22 junho 2007


PSD defende redução de 230 para 181 deputados , titula o DN. Por mim, com a qualidade (ou falta dela) que as minhas pobres meninges me permitem entrever naquelas prodigiosas sessões de erudição, não haveria um só deputado que não passasse obrigatoriamente por uma prova geral de cultura de algibeira, redacção e aritmética antes de ocupar o cadeirão cor-de-vinho. O parlamentarismo só se justifica se aparelhado de competência, sem a qual não passa de imensa - como cara - inutilidade. Neste particular, não sendo republicano, sou adepto incondicional do Presidencialismo. Num país quase privado de pessoas minimamente competentes, quantas menos se sentarem em lugares públicos melhor. A nossa democracia teria muito mais qualidade se não confundisse "gente sentada a dizer disparates" com legalidade, serviço público e participação.

21 junho 2007

Nem Remarque nem Jünger: um romance sobre o tempo dos mortos

Petersburger Marsch
Nem pacifista nem militarista, sem reflexão, contestação e pose face ao inelutável chamamento de Belona, um romance sobre os homens apanhados na engrenagem que os devorou e que se mantiveram humanos evocando apenas as pequenas coisas daquele tempo ante-cataclismico a que depois chamariam de Bela Época. De Edgar Maass (1894-1964), que deixou abundante obra ficcional infelizmente pouco conhecida, Verdun parece não seduzir pelo efeito artístico, nem por qualquer programa, mas pela terrível naturalidade com que a guerra e os seus desastres entraram pela vida de uma geração adentro. Acabado de comprar. Para ler, talvez, pelo verão.

20 junho 2007

Cavaco erra no destino


O Presidente da República é economista informado. Porém, conhecendo a realidade mundial, marcada pelo ascenso asiático, prefere visitar a maior vítima da emergência chinesa e indiana: os EUA. Para quando uma visita de Cavaco à Coreia do Sul, ao Japão, à Tailândia, Malásia e Singapura ? Sei que nas Necessidades a coisa está, por ora, perdida. Aqueles senhores não sabem onde fica o que quer que seja a leste de Estrasburgo, nunca leram, viram e mediram a intensidade quase estonteante do crescimento asiático, ignoram as potencialidades do bom investimento e das boas deslocalizações, ignoram que os bancos portugueses se poderiam fixar nesses mercados imensos, que o estudo da língua portuguesa conheceu um crescimento impressionante por acção conjugada da força brasileira e do bom trabalho realizado pelo Professor António Vasconcelos Saldanha no IPOR até ter sido eliminado pela inveja lisboeta. A diplomacia portuguesa é assim. O Presidente pode, como a Constituição insinua, desenvolver diplomacia paralela. Que o faça e não perca tempo com ranchos folclóricos, broas de mel e convívios com emigrantes saudosos.

O talento confunde-se com a direita



Os caros João Gonçalves e Jansenista lembraram-no oportunamente com propriedade e respeito. É raro podermos gabar um homem que se apresenta sem disfarce como inteligente e petulante, tamanha é a inculcação da falsa humildade prevalecente entre os homens de letras. José Hermano Saraiva, filho, irmão e sobrinho de homens de cultura e inteligência ditou - não escreveu, ditou para um gravador - as suas memórias, cuja primeira década acompanha a última edição de O Sol.



Sempre tive grande admiração por este Demóstenes português. Num país sem oradores, Hermano Saraiva bate a melhor verve espanhola, a melhor oratória italiana, o mais sedutor discurso francês. É, a todos os títulos, uma brilhante, talentosa como rara excepção no cinzento português. Estou farto dos barbichas de quatro dias à Maio de 68, dos intelectuais orgânicos da esquerda aborígene, do sorrisinho pateta, da sobranceria anal desses medíocres que treparam nas sortes da Revolução, trucidaram, defenestraram, sanearam e censuraram sempre com a Santa Liberdade colada aos lábios. Odeiam José Hermano Saraiva, cobrem-no de dichotes, caricaturam-lhe o gesto largo, o verbo redondo, a pose senatorial. Porquê ? Porque têm inveja; porque este homem ensina ao povo aquilo que eles não conseguem ou não sabem ensinar; porque em cada palavra, em cada pausa, em cada olhar carrega autoridade, mesmo quando improvisa, mesmo quando facilita e pontapeteia uma cronologia. O esquerdista barbichas de quatro dias fala para meia dúzia de patetas com barbichas, perde-se na confusão e no onanismozinho do citacionismo, na exibição do títulozeco académico e nos trabalhos estéreis que ninguém jamais leu.



Tenho, também, por Hermano Saraiva, uma especial afeição pessoal. Conheci-o há mais de 25 anos - caramba, como estou velho - era eu presidente da Associação de Estudantes do Liceu Rainha D.ª Leonor. Um dia enviei-lhe uma carta, convidando-o para proferir uma conferência - chamar-lhe-ia hoje uma charla - no refeitório do liceu. No dia aprazado, perante o liceu inteiro ali falou da grandeza de Camões e das marcas desse momento glorioso em que Portugal foi potência mundial. Calcule-se o terror das senhoras que então dirigiam o liceu, todas esquerdistas militantes: um "fascista" como o Saraiva, antigo ministro do Impronunciável, falar de Camões, do Império e das grandezas e fastos de Portugal ? Depois, volvidos anos, voltei a encontrar algumas dessas poedeiras assustadas, então já todas afeitas ao cavaquismo. Muitos anos depois, enquanto comissário de uma exposição evocativa de Venceslau de Morais, pedi-lhe por telefone que dedicasse um programa aos Portugueses no Oriente. Sem pestanejar disse-me que sim, que viria. E veio. Falou com seguranças, porteiras e condutores, mais senhoras da limpeza, doutoras e doutorecas com a mesma atitude, a mesma afabilidade e graça, conquistando-lhes o coração. É um senhor dos pés à cabeça. Gosta de aplausos ? Claro. Gosta de dinheiro ? Claro, só diz o contrário quem nunca o soube ganhar de forma honesta. Gosta do espectáculo ? Claro, é um artista.



O Professor Saraiva vai fazer-nos muita falta. Quando um dia nos deixar, o país ficará decerto mais pobre, mais cinzento, mais entregue aos barbichinhas de quatro dias e sorriso idiota. O Professor Saraiva é petulante. Adoro a petulância, adoro o orgulho e o espectáculo. A direita não conhece o meio termo. Os direitistas ou são extremamente asnos - casmurros, ignorantes e odiosos - ou extremamente dotados. Aliás, atrevo-me dizer não existir grande inteligência à esquerda, com a agravante de alguma dessa auto-proclamada, pretendida ou chamada inteligência à esquerda ser, de facto, uma direita escondida ou, pior, aquela estupidez ilustrada que nos aflige e macera de suplícios nas universidades e no colunismo opinativo. Ponto final.


If (Kipling) dito por Miguel Guerrero

19 junho 2007

Um perigo chamado Polónia


Um povo sofrido, martirizado, invadido e despedaçado, sem dúvida; uma nação repetidamente governada por estrangeiros e inscrita no rol de massacres e devastações da guerra, inquestionável. Contudo, essa é a Polónia dos últimos duzentos anos. Pelo local em que se situa, a Polónia é e foi sempre um problema: um problema para os seus vizinhos, sempre que espigou, cresceu e fez a guerra aos povos circunvizinhos; um problema na relação dos vizinhos, quando estes resolveram partilhá-la; um problema para os ocupantes, a braços com revoltas patrióticas endémicas. A "coitadificação" da Polónia é coisa recente, filha do nacionalismo e do romantismo oitocentistas, que fizeram crer tratar-se de um povo de pianistas. Não se conta, porém, a "outra Polónia": a Polónia que cresceu desmesuradamente nos séculos XVI e XVII, que dominou com mão de ferro a Ucrânia, que pôs e depôs czares na Moscóvia até meados do século XVII, que sopesou a engrenagem da diplomacia e da espada no Mitteleuropa até 1700. Esquece-se, também, que na Polónia independente dos anos 20 e 30 do século XX se praticou uma política de cruel segregação étnica, religiosa e cultural contra as minorias (alemã, judaica, ucraniana, eslovaca), se não tão brutal, pelo menos tão cínica como aquela praticada pelos nazis e tão eficaz como aquela trazida pelos tanques de Estaline.


Desde que resolveu entrar na União Europeia, tem sido um cadinho de problemas. Os polacos, fiéis de um soberanismo verdadeiramente fossilizado, encaram a Europa como um negócio de favor: querem as vantagens, os passaportes, as ajudas, os incentivos e a livre circulação de produtos [conquanto favoreçam as suas posições].Porém, recusam na União o que esta tem de inovador, de algo jamais tentado, de projecto feito de concessões recíprocas, de entendimentos. Os críticos da Europa imputam-lhe a lentidão, a burocracia, o normativismo e a extrema cautela; eventualmente, esses críticos prefeririam uma Europa à Napoleão, uma Europa onde os fracos e pequenos jamais seriam interpelados, mas submetidos, pura e simplesmente, à força dos exércitos invasores. Essa é outra história. Ora, desde que aderiu, a Polónia faz um finca-pé quase oriental na aceitação de qualquer ingerência em matérias sem as quais a Europa seria, precisamente, não a expressão da sensibilidade civilizacional do Ocidente hodierno, mas um mercado.


A parelha Kaczynski - de um reaccionarismo que faria inveja a Metternich, de um falso moralismo que tresanda a mau seminário - parece não querer recuar um milímetro. Os dois irmãos foram, como se sabe, grandes resistentes anti-comunistas, dois patriotas sofridos que muito fizeram pela erradicação das estruturas do Estado colonial-comunista. Contudo - eis a grande contradição daqueles que tanto combatem a americanização - os gémeos fazem a agenda dos EUA na Europa de Leste: são factor de indecisão, entorpecimento e desagregação da União.



Pela primeira vez dei comigo a concordar com Sócrates. Não se pode fazer clube sem cedências. Se a Polónia não quer a União, que saia. Não nos podemos dar ao luxo de, uma vez mais, hostilizar a Rússia, afastando-a da Europa, nem enervar os alemães, já cansados de tanta obstinação.

Há Procuradoria Geral da República ?


Manhã cedo na Rua da Escola Politécnica. Uma chuva miudinha espanta-tolos obriga a acelerar o passo, mas em frente da Procuradoria Geral da República, impassíveis, inacessíveis à intempérie, num assédio que se mantém há mais de dez anos, um casal exibe uns enormes cartazes questionando a decisão de um tribunal. O homem diz ter sido dado como morto por um parente, que lhe abarbatou os bens, lançando-o na miséria. Ali estão, anos consecutivos, lavrando protesto silencioso, bem em frente da janela do Procurador Geral. Uma vergonha para o Estado, um insulto para o titular do cargo de Escrivão da Puridade, uma exibição lamentável de ausência de lei numa terra com capacidade legislativa impressionante mas onde as leis jamais se aplicam senão em situações extremas. Hoje, já não estava só o casal emblemático: havia mais um, um estropiado expondo o seu aleijão e questionando uma injustiça. Amanhã haverá outros, depois de amanhã uma multidão.



Durante anos, distraído crónico que sou, pensei que aquela gente estava ali para anunciar uma qualquer boa-nova. No vestir e na pose, dir-se-ia um casal de evangélicos à procura de catecúmenos. Depois, aproximei-me e li, estarrecido, aquele requisitório espantoso que daria para uma novela camiliana. Hoje, já avisado, li a jeremíada do amputado. Das duas uma: se fosse Procurador, ou mandava de imediato por fim àquele estendal ou abria um inquérito aos motivos invocados por tão incómodos peticionários. Mas não, aqui nada se faz, dado a generalidade das instituições não terem sido riscadas para funcionar, pois se o fizessem metade do país estaria limitado às quatro paredes de uma cela. Tenho - repito-o com prazer e fel - vergonha em ser cidadão da "República Portuguesa". Esta terra é um prodígio de sobrevivência que atribuo - só pode ser - ao desinteresse da Espanha em arcar com mais 10 milhões de problemas.

18 junho 2007

A rolha do Costa


A velha Lei das Rolhas de 1850 - restaurada em 1911 - voltou para ficar. Como tenho lembrado - contrariando o mito seráfico de uma Primeira República impoluta e liberdadeira - foi dessa senhora de mau porte que o século XX português ganhou todos os vícios liberticidas, desfazendo num ápice meio século de efectivas aproximações à Europa conseguidas graças à paz política e social, ao arejamento trazido pela política de casamentos régios, ao estabelecimento de muitos estrangeiros e a uma não menor como assinalável humildade na compreensão das causas do atraso nacional. Folheando o periodismo da segunda metade de Oitocentos, espanta-nos o tom aberto - por vezes grosseiro, virulento e impune - da expressão da opinião, a qual não poupava o Rei, a família real, os príncipes da Igreja e das Letras, os políticos e outros grandes e pequenos protagonistas da vida pública. As polémicas, a crítica devastadora e a caricatura prosperaram, indiciando uma saudável disposição para o confronto. Se muitos não souberam fazer uso higiénico da liberdade - lembro as velhacarias de Antero contra Castilho, a campanha de difamação lançada contra Mouzinho, os escritos soezes de Junqueiro sobre D. Carlos - a verdade é que Portugal era, no que toca à liberdade de opinião, um país tão europeu como o Reino Unido. Com excepção do incidente das Conferências do Casino e algumas, pontuais, medidas repressivas desenvolvidas na década de 1890 e, depois, durante o governo de João Franco, publicava-se de tudo, dos contos porno-eróticos de Gallis, dos panfletos sórdido-difamadores à mais caústicas verrinas anti-clericais, dos escritos revolucionários e anti-monárquicos a obras de satanismo. Com a República vieram o encerramento de jornais, a censura, a violação da correspondência, a proibição de agremiações e partidos. Foi Costa (Afonso) e não Pimenta de Castro ou Sidónio que instituíram a Rolha: rolha contra os sindicatos, rolha contra os adversários políticos, rolha contra os jornais. Essa rolha só seria retocada, formalizada e legislada por Salazar, mas a censura existia como facto muitos anos antes do advento da Ditadura.

17 junho 2007

Crenças e superstições do tempo dos nossos avós

Ao fundo, pendendo na parede, uma obra de Ilya Repin (1844-1930), Os Barqueiros do Volga, pintura executada em 1873 por um dos mestres da pintura realista russa de finais do século XIX. Se bem que exprimindo a rudeza das condições de vida do campesinato, Repin parece querer enfatizar a rusticidade e fortaleza de um povo devotado ao trabalho, de religiosidade profunda e de grande fidelidade aos czares Romanov. Para os bolchevistas, porém, a temática repiniana exprimia a servidão dos mujiques submetidos ao chicote e à fome. O velho bolchevista parece-se com o típico apparatchik estalinista - barba à Kalinine - e estará a demonstrar ao jovem pioneiro a radiosa realidade da URSS. O rapaz segura uma obra de doutrina marxista, presente em todos os curricula escolares e sobre a mesa, a aplicação quotidiana da ideologia única: o jornal, peça indispensável à propaganda.


Uttomlennoe Solnce (193-)