26 maio 2007

Reis balcânicos precisam-se

Miguel I da Roménia

Compreendo agora o motivo da suspensão de que foi vítima o presidente romeno Traian Basescu, impedida in extremis pela esmagadora afirmação de apoio que lhe foi manifestada no referendo realizado em meados do corrente mês. Basescu é um triplo perigo para os seus inimigos: um perigo para os extremistas, pois não é racista e pretende a integração plena das minorias étnicas hungara e cigana; um perigo para os trânsfugas do regime de Ceausescu, que se constituiram em verdadeiro travão à modernização do país; por último, um perigo acrescido, pois é amigo e confidente do Rei Miguel I, que vive no exílio na Suiça desde 1948.


O erro trágico do processo de transição democrática na Roménia - como na Sérvia, no Montenegro e na Bulgária - deveu-se à pressão conjunta que uniu a sempre desinformada política externa norte-americana aos nostálgicos do comunismo e aos grupos ultra-nacionalistas, impedindo que nesses países se retomasse a solução aplacadora consubstanciada na restauração monárquica. A Sérvia pagou caro a aventura de Milosevic, o Montenegro encontra-se em impasse e a Bulgária não consegue debelar problemas endógenos que decorrem da artificialidade das fronteiras políticas e étnicas, do peso da oligarquia ex-comunista e de uma sociedade desconjuntada por décadas de ditadura de obediência moscovita.


Os reis balcânicos conseguiram o milagre de manter unidos Estados constitutivamente ingovernáveis, mantas de retalhos, caldos de ódios seculares e vulneráveis ao grande e perverso jogo da política europeia entre-guerras. Miguel I da Roménia defendeu a soberania do país com grande coragem, tendo sido vítima, primeiro da imoral política hitleriana, que empurrou o país para a guerra catastrófica, depois, pelos soviéticos, que o atiraram para o exílio mediante a acção concertada de Vichinsky, o mastim de Estaline e de Anna Pauker, o protótipo da traição ao serviço dos soviéticos. O mesmo aconteceu a Boris III da Bulgária, que foi mandado envenenar por Hitler em 1943 depois de se haver recusado enviar tropas para o teatro de operações na Rússia, se haver recusado declarar guerra aos EUA e Reino Unido e ter impedido a entrada no país aos esbirros de Himmler.


A superioridade moral da monarquia encontra nesses soberanos sóbrios, patriotas e servidores do bem-comum expressão acabada do carácter intrinsecamente benigno da instituição real. Como fazem falta a esse rincão perturbado da Europa casas dinásticas !


Manintal-din-sig ?: Roménia

Se estou zangado ? Sim, e muito

Pergunta-me um caro leitor se estou zangado. É evidente, para quem leu o último apontamento aqui depositado, que me sinto enganado, frustrado e insultado pelo estado a que chegou o regime. Por todo o lado ressuma a podridão, fuga às responsabilidades, incompetência, crime premeditado ou inconsciência criminosa.


Que me lembre - na sucessão quase estonteante em que as coisas têm ocorrido - nunca estivemos em situação tão perigosa como hoje: nunca foi tão notória a fragilidade do Estado; nunca a autoridade se mostrou tão errática como incapaz; nunca os poderes constituídos se mostraram a um tempo tão pusilâmines e tão arrogantes; nunca tantos escândalos de nepotismo, abuso de autoridade, censura, intromissão e manipulação da opinião que se publica atingiu foros de verdadeira agonia como hoje; nunca tantos governantes foram confrontados com inverdades e mentiras; nunca se exigiram tantos sacrifícios sem que os seus inspiradores tivessem a elementar coerência de os praticar.


A semana foi, de facto, um torvelinho de pequenos acidentes que deslustram o Estado de Direito, a democracia, o civismo e o bom nome das instituições: um governante que nomeia a filha, mudando-lhe o apelido, uma lista camarária inteiramente composta de arguidos, um ministro boçal desconsiderando milhões de portugueses, um professor denunciado e alvo de processo disciplinar por um inócuo comentário sussurrado a um colega no defeso do gabinete.


A democracia, mais que um método, exige uma ética. Ora, quando um regime que se diz fundado na soberania do povo se precipita na mais ignóbil das mascaradas, quando demonstra não cumprir os princípios elementares da ética do serviço público - Princípio da Legalidade, Princípio da Igualidade, Princípio da Lealdade, Princípio da Integridade, Princípio da Competência e Responsabilidade - e quando a tudo isso soma incompetência técnica, incapacidade de gestão e direcção, favoritismo e incontrolável apetite pelo domínio da palavra, da opinião e até a presunção de certeza, deixa de ser democrático.


Portugal transporta um velho historial de tirania, censura e condicionamento misturado com demagogia, corrupção e má governação, pelo que tomar este momento como uma simples conjugação de acasos é erro; diria mais, é um perigo para todos quantos amam a liberdade e temem os fantasmas do despostismo que ciclicamente regressam triunfantes após o colapso de regimes de balbúrdia. Neste Reino Cadaveroso parece só haver espaço para essa sucessão de tirania seguida de balbúrdia e balbúrdia seguida de tirania.Está escrito, se assim continuar, que em breve lá estaremos.

25 maio 2007

Gaffes Linosas e o ocaso deste regime


O homem não é pior nem melhor que os outros; é igual à generalidade dos ministrozecos que temos. Chegámos a um ponto de não retorno na vida do regime em que só aceitam lugares na governança aqueles que nada têm a perder ou aqueles que, de todo, perderam o sentido do ridículo. Aquele ar de Zé Povinho alvar, a incontinência verbal e desbragamento não diminuem em nada o governo. Ontem vi-o, perante as câmaras, impudente, coçando os testículos. Afinal, como todos os outros, trata-se de figura insignificante, grosseira e semi-letrada que convive perfeitamente com a ideia há muito instalada de que os políticos não são mais que o reflexo de um país que se conformou com a mediocridade, a grosseria, a irresponsabilidade e a impunidade. Lino é ridículo, o governo é ridículo, o presidente abúlico, o regime uma inconsistência. De governo em governo, de primeiro-ministro em primeiro-ministro, temos assistido, entre o gargalhar e o choque, a uma tal parada de trapalhões, mentecaptos e inimputáveis, tão afoitos na arte de cobrir o regime de ridículo que dir-se-ia trabalharem para o afundamento desta 3ª República. O que se seguirá ? O que nos espera ainda ? Quem poderá salvar o regime da anedota em que redundou ? O grotesco suplantou as expectativas mais reservadas. Vivemos em plena era da anedota.


Circo trágico

24 maio 2007

Lembrar um grande insultado


A propósito da Lisboa Assassinada, recebi de Ana Cristina Duarte Ferreira o seguinte comentário, que subscrevo na íntegra:


Isto é tudo uma tristeza, comandado pelos empreiteiros-salteadores e patrocinado pelo grande legislador (qualquer PDM é um tricot de excepções, desde o "manisfesto interesse arquitectónico do projecto", o daquelas testas coroadas da arquitectura internacional que nos atiram com o seu retrato em cartaz como um vulgar anúncio de pasta dos dentes para promoção da torre de vidro e aço em corda, NADA VISTA...., à preferência pelo telhado-casota-de-cão "tipo" português e ao amarelinho chi-chi das fachadas dos edifícios "reabilitados"). De resto, a Câmara de Lisboa, e claro, todas as outras, estão atulhadas de funcionarecos, médios e superiores, de mão em concha, que há muito perderam a vergonha, ou nunca a tiveram, de suplicar uns morabitinos de ouro para derrubar qualquer entravezinho ao andamento da coisa...
Se olharmos, mesmo desatentamente, para um dos discursos de Duarte Pacheco, qualquer que seja, concluíremos mais uma vez, com insuportável angústia, que o objectivo modernidade abandonou há muitíssimo tempo as preocupações desta gente. E bem pode a História da Arte continuar a rir da casa portuguesa de Raúl Lino, a tal que nunca existiu, pois na sua solidez e ingenuidade (fabricada) era tão convicta ao lado das moradiazinhas-parténon, sempre, sempre, amarelinhas que para aí se fazem num piscar de olhos.

23 maio 2007

Cidades assassinadas (4): Lisboa



Poupada à guerra, nunca foi subjugada pelas botas cardadas do inimigo. Que me lembre, das capitais europeias, só Lisboa escapou ao demónio da guerra que se manifestou por todo o continente ao longo do fatídico século XX. Contudo, dir-se-ia ter caído por dentro, ultrajada, maltratada e violada como troféu por governantes corruptos, acéfalos e medíocres de todos os credos e bandeiras, servida como trofeú ao camartelo de patos-bravos, reduzida a caricatura viva.


Nos umbrais do século sonhou-a Fialho com monumentalidade, na senda do visionarismo que foi nota da idade do ferro, das exposições universais e outros excessos de confiança no futuro que acompanharam o nascimento da contemporaneidade. Cassiano, na crista da onda modernista, até a quis como coração da indústria cinematográfica europeia, com uma Hollywood na Caparica e adamanes de S. Francisco, antes de a situar no amplo leque de expressões da nacionalidade no Portugal dos Pequenitos. Com Duarte Pacheco, a vaga nacionalista e imperial imprimiu-lhe a gramática de grandeza e monumentalidade: Lisboa, cabeça de um grande Império, Lisboa administrativa e codificadora; Lisboa intemporal, com o típico e o moderno procurando o equilíbrio entre a permanência e a mudança.


Depois, sob Marcello - i.e, sob jugo daqueles que ainda hoje nos governam - iniciou-se a era da destruição, não daquela destruição correlata da mudança inelutável, mas da bangunça nascida do alpinismo dos atrevidos, dos fura-vidas, dos especuladores e demais predadores. Duarte Pacheco, que se conseguira impor a todos os interesses (familiares, políticos, religiosos) que continuam a limitar a liberdade da acção municipal, deixara-a granítica, caiada, hierática, ordeira e temente da racionalidade do plano que traçara. Nos anos 60, vinte anos após a sua morte, já o barraquismo, o improviso e o miniaturismo - velhas pechas portuguesas - haviam voltado.



Com o 25 da Silva e a clara opção terceiro-mundista que marcou o PREC - o PREC não morreu em 25 de Novembro; ficou nas atitudes, no desprezo por todas as formas de acatamento da lei, no culto pelo vandalismo - Lisboa entrou no vórtice. Teve de tudo: Aquilino Ribeiro Machado, que muitos cunharam de aquilixo, pela sujidade infecta em que mergulhou Lisboa, já ferida de morte pelas pinchagens e pelo muralismo revolucionários que nem a Torre de Belém nem os Jerónimos havia poupado; Nuno Abecassis, que destruiu toda a Av.ª da República, permitiu o colapso da Av.ª da Liberdade e quase permitiu a perda do Chiado; Sampaio, que se limitou a remendos e a uns coloridos, entretanto desvanecidos; Soares-Filho, que fez das barracas de zinco barracas de cimento da EPUL; de Carmona, que deixou a cidade irreconhecível, tudo passou pela CML.


A nostalgia é sempre uma condenação e um libelo contra o que está. A torrente de obras sobre Lisboa, que invade as estantes das livrarias, tem uma explicação: os lisboetas detestam a cidade onde vivem, olham para a cidade perdida com um misto de misericórdia e saudade. Lisboa foi assassinada por portugueses. Hoje, é buraco, são grafittis, portas e janelas emparedadas, obras suspensas, jardins devastados, árvores ressequidas, lixo, mendigos e gente esfarrapada, urinóis contra as paredes, fachadas escalavradas. Lisboa já não é cabeça de nada. O império morreu, os ministérios estão entregues a provincianos boçais que a invejam e detestam, os ricos dela se ausentaram, estabelecendo-se nas Cascais e Belouras. Lisboa morreu. Só não demos conta disso porque há por aí alguns necrófagos que querem acabar o trabalho por outros entusiasticamente iniciado.


Carlos Seixas: Allegro, do concerto para cravo e orquestra

22 maio 2007

Tintinlogia: máquinas

Esta destinava-se à Lua


Esta saltava até Londres

Excelências esquerdistas: Paulo Varela Gomes

Cumprindo uma obrigação devida a José Pedro Ribeiro, não posso deixar despercebida a notável, feroz e desassombrada intervenção de Paulo Varela Gomes no Prós e Contras ontem emitido. Tenho a honra de conhecer Paulo Varela Gomes: é um homem superior, inteligente, culto, incisivo e de probidade sem mácula, pelo que tudo o que diz e escreve se situa naquela infelizmente diminuta categoria de "coisas excelentes". Varela Gomes é comunista, sem dúvida; Paulo Varela Gomes é, à sua [e nossa maneira] um desassossegado: não serve lóbis, máfias, curibecas, não vive da "coisa", não esmola, não recebe tenças nem genuflecte aos pés dos bezerros de ouro e mitos de vento que reduziram os nossos pobres concidadãos a escravos do medo. Ontem ouvi-o atentamente: daquela boca saíram verdades puras e cruas, sem adornos nem circunlóquios. Estas verdades são frias como a melhor artilharia; explosivas como o melhor TNT; devastadoras como a mais pura penicilina. Ninguém as quer ouvir, mas, depois de proferidas, exercem o efeito purificador da criolina. Ah, se por aí houvesse uma dúzia de Varelas Gomes e Medinas Carreiras até eu, um incurável direitista, monárquico e conservador não hesitaria em levar tais cavaleiros da verdade a S. Bento.

21 maio 2007

Direito de tendência

Se a anunciada abertura da liderança do PP ao direito de tendência não se limita a mera operação cosmética e a trompe l'oeil, aqui fica a proposta para a criação da Tendência Monárquica. Cabe a Paulo Portas aceitar ou recusar o desafio. Cabe aos muitos monárquicos existentes no PP a iniciativa.

O homem era fascista, que mal tem isso ?


João Paulo Cotrim, Miguel Portas e Guilherme Oliveira Martins na RTP-2 e até o incansável Marcelo na 1 tratando infantilmente do tópico do dia: Tintin. Uma quase monomania em torno das ligações ideológicas e amizades fascistas de Hergé: obsessão, repetição, estreiteza de informação e visão, manipulação e ausência flagrante de gosto. É verdade, Hergé era fascista, pró-nazi, anti-semita, anti-americano, nostálgico dos universos pitorescos, dos povos irredutíveis e declarado inimigo do comunismo. É-me totalmente indiferente que fosse ou não seguidor de Léon Degrelle, de que, aliás, o jovem e heróico repórter é fiel clone. Hergé era um artista genial, como o foram Riefenstahl, Céline, T.S. Elliot, Pound, Mishima, Knut Hamsun, Richard Strauss e tantos outros, também fascistas ou nazistas.
No universo artístico, a admiração de quem frui reside na captação da grandeza do objecto criado, não no metatexto, nos acidentes biográficos ou no fantasma do criador na criação. Que se danem Jack London, Brecht, Arthur Koestler, John Reed, Eisenstein, Shostakovich e Neruda se foram comunistas e se serviram o concentracionarismo de Estaline ou seguiram o genocida Trotsky, conquanto me proporcionem o impagável prazer de os ler, ver ou ouvir. Às pessoas pequenas interessam as coisas pequenas. Portas e tantos outros minimalistas da exigência preferem a pedreira às pirâmides. O aspecto ideológico de artistas fascistas e comunistas só interessará aos débeis mentais que os exaltam ou odeiam por haverem servido Estaline ou venerado Hitler. Hergé era fascista. A mim incomoda-me tanto como saber que amanhã acordarei às 9 horas, almoçarei pelo meio dia e beberei um café pelas 4 da tarde.

20 maio 2007

Cegueira ocidental


Não compreendo o que querem a União Europeia e os EUA desta cruzada contra Putin. Persistir em insultar e humilhar a Rússia - que perdeu 1/3 da superfície europeia, regredindo a fronteiras do século XVIII - é erro tremendo que será pago em dolorosas prestações. A Rússia nunca esteve tão próxima da Europa; abriu mão do velho pan-eslavismo, enterrou o panzer bolchevismo, transformou-se no maior credor dos ocidentais, mas estes exigem mais cedências. Não obstante o coro [estudadíssimo] de protestos, nunca os russos foram tão livres, tão seguros, tão ricos e confiáveis como hoje. Pela primeira vez desde 1814, não foram os russos a entrar-nos porta adentro, mas os ocidentais a instalar-se nas cercanias do Kremlin. Se lhes recusamos um banal nacionalismo - tisana psicológica para um império recém desfeito - talvez venhamos a colher, em nova moldura, esse chauvinismo comum aos grandes povos caídos em desgraça, olhados com desprezo e revoltados pela insensibilidade vindicativa daqueles que os cercam. Duvido que a pressão europeia tenha algum efeito benéfico; ao invés, uma vez mais, como aconteceu no século XIX, os russos sentir-se-ão estranhos ao corpo de uma civilização que não os quer como aliados, preferindo tê-los como inimigos.