16 junho 2007

Artilharia de cerco


Um verdadeiro demolidor de parapeitos, casernas e redutos; um arrasa-quarteirões com poder para penetrar as mais resistentes ligas e betões até às fundações; uma bomba que trata como manteiga as mais espessas blindagens. É um míssil ? Um laser ? Uma bomba atómica táctica ? Não, é João Gonçalves em verdadeira ira divina.

15 junho 2007

Chegou o tempo dos pina-maniqueiros

Os soviéticos procediam da mesma forma: isolar, repreender e suspender funções durante tempo indeterminado até vergar os contestatários. Suspender um funcionário por 240 dias quer simplesmente dizer tirar-lhe o salário durante 8 meses, impedi-lo de manter as obrigações do pagamento da renda da casa, a conta do telefone, as compras para a despensa, o pagamento da água, do gás e da electricidade. O Professor Charrua vai contrair empéstimos a amigos - os bancos não emprestam dinheiro a proscritos - e compelido a vender tudo o que de valor tiver em casa: os livros, o computador, os electrodomésticos, uma peça, um móvel, umas libras de ouro, um terreno. É assim que se submetem as pessoas. Que eu saiba - salvo três excepções, uma delas sem motivos políticos, mas moralões - nem o Estado Novo praticou com tamanha crueldade esta política de cortes calóricos aos funcionários públicos mais rebeldes.


Há indícios claros de uma derrapagem autoritaróide sem precedentes desde os nos 30 e 40: devassa e confiscação de bibliotecas particulares, com rusgas pina-maniqueiras a residências a horas sagradas, prepotência e agressividade verbal intimidatória, muitas vezes frente a crianças, escutas telefónicas e violação de correspondência, sucessivos processos-crime por motivos políticos, cargas policiais e outras maravilhas orwellianas entre as quais, forço, se inscrevem o incentivo à denúncia, a pressão sobre júris de selecção em concursos para provisão de lugares em cargos dirigentes, o esvaziamento de funções, a mudança de serviço sem motivo aparente. Sempre disse que a um preboste não se deve dar mais que um apito e um bastão; dar-lhe mais leva a isto num país de micro-ditadores, delactores, invejosos, difamadores e medíocres.


Li a entrevista daquela senhora com carão de Valentina Tereshkova e fiquei elucidado. Daquela queixada de batateira da gleba não sairia discurso tão sibilino, urdido e armadilhado como aquele. Aquilo é coisa de tara controleira saída de jurista experimentado e calejado na arte de maquinar, quiçá um assessor e comissário político muitíssimo experimentado. Aquilo também não é acidente, incidente ou episódio: é teste para programa a aplicar a todos no futuro. Sei destas coisas, pois sou por natureza pessimista, assisti a indizíveis processos e maquinações canalhas e defendi-me sempre reflectindo sobre a prodigiosa capacidade das pessoas inferiores em destruir, mutilar, enfraquecer e tramar a vida de terceiros. Aquela Tereshkova é uma indutora: quem a secunda, na sombra, sabe o que quer e para onde vai.

14 junho 2007

Morreu um inimigo de Portugal

Kurt Waldheim (1918-2007), agora convocado pelas Parcas, foi secretário geral da ONU por dois mandatos (1972-1982) antes de se alcandorar a presidente da Áustria. Foi graças aos ofícios deste antigo oficial tradutor das forças alemãs na Jugoslávia e membro do Partido Nacional-Socialista que o PAIGC se sentou e foi reconhecido como membro de pleno direito na Assembleia Geral das Nações Unidas; foi graças a Waldheim que se espalharam e ganharam foros de inquestionabilidade os "massacres de Wiriamu", relatados por um sacerdote britânico de duvidosa índole; foi graças a Waldheim que a ONU não esboçou o mímimo gesto de apoio à sorte de centos de milhares de portugueses apanhados no vórtice da descolonização e foi a sua indiferença que permitiu a guerra civil em Timor, a invasão indonésia e subsequente genocídio. Tanto trabalho desenvolvido com afã e método contra Portugal veio a ter explicação: Waldheim era um títere objecto de permanente chantagem pelos serviços de informações dos blocos em confronto na Guerra Fria. Portugal reunia, como se sabe, ocasião rara para entendimentos e concessões entre norte-americanos e soviéticos, pelo que Waldheim soube com maestria transformar-nos em Cabeça de Turco. Vá com Deus !

Alameda Digital: número sobre as direitas


Está na rua o mais recente número do Alameda Digital, que quebrou a malapata dos títulos efémeros. Desta vez, um manancial de textos sobre a Direita. Leia-se e divulgue-se, tanto mais que é gratuita (mas não inútil) e contém interessantes reflexões, com a exclusão da minha, simples linguado.

Leves leituras escapistas: no tempo dos hussardos das núvens


Terá sido, quiçá, o que restou da defunta ética da cavalaria: Richthofen, Mermoz, Lindebergh, Gago Coutinho, Sarmento Beires, Malraux, Balbo e Hanna Reitsch sempre me fascinaram. Alguns destes heróis alados deixaram memórias e descrições de viagens que desafiam a melhor ficção e a melhor literatura sapiencial. Ao franquearem os portais das núvens, numa aliança entre a tecnologia de incerta fiabilidade e a coragem, deixaram, decididamente, as estreitas convenções terrestres. As mudanças que o elemento ar opera têm velho historial na vida espiritual da humanidade. A transfiguração que experimentaram decorre da ausência de gravidade, estado por excelência que leva ao cadinho da libertação interna. Alguns, como Reitsch, que fora a coqueluche de Hitler, até operaram mudanças só possíveis nos píncaros dos templos lamaístas. Reitsch converteu-se em paladina da negritude, tendo deixado belísimas páginas de memórias sobre a sua relação com Kwame Nkrumah.


Fliegermarsch

13 junho 2007

Lóbi anti-Ota

Tenho pelo Eduardo Pitta grande simpatia e admiração, porquanto alia três predicados que assinalo, por ordem crescente, como garantias de credibilidade: não tem máscaras, é culto e faz parte da minha tribo africana portuguesa. Não compreendo, por mais voltas que dê aos textos que o Da Literatura vem publicando, o motivo do incondicional apoio à construção do aeroporto na Ota. Eu, Eduardo, tenho dúvidas, não as de engenharia - pois também não sou engenheiro - mas de natureza bem diversa. Não quero, tanto é o palavrório, tantas as insinuações, que o Estado e o povo paguem um aeroporto que esconde, afinal, sórdidos interesses aspirando a reparações e indemnizações fundiárias dignas de Midas; por sinal, reparações que garantirão fortuna imensa acrescida a essa mesma gente - das mais corruptas de que há memória deste o Duque D'Ávila - que chegou a extremos de deter em simultâneo cargos de decisão . Isto chegou a tal ponto que foi necessário um ultimato dos maiores contribuintes deste país - os patrões - para serenar o dito lóbi mafioso que há muito parece viciado na impunidade, afogado em prebendas e isenções fiscais, dopado em subsídios para actividades cuja utilidade ainda ninguém lobrigou. O regime não é de ninguém, o interesse público é de todos: Ota, não obrigado ! Depois queixem-se da desafectação da população face aos políticos, do colapso do civismo e da "conversa de taxista".

12 junho 2007

Loucura precisa-se (e a minha hierarquia da loucura)

Ao longo desta sensaborona vida de homem domesticado - ah, como simpatizo com a ideia romântica do bárbaro - tenho conhecido centos de bípedes. Confesso, porém, que da generalidade não ficou qualquer traço visual ou sonoro, tão pouco um dito espirituoso, um sulco de alacridade contagiante, um conselho avisado, uma assertiva desarmante, uma opinião demolidora. As pessoas satisfazem-se com a mediocridadezinha, o pensamento curto, a opiniãozinha cheia de ses e de mas; em suma, têm medo de existir. Atrevo-me pensar que a generalidade se encontra neste palco do teatro de Deus (Vieira) com meras funções figurantes: nunca ousaram, nunca desafiaram, nunca se questionaram, nunca conheceram os arroubos da indignação e da paixão, deixando que os acontecimentos se sucedessem à sua volta.



Ora, as excepções, que registo, ou são desiquilibrados e tarados - também os há geniais - ou pessoas extravagantes, das quais, em português chão, dizemos terem uma "pancada". Gosto, confesso, de fulanos e fulanas com um grão de loucura. As criaturas mais inteligentes, imprevisíveis e interessantes - aquelas que não sucumbiram ao descaso - têm pancada. Daí o meu recente interesse por essa figura que convulsionou a vida política francesa. Falava ontem com o inteligentíssimo João Gonçalves - com uma "boa pancada"por sinal - e reconhecemos que Sarkozy tem pancada, da melhor. Que falta nos faz aqui, no ataúde à beira mar plantado, um maluco capaz de soprar a corneta em torno desta Jericózinha funesta, envergonhada, moralona e venal. Nesse dia, prometo, vou ao Rossio de fato de banho e chapéu de côco na cabeça ! E o João Gonçalves também lá estará, loucos que somos.


Léo Ferré: Est-ce ansi que les hommes vivent ?

Apostila:
Para que não se corrompa o sentido do que acabo de escrever, posto me situar num dos escalões [moderados], aqui vai uma proposta tipológica dos graus de extravagância, dos benignos aos malsãos:

- Pancada saudável
- Grande pancada
- Chanfrice
- Manias
- Monomania totalitária
- Taradice a) Vulgar; b) Genial
- Loucura branda
- Loucura violenta

11 junho 2007

Tradição cesarista e plebiscitária


Sarkozy conheceu ontem o seu 18 de Brumário. É certo tê-lo obtido sem sangue derramado, por um acto de vontade geral do corpo eleitoral, por via eleitoral, a um tempo legal e legítima. Esmagou o conjunto das esquerdas imobilistas - a nostálgica da luta de classes e a nova-rica do funcionalismo estatal - acabou com o centro camaleónico do pântano de Bayrou e escreveu o epitáfio de Le Pen. Este estrondoso sucesso poderá permitir-lhe redesenhar o panorama político francês (e europeu), tanto mais que dele dele decorrem, por mimetismo, ondas sísmicas que chegaram à Bélgica, parente subsidiário da França. Na tradição histórica da fenomenologia continental, a Itália e Espanha seguir-lhe-ão as pisadas.



A França de hoje confunde-se com Sarkozy: quer Sarkozy, aceita as suas reformas dolorosas e vai apoiá-las. A atestá-lo, dos monárquicos e católicos de Villiers - que já se prestaram a votar UMP na segunda volta - aos náufragos do socialismo, um apoio compacto que não se via desde os tempos do De Gaulle de 1958, do Pétain de 1940 ou do infausto Boulanger de finais do século XIX. A herança do cesarismo - do homem providencial sem o qual, como bem lembrou Tulard, o exército não se põe em marcha, o funcionário não abre a secretaria, o maire não resolve o pequeno problema, o mercado não vende - pode garantir-lhe campo de manobra mas pode, também, impedir que a "revolução à inglesa" se instale. Os latinos precisam de líderes que se deixem adorar. A democracia latina é, pois, uma democracia de extracção sentimental e volitiva. Sarkozy corre o risco de se deixar devorar pelo meio e trocar o bem psicológico de um poder amado pela necessidade de fazer a guerra a tudo o que de negativo levou os franceses a votarem contra o sistema. Agora cabe-lhe a iniciativa: ou apostar no clientelismo, nas "quintas sociais", nos ateliers e nos subsídios, ou erigir um novo opacto de cidadania baseado na responsabilidade, no mérito e na iniciativa. Só o evoluir dos acontecimentos o dirá.


La Marseillaise: Mireille Mathieu

10 junho 2007

10 de Junho sem sentido


Sem armas, mas com muitos barões e asfixiante vil tristeza, sem panache e com um protocolo de Estado roçando a pelintrice, mais um 10 de Junho. Já não há soldados, nem marinheiros, nem viúvas, nem mães para condecorar. O Terreiro do Paço está vazio e o sentido da grandeza desapareceu. Muitos iberistas latentes, muitos ignotos medalhados, pastelinhos de bacalhau, pipis e cadelinhas regadas com carrascão. Discursos-conserva, de frases feitas que morrem na boca antes de proferidas, barrigas imensas, amiguismo, curibequismo e outros favores trocados, povinho posto à distância, falsas elites pavoneando-se no fruste palco de um país que teme proferir o seu nome, se esquece do seu passado e tem medo do futuro. Camões morreu, definitivamente. Dele já nada resta. A sua lírica fenece, ridícula: já não há as petrarquianas Lianor e Dinamene, mas só Cátias e Vanessas. A sua epopeia esconde-se, censura-se e interpreta-se na conveniência dos mitos que preenchem o vazio presente. Tudo aquilo é impublicável: já não se profere o nome do Castelhano, que rompeu as muralhas e conquistou, sem Aljubarrota; já não há Mafoma, nem a Mina, Malaca, nem Goa, nem Macau, nem o Mar Tenebroso, nem capitães, conquista e tráfico.Que triste é viver assim, sem nada por que valha a pena empunhar uma espada, sem uma bandeira, sem um Rei que nos una.