistem ao tempo inelutável. Há tempos, uma amiga mostrou-me uma entrevista concedida por Machel a um jornal italiano em meados de Agosto de 1974. Nessa entrevista, o guerrilheiro afirmava sem rebuço que a independência devia ser precedida por um período de transição até dez anos. Se o déspota não queria o poder, quem lho ofereceu ? A resposta surge-me hoje, límpida e crua: foi Mário Soares. Em Lusaca, Soares nem quis discutir, não exigiu nada: quis ver-se livre de Moçambique. Eu estava no pacote. Eu e milhões de outros moçambicanos, trocados por um abraço e pelo tilintar de um tchim-tchim.

Máquina de morte



Enemy at the Gates (2001)

Catherine Merridale continua por publicar entre nós.
Trata-se, inquestionavelmente, da mais empenhada historiadora no estudo e denúncia do duradouro regime genocida soviético, responsável pela morte de 55 milhões de seres humanos.

24 junho 2007

A voz do deserto


A inteligência não se rende. A prová-lo, a formidável prestação de lucidez, saber e amor a Portugal e à Liberdade que é Sobre o Tempo que Passa do Professor José Adelino Maltez. Uma voz que parece pregar no deserto, é certo, mas com uma tal fortaleza e imbatível argumentação que é dessas vozes que interpelam, sacodem a morna mansidão da mediocridade em que nos deixámos cair e permite pensar que Portugal não se entregou, em definitivo, à inelutabilidade da morte. Se estivesse na posição de SAR, o Senhor D. Duarte, escolhia-o de imediato para dirigir os monárquicos deste país, que são muitos e pessimamente comandados.


Pátria Minha (Vinicius)

O homem que decifrou o enigma

Decididamente, ninguém poderá compreender o Ocidente sem ler Dumézil.
A realização do "milagre grego", a trifuncionalidade antropológica e social romana - que depois transitou para a sociedade cristã medieval -a impulsividade castrense do mundo germânico, o espírito aristocrático da cavalaria só se compreenderam, finalmente, quando nos demos conta da herança esquecida que a Índia védica nos legou. O encanto irresistível pela Índia, velho sortilégio, era, afinal um afecto genético. Basta compulsar o Rigveda, o Mahabharata e o Ramayana para, sem outra resistência que o preconceito recebido do colonialismo recente, nos identificarmos com as nossas referências, que julgávamos nascidas na Hélade, no Lácio ou nas florestas da Germânia.
Houve um tempo, como provou Dumézil, em que Índia, Pérsia e Europa perfaziam uma unidade: unidade cosmogónica e religiosa, unidade ética bebendo dos mesmos recitativos heróicos, unidade na representação do homem e da sociedade. Para as férias que se aproximam aqui ficam duas recomendações. Lembro ainda com emoção o impacto que tais leituras sobre mim tiveram. Anotara a Paideia de Jeagger, pusera de lado os delírios fantasistas desse prodigioso criador de universos verazes que foi Evola, bem como a Civilização Grega, de Bonnard, mas nunca compreendera o enigma desse "milagre grego"cunhado por Ernest Renan. Não, não houve "milagre" algum; os caboucos do pensamento ocidental estavam todos, pan in herbis, nas margens do Indo: na preeminência do pensamento sobre a acção, no primado da palavra sobre a espada, no reconhecimento da autoridade do conhecimento antes da submissão à autoridade de facto.Tudo o mais que se seguiu ao afundamento desse mundo foram acrescentos, com excepção, bem entendido, da revolução cristã, que não deixou de lhe tributar respeito, incorporando-lhe a ideia de conhecimento como percurso e de cultura como processo, pelas quais a nossa civilização se distingue das outras civilizações, apenas viradas para a sua circunstância.

A mudança que acometeu tantos viajantes europeus em terras da Índia (ou de culturas indianizadas) explicar-se-á, então, por esse retorno ao lar perdido. Ao que se diz nas crónicas, até o Gama entrou com respeitosa naturalidade num templo indiano, ajoelhando-se aos pés dos seus deuses em preito de veneração. Só quando nos esquecermos do "estúpido século XIX" nos libertaremos de tudo o que nos afasta desse mundo remonto onde balbuciámos as primeiras palavras e articulámos as primeiras ideias.