04 maio 2007

Galeão de Manila assaltado em pleno mar

Um forte ataque de Sir Francis Drake a um comboio sem escolta. O ibérico não resiste, por ora, pois está de cama, com picos de 39 graus da febre das sezões. Fica a promessa. Recolho ao porto para reunir forças e atacar o nobre corsário.

03 maio 2007

O bom oportunismo político e o mau ideologismo


O debate político é exterior à filosofia política; a acção política é indiferente ao rigor ideológico. Neste particular, o estreito ideologismo do século XIX - o tal que levou às grandes tragédias do século XX - esvaziou-se. Entre ir a um templo ou deixar-se deslumbrar por uma religião política, é preferível optar pelo templo/sinagoga/mesquita/igreja. As religiões políticas não resistem à atmosfera temporal, sofrem de acelerada caducidade e com o passar das décadas deixam de inspirar fé, paixão, ódio e motivação. Como lembrou Steiner, há hoje um pouco por toda a parte uma nostalgia do absoluto, desse tempo sem tempo que ligava o imaginário dos homens ao primeiro momento: a revelação de Javé a Moisés, a pregação de Cristo, a iluminação de Maomé.


Depois, as religiões reveladas sofreram fortes abalos causados pela impugnação hermenêutica e historiográfica, pelo comparatismo e pela semiologia Eis que vieram os ideólogos, cheios de clareza, sistemas fechados mas coerentes, de uma coerência tal que a curto prazo se viram literalmente ultrapassados, desautorizados e excomungados pela ciência. Marx não publicou os últimos textos sobre materialismo, pois sabia encontrarem-se feridos de morte pelas descobertas entretanto surgidas no domínio da Física. As loucuras destemperadas do "racismo científico" eram, ao tempo em que ganharam relevância ideológica, verdadeiras abominações contra a ciência: a biologia, a citologia, a genética, a antropologia física rebateram uma a uma as convicções racistas.


De súbito, com o racismo ideológico fora de campo, com o marxismo transformado em preciosidade museológica, com o "pensamento social-cristão" marcado e datado, com o "tradicionalismo" revelado como um mito de uma medievalidade jamais comprovada, tudo desabou. As direitas ficaram orfãs, as esquerdas nuas e o centro cresceu. O surgimento dessa nebulosa invertebrada que dá pelo nome de Centro é consequência do afundamento generalizado da certeza. O ocaso das ideologias políticas e do doutrinalismo, lembrados por Uscatescu e por Daniel Bell, abriu portas à tão abominada "tecnocracia". Para o homem comum, importa mais aferir os resultados de uma boa governação - a que provê pão, trabalho, segurança e felicidade - que derimir sobre a fundamentação anterior - eu diria exterior e inaplicável - daquilo que anima a acção governativa. Há um bom-senso - talvez a única característica palpável nas pessoas - que as leva sem grandes razoamentos a escolher entre o bem e o mal, e escolher sempre entre o mal-menor face ao mal. Ora, a política com ideias mas sem ideologia (e até sem doutrina) não nos parece flagelo maior, conquanto - e cá está o bom-senso - não se coloque em causa nenhum dos pilares da vida colectiva: a nação, a liberdade da sociedade, as liberdades de todos e de cada um.


Paulo Portas criou escândalo ao afirmar que o novo PP não se deixaria submeter ao rigorismo ideológico. Fez bem. Eu diria que encontrou a solução. Não se deixar escravizar pela ideologia, não se submeter em absoluto a um suposto incorruptível doutrinalismo, não quer dizer que se flutue ao sabor dos acontecimentos. Pelo contrário, a acção política mais séria e a mais verdadeira depende do sentido de oportunidade e perícia dos líderes. Que eles atentem ao interesse daquilo que não podem discutir nem alienar - a nação, a sociedade, os portugueses - é tudo quanto lhes devemos entregar. Tudo o mais, que fique para as estantes das bibliotecas particulares e para a fruição dos entusiastas da Filosofia.

02 maio 2007

"Capitalismo selvagem" e "capital explorador"


Não, já não vivemos sob a férula dos industriais de Manchester, dessa Inglaterra negra da fuligem do carvão, das crianças descalças e andrajosas acorrentadas à servidão do tear, da vagoneta das minas ou submetidas à palmatória do patrão predador. Tudo isso são contos de Ricardo, Marx e Charles Dickens, mas escamoteiam uma grande conquista: o take off da industrialização permitiu que os servos se libertassem, ditou o fim das corporoações de ofícios que acorrentavam o trabalhador para a vida e erradicou a escravatura. A prosa [poética] e outros escritos socialistas fixaram um momento e não atentaram nas consequências dessa dolorosa passagem da economia fundada na terra ou na fabriqueta para o mercado global que o capitalismo partejou.


O capitalismo libertou da fome geracional milhões de homens, deu-lhes oportunidades de ascensão e mobilidade jamais vistas na história social, facultou-lhes dignidade, abriu-lhes as portas do ensino e premiou o mérito. Ao invés, tudo o que se lhe opõe favorece a dependência e a infantilização, a protecção e aquela ilusão aconchegante que caracterizava a relação entre senhores e servos. A nova servidão, estatista, proteccionista, interventiva e reguladora, produziu comunidades abúlicas, incapazes de arrostar desafios e impossibilitadas de concorrer. Ontem ouvi uma, duas, três e mais desabafos contra o "capitalismo selvagem", o "capital explorador" e outros rodriguinhos de um socialismo rançoso bem datado no espaço e no tempo. Em vez de aceitarem o modelo económico que foi o agente da libertação do trabalho, culpam-no pelos males colaterais. Em vez de exaltarem o papel decisivo que o capitalismo atribui aos agentes económicos - que são todos os homens - identificam essa libertação e o triunfo do engenho e da iniciativa como uma afronta.


O "capitalismo selvagem" não existe. O que existe, sim, é o ódio e o recalcamento de quem, não arriscando, recusando a liberdade que o capitalismo proporciona, gostaria de ver as sociedades submetidas ao industrialismo sem benefícios, uma espécie de feudalismo tecnologicamente avançado ao serviço do Estado, sem manteiga mas muitos canhões. O capitalismo é factor de libertação. Sem ele, aqueles que tanto o insultam, estariam atrelados a uma charrua ou aos maus tratos de um mestre de ofícios, tirânico e possessivo. O capitalismo trouxe a semana dos cinco dias de trabalho, as férias grandes e pequenas, as viagens, as pensões e seguros de trabalho, a casa própria, o acesso aos bens culturais e ao ócio, libertando os trabalhadores da luta pelo pão, que hoje se trava pela posse do computador, do automóvel, das férias no Brasil ou do colégio para os filhos. Nunca em momento algum da história tantos viveram tão bem e tão felizes. Até no chamado mundo subdesenvolvido, assim que as economias se abrem ao toque de Midas do capitalismo, surgem como tortulhos homens bem sucedidos, confiantes e empreendedores.


Schumpeter, no clássico Capitalismo, Socialismo e Democracia, escrito em 1942, antevia o fim do capitalismo, cujo comportamento lhe lembrava um processo de destruição criativa produzida de dentro de um sistema em permanente instabilidade e incapaz de se deter numa infrene dialéctica. Sendo um libelo, a obra identifica com precisão cirúrgica os inimigos do capitalismo: todos aqueles que receberam formação superior mas que, incapazes de triunfar, se dedicam à crítica ao capitalismo movidos pelo ressentimento. Ora, as mais das vezes, sindicalistas, líderes políticos e demais chefes de fila do anti-capitalismo transportam o azedume e a inveja dos fracassados. "Se eles detêm o capital, por que razão falhei ? ". Estão os socialistas para o modelo económico como os terroristas anarquistas de finais do século XIX: "se não consigo conquistar o mundo, pego-lhe fogo".

30 abril 2007

Quando os príncipes empunham a espada

A superioridade da instituição monárquica evidencia-se na forma como os seus titulares se submetem às exigências comuns da cidadania, mas, sobretudo, pela exemplaridade que sobre eles impende. A um príncipe não são diagnosticados pé chato, miopia, distúrbios neurológicos, falta de acuidade auditiva, nem tão pouco podem fugir às responsabilidades castrenses invocando objecção de consciência, estudos universitários, emigrar ou invocar funções profissionais que o dispensem do cumprimento do dever. Os monarcas e os príncipes são escravos das suas obrigações: uma vida regulada do acordar ao adormecer, um calendário oficial de 365 dias, receber e ouvir milhentas petições, despachar, presidir a centos de eventos e em todos mostrar a mesma solicitude, a mesma cortesia, o mesmo semblante. A monarquia é uma escola. Nela, as gerações sucedem-se, a prisão do dever inalterado. Quando chega o momento de empunhar o sabre, os jovens príncipes libertam-se dos paparazzi e passam a ter em cima dos ombros os olhos de todo o exército. Em combate, estão na linha da frente, não havendo notícia, nos velhos como nos novos tempos, de príncipe que tenha deslustrado a confiança das nações que servem. Assim foi no passado - quando o príncipe imperial Eugénio Napoleão caiu em combate, varejado pelas lanças Zulu -; assim foi em todos os teatros de operações da Grande Guerra e da Segunda Guerra Mundial; assim foi há vinte e cinco anos nas Falklands. Coube agora a vez a Harry. A monarquia tem esta tocante e inconfundível característica: exige sempre o melhor daqueles que a servem. Antes fossemos todos como os príncipes.


Goodnigth, wherever You are (Mary Martin)