01 junho 2007

Medinho e União Nacional

Estava à mesa com um grupo de conhecidos. Confesso que "engrupar" não faz parte da minha natureza bisonha, associal, a-convivial e meditabunda. Prefiro ouvir pouco, falar pouco e disparar à queima-roupa sempre que daí retirar esse prazer quase erótico em estragar convenções, valores postiços e poses. Daí que me detestem os esquerdistas, me odeiem os direitistas de glosas e poucas letras, me olhem estarrecidos os amantes das grilhetas e dos cintos de castidade. Os três colegas com quem tomava a aguadilha acafezada comentavam, com aquela "simpatia portuguesa" - já o Padre António Vieira a tomava como o maior defeito de carácter dos portugueses - que o ministro Y era de uma simpatia rara, que o secretário de estado X um homem notável, o sub-secretário-adjunto-auxiliar Z um brilhante cérebro. Ouvi, ouvi e depois lancei os nebelwerfer - uma variante dos Orgãos de Estaline, mas mais devastadores e certeiros - o que pensava de X, Y e Z. O efeito foi imediato. Levantaram-se, correram como assustados em todas as direcções e deixaram-me ali, com a aguadilha morna, a sorrir de tão boa malvadez. As pessoas estão assim: com um medo de acentuada cor rosa (rosa, da União Nacional) e já nem pesnanejam. Estão, todos, apavorados com a ideia que uma putativa directora das DREN's - e há milhares por aí à solta - lhes deixe cair sobre a cabeça a lâmina do processo e os amortalhe na folha de papel azul. Os portugueses estão, todos, na União Nacional. Medinho e respeitinho.

31 maio 2007

AMI: ocidentalismo e preconceito anti-ocidental


A AMI (Assistência Médica Internacional) parece-me uma ONG carregada de boas-intenções e das poucas criadas em Portugal com verdadeira visibilidade e protagonismo fora de fronteiras. O seu presidente mobiliza vontades, desencanta meios e consegue levar a ajuda certa aos desvalidos de meio mundo. Neste particular, só pode receber o nosso aplauso.



Contudo, ouvindo-o, dir-se-ia preso daquela insuportável, injustificada e quase doentia crença da exigência de reparação moral que a extrema-esquerda anti-ocidental congeminou ao longo das últimas décadas. Para esses cavaleiros do resgate, a Europa e os EUA são os responsáveis pelos males do mundo, numa genealogia de culpa que remonta a Colombo, ao Gama e a todos os construtores do euro-mundo. Os europeus levaram os bacilos, as armas, as grilhetas e a violência às quatro partidas do mundo: escravizaram, mataram, depredaram e insultaram meia orbe e cabe-lhes, portanto, pagar, indemnizar, reparar, subsidiar as vítima reais ou imaginárias da mundialização iniciada em Quatrocentos.



É, sem tirar, a estória do Bom Selvagem e do Paraíso Perdido. Antes dos europeus, antes da expansão colonial, o mundo vivia no sétimo céu. Sociedades justas, vivendo na comunhão dos bens e na paz genésica, que desconheciam a violência e a arbitrariedade foram, de súbito, assaltadas por uma horda de criminosos de tez branca. A história da maldade e da infâmia é, por redundância, a história do Ocidente. A esta atitude de inculpação do Ocidente chamou com propriedade Avishai Margalit de "ocidentalismo" em conhecido ensaio disponível no mercado livreiro.



As teses ocidentalistas pretendem demonstrar que as matrizes e comportamentos contrários à harmonia, à paz, ao respeito pela liberdade e pelo ambiente foram enxertadas pelo "materialismo" e cupidez ocidentais em sociedades outrora "espirituais". O fundamentalismo islâmico, as guerras de agressão de países não-ocidentais a vizinhos, o terrorismo, os governos cleptocráticos, os atentados aos direitos humanos e os genocídios decorrem, assim, da alienação decorrente da colonização, pois eram fenómenos desconhecidos nas edénicas cidades solarianas que compunham a humanidade incorrupta. Para os "ocidentalistas", o nacionalismo, o racismo, a exclusão e a predicação da guerra, a fome, a corrupção que minam a África, a Ásia e a América do Sul são a factura da venda da alma dos outrora Bons Selvagens ao chamamento do Ocidente.



Remorso ou não, a verdade é que a cooperação desinteressada, a ajuda fraterna e esforçada, a preocupação pela sorte dos doentes e moribundos, as campanhas de erradicação de doenças, a preocupação pela escolarização, o fomento de iniciativas empresariais visando salvar da miséria milhões de excluídos dessas celestiais sociedades, a inculcação dos direitos das mulheres, a luta contra a escravatura e a prostituição infantil, as equipes de emergência enviadas em cenários atingidos por desastres naturais, a recuperação de crianças-soldados, as campanhas de desminagem; em suma, tudo o que de grande e nobre vai sendo feito neste vale de lágrimas, parte de iniciativas ocidentais. Contradição ? Não, pois a velha e sempre responsável Europa, ao globalizar-se, assumiu responsabilidades morais. É isso que não compreende o nobre presidente da AMI.

Como acabar com o regabofe numa penada

Na Tailândia acabou-se o regabofe da corrupção política. Ontem, em sessão plenária, o Supremo Tribunal fez história: de hoje em diante, os partidos políticos pagarão caro pelo envolvimento de quaisquer filiados seus em casos de corrupção, sejam ministros, deputados, autarcas ou simples militantes. Penas: interdição até dez anos dos direitos políticos individuais para os criminosos, suspensão até cinco anos da faculdade de participar em actos eleitorais para os partidos ou, em situações extremas, dissolução compulsiva dos mesmos.
Pelas minha contas, neste momento metade dos partidos com lugar na Assembleia da República estariam dissolvidos e uns cem presidentes de câmara impedidos de voltar ao latrocínio autárquico. Se a moda pega, a política deixa de ser horizonte profissional apetecível. Moral da história: se gostam de dinheiro, trabalhem. Se querem ser ricos, criem empresas, não criem partidos.



If I were a rich man

30 maio 2007

Novas do Sião


Recebi-o das mãos do Padre Surachai, sacerdote católico tailandês cujos trabalhos historiográficos sobre a recepção do cristianismo no Sião destacam o relevante papel desempenhado pelos missionários portugueses de Quinhentos e Seiscentos, bem como a não menos importante acção de intermediação cultural desenvolvida pela comunidade "portuguet" - luso-descendentes - na vida desse Estado do Sudeste-Asiático.


A foto que reproduzo integra uma obra agora publicada em Banguecoque pelo Ministério da Cultura daquele país versando os quinhentos anos de ininterruptas relações amistosas existentes desde 1511 entre Portugal e a Tailândia. Tenho ido com frequência a Banguecoque a convite das autoridades locais ou em representação de Portugal para participar em jornadas luso-tailandesas, pelo que encontrar numa obra tailandesa 40 páginas sobre as minhas andanças me encheu de contentamento.


Portugal tem ali muitos e bons amigos, mas infelizmente não tem sabido explorar esse raro capital de prestígio que, de tão importante, poderia garantir excelentes trocas comerciais e investimentos portugueses na quinta maior economia asiática. Tenho lutado, com teimosia quase solitária pela preparação condigna do meio milénio destas relações, que passará em 2011. O desinteresse das nossas autoridades é tão pesado quanto a desinformação, a ignorância ou essa miopia que vai, ano após ano, reduzindo a nossa visão do mundo ao curto horizonte da res europeia, dos Palops e dos investimentos cervejeiros no Brasil. As excepções contam-se pelos dedos, tendo à cabeça o Professor António Vasconcelos de Saldanha, que desenvolve intensa actividade de permuta académica com os investigadores tailandeses. É uma pena, um terrível erro este das nossas autoridades. As oportunidades, ou se agarram, ou passam para outras mãos. Dentro de anos, com a rapidez com que mudam as sociedades, de nós nada restará no antigo Reino de Sião.

29 maio 2007

E o meu voto vai para ...


Não sou nem jamais serei associado partidário, votando sempre onde julgo residir o interesse nacional objectivo plasmado nas candidaturas e programas apresentados a sufrágio. Desta vez votarei sem atropelos na minha área ideológica e afectiva. Vou votar Telmo Correia. Razões:


- Da extrema-esquerda à extrema-direita o cardápio é desolador. Depois de ouvir os candidatos - todos eméritos conhecidos, todos estafadíssimos, alguns roçando o reles mais desbocado, outros fazendo crer terem acabado de entrar na girândola da politiquice, outros arguidos, outros ainda buscando uns grãos de notoriedade - ouvi ontem Telmo Correia. Não tem um discurso messiânico, tem ideias certas e de escala, conhece Lisboa, vive em Lisboa e reúne a ponderação necessária à execução de um modesto programa perfeitamente adaptado às presentes circunstâncias.


- As promessas miríficas das restantes candidaturas dignas de nota carecem de aplicação. O Estado encontra-se arruinado, os cofres da edilidade vazios e a choruda cornucópia da Europa-maná secou. Não havendo dinheiro para novos torreões na Praça do Comércio, para elevadores à Mesnier du Ponsard, nem tão pouco para o faraónico projecto visionário da "nova baixa", detenho-me pelas pequenas coisas realizáveis.


- Lisboa está suja e precisa de uns toalhetes. Se a futura vereação camarária não pode prometer o céu, pode, ao invés, realizar boa obra com os parcos meios disponíveis. Recolher o lixo a horas, esvaziar os caixotes públicos, proibir a distribuição de jornais gratuitos nas condições em que se processa a sua divulgação - são centos, milhares de Destakes jazendo pelo chão - decretar guerra sem quartel aos grafiteiros, penalizando-os duramente, fechar as lojas que se especializaram na venda de srays destinados à duvidosa "arte de rua" (há uma, na Rua da Rosa, funcionando sem alvará), repor as calçadas dilaceradas pelas obras e obrazinhas, limpar as ruas das mesnadas de vagabundos-artistas que infestam a baixa, impedir as vendas-ataque das meninas no Rossio, mais as suas cristaleiras e viagens de sonho, limpar e restaurar os jardins e parques da capital, combater o tráfico de drogas mercê do encerramento compulsivo dos cafés e bares onde tal comércio se desenvolve não obstante as repetidas queixas dos munícipes; eis as razões por que voto em Telmo Correia.

28 maio 2007

Zapatero: um frouxo com assomos de energia

Dizia-me um espanhol na passada semana que os socialistas ibéricos têm o condão de criar inutilmente problemas e inimigos. Foi graças aos socialistas que a deriva terrorista se instalou na II República, levando ao pronunciamento de Franco; foi graças aos socialistas que o PCE se apossou do poder e impediu qualquer solução negociada no quadro da guerra civil.


Depois da reforma e da transição, com Gonzalez e o seu câmbio, foi graças aos socialistas que o Estado espanhol se deixou partidarizar a extremos de impunidade e corrupção sul-americanas. A tendência para o disparate é, entre os socialistas espanhóis, um dado genético. Foi graças a Zapatero que a Espanha perdeu a oportunidade de ouro para entrar no clube das potências políticas ocidentais: mandou retirar as tropas do Iraque, persistiu no apoio a Castro e esboçou simpatia por Chávez e Evo Morales.


Se no plano externo Zapatero se mostrou de incomparável inabilidade, internamente dedicou-se a reabrir feridas há muito saradas. Zapatero é, indiscutivelmente, um frouxo com assomos de afirmação compensatória e isso paga-se. Hostilizar a Igreja, provocar a classe média nascida sob o franquismo, menosprezar a Coroa e desconsiderar as Forças Armadas são constantes na sua linha de actuação. Os espanhóis são ricos e onde há riqueza a obsessão ideológica não colhe simpatias, mas hostilidade. A derrota que Zapatero colheu ontem foi as dois títulos justa: o PSOE não merecia governar o país, pois foi o PP que deu a Espanha uma década de crescimento com taxas verdadeiramente asiáticas; o PSOE funciona como um inimigo da ordem social, maquinando e desencadeando conflitos que jamais deflagrariam se não fosse a vis assomadiça do seu secretário-geral, um traumatizado social que quer reescrever a história dos últimos 70 anos. Para bem da estabilidade ibérica, esperemos que nas próximas eleições gerais o PP regresse ao poder.

Awardar

Mil obrigados à sempre amiga Bomba por tamanha simpatia.