19 maio 2007

Cidades assassinadas (3): Tóquio



Não foi apenas Wells a anunciar uma guerra devastadora e industrializada no decurso da qual, sem sequer ver o inimigo - desclassificado a abstracção tão visível como uma bactéria - máquinas voadoras reduziriam a pó e cinzas cidades e exterminariam populações inteiras. Em 1908, Giffard e Robida, na senda do género popularizado por Verne, haviam antevisto um cataclismo bélico de proporções apocalípticas entre os povos brancos e amarelos. Num trecho dessa novela de ficção histórica, um oficial francês afirmava: "juremos que o inimigo conhecerá pelas nossas mãos a devastação, o fogo, a ruína e a morte"(1). Parecia uma antevisão do terror que se abateria sobre o Japão três décadas depois. Edo, rebaptizada Tóquio em 1869, era, em 1945, uma das maiores cidades do planeta, com os seus sete milhões de habitantes desenvolvendo febril actividade nas indústrias e serviços de um império em declínio após quatro anos de guerra.Sofrera em 1923 um grande terremoto, mas depressa recuperara e apresentava todas as características de uma metrópole moderna, bem servida por uma inextrincável rede de comunicações, zonas residenciais e comerciais que em nada a distinguiam das capitais ocidentais. Possuia, também, grandes museus, salas de espectáculos, parques, santuários e estádios que rivalizariam com os de qualquer grande capital europeia. De súbito, em Fevereiro e Março de 45 caiu sobre a cidade uma tempestade de fogo que a reduziu a cinzas fumegantes: 300.000 mortos, 40 km2 destruídos (o equivalente a Nova Iorque) e o colapso de toda a vida organizada. Depois vieram a fome e as epidemias.Pode-se afirmar com toda a segurança que o velho Japão morreu nessa fornalha. A literatura de Ashihei Hino e Tatsuzō Ishikawa, autores glorificadores da guerra, deixou de ter razão perante tal hecatombe e a grande metrópole reergueu-se do calvário, tentado-o esquecer, mas para sempre ficou a cicatriz deixada pelo poder quase divino do homem - mais forte que a natureza - na destruição da sua própria obra.
(1) Cit. HERP, Jacques van. Panorama de la Science Fiction: les thèmes, les genres, les écoles, les problémes. Verviers: Gerard & Cº, 1973, p. 143


Sandan

"Cambra escura"


Na corrida à "Cambra" de Lisboa parece haver um braço de ferro para apresentar o maior número possível de repelentes à participação do corpo eleitoral. Olho para os candidatos e confesso ali não encontrar um só fácies convidativo; são todos repetentes, trepetentes estafadíssimos, gastos como as pedras da calçada, desengonçados e cativantes como um prato de batatas fritas enregeladas cobertas de molho de peixe crú. Pergunto-me se não há melhor ou se a actividade política terá chegado ao grau zero da respeitabilidade, só mobilizando os restos frios e o bolor.
Assusta-me que partidos e respectivas lideranças não tomem consciência do plano inclinado em que caiu a actividade política aos olhos do povo comum. Em 1925, antes do advento da ditadura, já só votavam 20% dos inscritos nos cadernos, tamanho era o desinteresse por esses rostos de queixadas largas e olhar de robalo congelado que enchem paredes sempre que abrem a concurso lugares na governança. Assim não dá !

18 maio 2007

Cidades assassinadas (2): Berlim


"Berlin ist eine Stadt, verdammt dazu, ewig zu werden, niemals zu sein”- Berlim está condenada a vir a ser sem nunca chegar a ser [uma grande cidade] (Karl Scheffler). Sobre a capital alemã, das cidades que mais seduzem o forasteiro, impende uma maldição. Teve, ao longo dos últimos séculos, todas as possibilidades de ser a capital (económica, comercial, tecnológica e política) da Europa, mas, no momento derradeiro, fracassou clamorosamente. Cidade cosmopolita, confluência do Leste o do Ocidente, multicultural, elegante, boémia, dissoluta, espartana, castrense, nela campearam o vaudeville, a opereta, o cabaret, o marginalismo cultural, o experimentalismo desvairado e provocador, mas também o mais feroz reaccionarismo anti-moderno, a mais ácida oposição pequeno-burguesa à mudança e, também, as mais extremadas soluções nascidas do totalitarismo e das religiões políticas do século, o nazismo e o comunismo. Ninguém diria que a cidade que Christopher Isherwood palmilhou em finais de 1920 - pletórica, perigosa e explosiva de alegria - atelier de Grosz, Brecht, Murnau e Fritz Lang, tão feérica como Chicago e Nova Iorque, riquíssima na diversidade de estratos e aspectos, capital do cinema europeu, mas também do jazz, do nudismo e da sexologia, sede das maiores empresas e bancos europeus, se transformasse, no interim de quinze anos, no maior cemitério plantado na superfície do planeta.
Quatro milhões de habitantes, servidos pelo conforto do mais moderno parque de maravilhas do século - metro, autocarros, escadas rolantes, piscinas aquecidas, ginásios, restaurantes e hotéis de sonho, superfícies comerciais de um gigantismo que ainda hoje se imporia, floristas, ourives, livrarias, editoras, bibliotecas e museus, salas de cinema, óperas, estúdios de cinema, jardins deslumbrantes, laboratórios, universidades, institutos - foram literalmente extirpados da civilização e atirados para os horrores da vida cavernícola. A capital alemã foi arrasada por sucessivos bombardeamentos aéreos (1943-44), antes de receber o golpe de misericórdia pelos 10.000 canhões soviéticos de Zukhov, em Março e Abril de 45. Diz-se ter perdido 70% das casas: Tiergarten, Charlottenburg, Schoneburg, Spandau e a área do Zoo desapareceram, pura e simplesmente; da área de Brandenburg e dos ministérios, bem como da Unter den Linden, nada sobreviveu. Lendo o Gotterdammerung de Saint Loup (aliás Marc Augier), Uma Mulher em Berlim (anónimo) ou o recente A Queda de Berlim, de Antony Beevor, percepciona-se timidamente o que terá sido a destruição da grande metrópole: 300.000 mortos, meio milhão de feridos, dois milhões de avacuados, 130.000 violadas, quebra de fornecimento de água, luz e gás, deasaparição de toda a actividade digna de nota. Os berlinenses, que nos anos 30 viviam 50 anos à frente dos outros europeus, regrediram mil anos.
A cidade partida em dois, ocupada e inculpada, nunca recuperaria. Ainda hoje, não obstante se haver transformado em estaleiro, ainda não é Berlim: é um fantasma daquilo que imagino ter sido. É uma pena pensar no destino de tantos milhões de pessoas comuns como nós, apanhadas no momento errado da história, mas também imaginar os tesouros que se perderam nos incêndios, nos saques e vandalismo desses anos de fogo. Berlim não é uma cidade: é uma tese à capacidade humana de fazer e desfazer sonhos.


Herr Lehman, was macht die Frau Gemahlin in Marienbad?

Quando Portugal era um país colonialista, segregacionista, racista, isolacionista e fascista

17 maio 2007

Deselegante Liberdade

Os malaios estão a preparar-se para grandes festividades por ocasião do 50º aniversário da independência da confederação face à coroa britânica. A liberdade/independência, por lá, toma o nome de Merdeka. Nós também temos o nosso dia da Liberdade !

Uma diva árabe



Oum Kalthoum : Raq el Habib (servidão amorosa),1941
Nacionalista fervorosa, nasserista empedernida, propagandista e emissária diplomática, actriz e cantora com ascendente sobre milhões de admiradores, Khalthoum morreu há 32 anos. Descobri-a tardiamente, em casa de amigos árabes, quando vivi em Paris. Kalthoum, mau grado as facetas menos risonhas, foi [e continua a ser] o símbolo da modernidade árabe, da emancipação feminina e do triunfo do talento.

João Gonçalves no parlamento ?


Recebi uma dúzia de comentários a propósito de uma provocação ontem aqui depositada. Não, não estava a brincar. Era a sério. Os grupos parlamentares do PSD e do PP são uma desgraça: não têm nem piada nem estofo, reproduzindo aquela mediania envergonhada que faz dos portugueses um povo quase invisível. Com todo o respeito que as pessoas me inspiram, há que afirmá-lo sem rebuço: com aquelas potestades - cujo único mérito parece ser a assiduidade - não se fará coisa alguma. Lembrei-me. E se em vez dos deputados Ferreira, Silva e Pereira, suplentes na quarta e quinta filas, cujo grande mistério reside na quase certa ausência de aparelho fonador, lá estivesse, de montante em riste, o Portugal dos Pequeninos ?


16 maio 2007

Penúria da classe política e riqueza de bloggers

E se Paulo Portas e Marques Mendes, ao invés de persistirem nos estafados peões dos estábulos do Caldas e de São Caetano - as mesmas caras, gárgulas, carantonhas e caricaturas de sempre, de mediocridade aterradora, miserável aptidão técnica, inexistente vida interior - procedessem a uma revisão do critério de selecção de candidatos a eleger nas listas dos respectivos partidos, substituindo seguidismo, caciquismo e intriguismo por gente de outra casta, com desenvoltura, capacidade interventiva e elevada preparação ? E os grupos parlamentares do PSD e do PP, mais pivots televisivos, assessores técnicos e demais oficialagem partidista, não teriam outra visibilidade, não brilhariam e alterariam a atmosfera de S. Bento se dotados de gente ousada, incisiva, disposta a acesas batalhas parlamentares ? Eu conheço a fórmula. Dr.'s Marques Mendes e Paulo Portas: integrem as equipas do Corta-Fitas e do Insurgente, mais o Jansenista, Je Maintiendrai , o Pasquim da Reacção e o Professor Maltez nas listas de deputados para a próxima legislatura e terão em perspectiva uma revolução na tépida e sensaborona vidinha que leva aquele parlamento. Deixem que a inteligência, a intrepidez e o desassombro arrombem as portas daquela casa; que homens com obra e ideias varram os preceitozinhos, refundem o centro e as direitas, conquistem os portugueses com o verbo firme, as ideias claras e a absoluta liberdade que os caracteriza.
Nunca, como hoje, foi tão rica e diversa a direita portuguesa: desempoeirada, lida, informada, jovem e resoluta. Deixar perder esta oportunidade de ouro é uma falha; derei mesmo, é um crime.

Cidades assassinadas (1): Varsóvia



Richard Addinsell: Concerto de Varsóvia (1941)
Compreendo, não aprovando, o cepticismo radical de muitos polacos a respeito da União Europeia. Vítima das partilhas de Frederico e Catarina, enganada pelo Corso, campo de batalha entre russos e alemães, invadida, espezinhada e humilhada pelos nazis - que tinham o topete de os considerar um povo inferior, logo tratados como aborígenes, tasmanes ou hotentotes - e, finalmente, carbonizada em 1944, a Polónia e, sobretudo, a sua capital, reflectem os cataclismos do século XX. Varsóvia foi vandalizada a extremos que só Cartago sofreu: ali não houve piedade por museus, bibliotecas, igrejas, palácios e palacetes, jardins, escolas e mercados. Foi tudo terraplanado. Em 1939, coube a proeza demolidora aos Stukas, em 1943 aos SS, em 1944 ao exército alemão. Depois, chegaram os comunistas e os seus mamarrachos estalinistas. Reconstrui-se, fingindo a traça original, mas tudo soa a postiço. Uma capital assassinada nunca volta a ser a mesma após o estupro.

15 maio 2007

Varsóvia em Luanda

Trata-se, quiçá, juntamente com o regime do Homo Mugabensis, de uma das mais sórdidas expressões de brutalidade, venalidade e incompetência de que há registo no mundo contemporâneo. Falo, é claro, dessa brilhante cleptocracia que dá pelo nome de República de Angola, propriedade de Eduardo dos Santos e capangas. O despejo inopinado de 30.000 pessoas repete análogo feito ocorrido há dois anos no Zimbabwe: tropa de choque irrompendo pelos bairros de caniço, violência indiscriminada, os mesmos 20 minutos que o general Stroop dava aos desgraçados do ghetto de Varsóvia antes de lançar os mastins e os kapos ucranianos, bastonadas e espancamentos, pessoas esmagadas no tropel da fuga, crianças separadas dos pais, idosos atirados como gado para camiões, tiros de intimidação. Aqui das Necessidades, nem um piu. O que dizer ? Nada, trata-se de assunto interno de um país-irmão. Ao que chegámos: por uns centos de botas em segunda mão e uns barris de vinho a martelo exportados desaparece-nos a dignidade e fingimos que nada vemos. Somos uns hipócritas.

Molestar e maltratar crianças


O tema enoja-me e finjo que nem existe. O facto de um adulto se interessar sexualmente por crianças é um duplo mistério: mistério por constituir uma violação elementar da simpatia natural que as crianças nos inspiram, sentimento que dita protecção, respeito e responsabilidade por esses seres que iluminam com ingenuidade cativante o mundo pardo, tortuoso e medíocre dos adultos; mistério por encobrir facetas primitivas do ser humano, insusceptíveis de aprimoramento. O folhetim Madeleine mostra à saciedade os mais reservados prognósticos a respeito das cavernas que habitam muitos adultos, reforçando a nossa convicção do carácter perverso da estirpe humana. Neste particular sou, cada vez mais, de um pessimismo antropológico absoluto. Contudo, no seriado infindo de maldades cometidas contra crianças, cuja revelação tem pontificado no noticiário português ao longo dos últimos anos - com muito moralismo hipócrita à mistura - retenho algumas notas:


1 - A pedofilia acontece, sobretudo, na tal "célula básica". Não me convencem os rodriguinhos do "instinto maternal" e dos "valores" infusos geneticamente quando somos confrontados com evidências como as da miúda que foi cortada às postas pela própria mãe depois de haver sido morta à bofetada pelo irmão da procriadora, com quem esta mantinha relações incestuosas. Não me convencem pais que drogam as crianças às seis da tarde por forma a garantir escapadelas nocturas para jogos de swing. A família - a mais violenta das instituições - acoberta, quase sempre, os casos mais arrepiantes. O combate à pedofilia deve começar pela maior transparência da família. Podem pais alcoólicos, toxicodependetes, prostitutas, cadastrados, violentos e outros ter a seu cargo crianças ? Não. Nesta matéria, sou absolutamente intervencionista. Há por aí milhões de homens e mulheres que poderiam ser pais muito mais dedicados e respeitadores da integridade física e psicológica das crianças que os progenitores. As crianças exigem tempo, amor, protecção e uma paciência de santo, por vezes. Ora, um número apreciável de adultos não possui equilíbrio psicológico, estofo altruísta e capacidade de dar que os habilite a ter crianças sob a sua alçada.



2 - A má prática, importada dos EUA, de difundir a ideia de uma conspiração pedófila universal constitui uma terrível pedagogia do medo. Eu gosto naturalmente de crianças, como qualquer adulto. Ora, gostar de crianças não envolve qualquer interesse sexual; pelo contrário, a alegria que as crianças nos proporcionam tem a ver com a enorme fonte de tropelias em que estas vivem imersas e pelo efeito contagiante e saudável de descompressão que provoca nos adultos . O universo infantil é, sem dúvida, o melhor analgésico para a "seriedade" em que nos afogamos. Dizia-me há dias uma amiga que já nem se aproxima de uma criança com receio de ser mal interpretada. Os pais vivem em histeria e insegurança constantes, insuflada pelo jornalismo de sarjeta e pelos moralões carregados de agenda política. Nos EUA até já é proibido a um professor chamar um/a aluno/a para uma conversa a sós. As portas têm de permaneceer abertas, sendo requerida a presença e um outro professor. Desta vaga demencial decorerrão futuros adultos desconfiados, receosos e incapazes de relações sociais equilibradas.


3 - Os adultos de hoje são os adultos de ontem, de anteontem e de sempre, assim como a sexualidade de hoje é, sem tirar nem por, estatística e funcionalmente, a que sempre foi desde as cavernas. Quanto mais se investir no medo e na sexualidade idealizada, maior o perigo de transgressão. Ou não foram a Idade Média, o século XVII e o puritanismo victoriano os períodos mais negros na ocultação da violência sexual ? Só quem nunca leu o poderá negar. Na Lisboa dos anos 20 havia prostitutas de 12 anos, na Madrid ultra-católica do século XVII havia um bordel em cada esquina ( vide Gregorio Maranõn, Conde Duque de Olivares: la passion de mandar), nas abadias medievais os noviços eram expostos a todo o tipo de depredações, na Inglaterra de Victória "civilização rimava com sifilização". A ideia de "decadência" só vale junto de quem nunca leu e comparou testemunhos literários. Ou não era na sociedade de bons pais de família que se levavam rapazes de 13 e 14 anos a lupanares ? Ou não era nessa sociedade de pais estremosos que grassavam o cancro mole, a blenorragia, os dentes encavalitados e a cegueira precoce ditados por infinda pedatura siflítica ?
Para escândalo de muitos, atrevo-me dizer: nunca se respeitaram tanto sexualmente as pessoas como hoje. Ora, a "educação sexual " - salta logo a terreiro um moralão de dedo em riste acusando esconder tal educação intuitos inconfessáveis - é um agente poderosíssimo de inculcação de direitos nas crianças. Em Portugal, tudo o que se relaciona com o sexo carrega terrores. O sexo, entre nós, continua a ser matéria invisível e é precisamente por isso que temos as maiores taxas europeias de gravidez juvenil, DST's e frustrados. Não se fala. O sexo destina-se às piadas sórdidas, ao chat na internet e às garatujas nas casa de banho públicas.



4 - A tribalização da culpa. Como outrora, ninguém quer assumir o que quer que seja. Um nacionalismo estreito vigora neste território proibido. Os britânicos tentaram por todos os meios inculpar portugueses pelo rapto da miúda, repetindo a velha história da sífilis - que era, para os franceses, o "mal italiano"; para os espanhóis, o "mal napolitano" e para os italianos "o mal espanhol" - esquecendo-se que a sexologia possui hoje instrumentos quase precisos sobre a transversalidade e universalidade estatística dos comportamentos sexuais. Há proporcionalmente tantos pedófilos britânicos como portugueses, pelo que haverá cinco vezes mais pedófilos no Reino Unido que em Portugal, dez vezes mais pedófilos na Índia que na Grã-Bretanha e 130 vezes mais pedófilos na China que em Portugal. O lobo mau, afinal, está em todo lado.
5 - A ideologização do sexo. Há cerca de um ano, os aterrorizados sexuais de todos os azimutes - à cabeça os puritanos do comunismo, o tal que tinha em Mao um entusiasta por meninas de 10 anos, mais Béria, que raptava, violava e mandava estrangular ninfetas nas ruas de Moscovo - zurziram forte e feio o Presidente Putin por este haver acariciado uma criança em plena Praça Vermelha. Ora, Putin, talvez de forma canhestra, fez o que qualquer adulto faz a uma criança: beijou-a em público. Olhando para os cães e gatos que temos em casa, o comportamento é o mesmo: um animal adulto, sempre que se acerca de uma cria - até um leão o faz com antílopes crias - contém a violência e exibe gestos protectores. Nos EUA, os bispos católicos inibem qualquer gesto carinhoso, com receio de retaliações mediáticas, após dois ou três escândalos que envolveram sacerdotes. Qualquer dia, até ao Papa será proibido beijar crianças em território dos EUA.

Príncipe encapuzado

As Afinidades Efectivas. Quem se esconde por detrás de tão boa prosa ? Tenho as minhas intuições...

14 maio 2007

Falta-nos espionagem e saltos altos

Soube hoje, pelo jornal, que a Espanha acaba de nos passar a perna nas relações culturais com o Brasil. Através do Santander "Portugal", todo o universitário brasileiro que aqui queira vir com uma bolsa de investigação candidatar-se-á às excelentes condições oferecvidas pelo banco espanhol. O que faz o Instituto Camões ? NADA.
Dizia-se nos EUA, antes da última grande guerra, que onde aportasse um vaso de guerra nipónico em visita de cortesia, havia jantar a bordo com todos os barbeiros e cabeleireiros da cidade, posto todos haverem sido colegas do comandante na Academia Imperial Naval de Hiroxima. Com isto se pretendia dizer que o serviço de espionagem japonês estava em todo o lado colectando informações: dos bares de hotel aos jornais, das empresas aos serviços meteorológicos, das maisons closes aos confessionários. Não havia cidadezinha na costa Leste, no Havaí, na Malaia, Filipinas ou Insulíndia onde não existisse uma casa de hóspedes, uma oficina de reparação de automóveis, uma alfaiataria ou uma lavandaria propriedade de súbditos do Sol Nascente. Levando a coisa a extremos, dir-se-ia que os japoneses sabiam mais a respeito dos hábitos, fraquezas e dificuldades de Mr. Smith e de Miss Jones que os governos de Sua Majestade ou os esbirros do Himmler norte-americano, Edgar J. Hoover. Espionagem e propaganda são instrumentos preciosos da actividade diplomática, só não as usando quem teima em confundir relações externas com a frivolidade dos jantares, almoços e sundown.



A diplomacia portuguesa parece amarrada à ilusão das embaixadas preguiçosas. Para além de extremamente dispendiosas, as embaixadas não só se fixam na rotina burocrática, como evitam desenvolver lóbi português e favorecer a iniciativa nacional extra-fronteiras. Tal complexo inibidor permitiu que, ao longo das últimas duas décadas, fossemos perdendo para franceses, espanhóis e brasileiros - e agora para chineses - parte importante da influência que detiveramos na África lusófona, na África do Sul e no sudeste-asiático. Até no Canadá, EUA e Venezuela, o lóbi português é fraco, não havendo, que eu saiba, qualquer concertação permanente entre o MNE e as comunidades portuguesas. Portugal faz por não existir na cena internacional. De facto, para além de Figo e Ronaldo, Portugal é, para a generalidade dos habitantes do globo, uma província de Espanha ou um país norte-africano. Falta-nos acutilância, falta-nos saltos altos que marcam a presença de Espanha nas sete partidas do mundo. Temos ainda mais vergonha que penúria de meios. Isto paga-se caro. Continuamos, neste particular, agarrados à invisibilidade pudibunda.

Fé menina



Handel, Largo de Xerxes

Aquela multidão a perder de vista não pode deixar ninguém indiferente. Ano após ano, a mesma impressionante moldura humana contrariando os tropos da descrença e da descristianização instaladas, espantando os sorridentes e ufanos sociólogos das estafadíssimas teses da alienação - porventura os mesmos que iam em romagem a Moscovo depositar um molho de cravos aos pés de Lenine - e lembrando aos incréus como eu que o homem é um animal religioso. Aquela gente acredita genuinamente nas aparições da Mãe do Céu, devota-lhe um amor sentido, consagra-lhe os maiores sacrifícios, promete-lhe tudo pela recuperação de um ente amado, pelo cancro que mina o organismo, pelo emprego perdido, pelo filho que partiu para a emigração, pela terra que não produz, pelo amor que não voltou. Respeito-os e quase me comovo perante a solene grandeza que se instala. Ali não há diferenças e diferendos, apagam-se as pequenas vaidades e as grandes teimosias; dir-se-ia que nesse terreiro iluminado pelas velas, a humanidade patética e mesquinha se transfigura e ascende. Calo-me e não deixo de sentir uma pontinha de remorso por haver há muito perdido esse dom que dá sentido a tantas vidas.

13 maio 2007

O Catilinário

Um excelente blogue. Penitencio-me por só hoje o haver lido. Recomendo vivamente.

Mobbing


É uma prática bem portuguesa, ao contrário do que muitos poderão pensar. Aqui não se mata ninguém no Forum; as pessoas são "desaparecidas" por processos mágicos. Deixam de ser convidadas; depois, deixam de ser referidas, não aparecem nas reuniões, corta-se-lhes uma fatia do salário, depois outra e, finalmente, desaparecem. Um dos mais praticados processos de destruição de identidade pública leva, sintomaticamente, um designativo que poucos conseguirão identificar: mobbing.



Sei do que falo. Fizeram-me o mesmo por três ou quatro vezes: num jornal para onde fui ocupar funções de director-adjunto e do qual, depois de o haver servido sem remuneração - ah, como era um bom escoteiro nessa altura - recebi os tratos de polé mais indignos; numa universidade que servi exemplarmente, à qual entreguei, pronta para facturar, uma pós-graduação com todos os apetrechos requeridos, mais uma biblioteca cumprindo todos os requisitos exigidos por lei; numa empresa privada, onde reorganizei todos os processos de recuperação de dívidas mal paradas, as quais, logo que ressarcidas, me valeram um convite para funções inferiores, com salário inferior e tudo; por último, em funções superiores de direcção no Estado, ganhas em concurso público face a concorrentes que antecipadamente haviam recebido garantias de sucesso.


O mobbing é uma prática complexa, tão complexa que raramente se conseguem reunir provas que confirmem a sua existência; daí que seja um dos expedientes mais usados num país onde a cobardia prevalece. Meias-palavras, uns pós de intriga, uma pitada de difamação, muita invejazinha, medíocres e tolos à mistura e, pronto, uma vítima isolada, denegrida, intimidada e "desaparecida". Este processo campeia nos ministérios, nas universidades, nas câmaras, nas empresas públicas e privadas. Praticam-na, sobretudo, os desclassificados trabalhando em rede, os tolos ciosos das suas quintas e campanários, os descerebrados e incapazes aterrados pela perspectiva de se baterem contra homens (e mulheres) dotados de coluna vertebral, princípios e capacidade de realização.


Se atentarmos, o mobbing não se realiza apenas contra pessoas singulares: há-o contra grupos, empresas, partidos cuja existência pode, de algum modo, diminuir a eficácia de uma sociedade fundada no faz-de-conta. Um dos mais bem sucedidos processos de mobbing estriba-se no imenso arsenal de possibilidades que o ridículo apresenta. Rir-se de uma pessoa/grupo, contar anedotas, deixar um rasto de suspeições, troçar de um corte de cabelo, de uma característica da indumentária, do sotaque, da forma de andar são, acreditem-me, bem mais eficazes que rebater princípios. Posso dar-vos cinco exemplos, que estimo bem sucedidos, de vítimas do mobbing português: D. Duarte de Bragança, Alberto João Jardim, a Igreja Católica, os empresários e a função pública. Escolho-os arbitrariamente, posto que não são, na parte que não no todo, objecto da minha simpatia especial. Contra eles exerce-se mobbing activo, permanente e tão impiedoso que se acabou por fundir com essas personalidades, com aquela instituição e com aquelas ocupações. Pensemos, pensemos, e logo nos surgirão dezenas de outros casos análogos de mobbing, surgidos do prodigioso alfobre de canalhices de que é capaz este povo que se esgota na arte maior de serrar pernas, destruir pedestais e ostracizar da Cidade aqueles que a poderiam ajudar a sair da mansa mediocridade em que vive inebriada.
Considero-me um homem forte, resistente às provações e capaz de arrostar lutas prolongadas e até sangrentas. Para além disso, como tenho alguns meios materiais que me isentam de prestar vassalagem a quem quer que seja, sacudo tentativas de mobbing e saio a terreiro, de espada em riste e vocabulário solto, sempre que um qualquer bandido se atreve recorrer a tal manobra. Contudo, sei de muitos que não resistem. É deveras triste assistir ao infame espectáculo das matilhas despedaçando um pobre escolhido como alvo de mobbing.
Ontem encontrei um velho conhecido, homem probo, respeitador, esforçado e, para mais, de uma inocência que perdi há muito. Disse-me, envergonhado, quase que desculpando-se, que perdera o emprego. Fiquei surpreendido, pois tenho-o como alguém capaz de ultrapassar em dedicação ao trabalho a generalidade dos outros bípedes. Mas logo, implacável e nua, caíu a razão: "trabalhei para eles durante dez anos, mas logo que terminei o doutoramento senti que tudo se havia conjugado para me perder". Apertei-lhe a mão e vi-o, vergado, quase velho, afastar-se com passo curto, encostado às paredes. Disse para os meus botões: outra vítima do mobbing ! Que terra notável esta, que "defeitos os tem todos, só lhe faltando as qualidades" (Almada).