14 abril 2007

Câmara Municipal de Lisboa: ainda existe?


Lisboa transformou-se numa pocilga; dir-se-ia estar a sofrer dos efeitos da pandemia Carmona, com herança mal cicatrizada de décadas de vandalismo, abandono e estupro a que Aquilino Ribeiro Machado, Abecassis, Jorge Sampaio e Soares Mirim deitaram mãos com um entusiasmo quase suicida. Esta cidade é um monturo. Está feia, conspurcada e deformada por sucessivas edilidades de arranjistas, negociantes, especuladores e de gente que olhou sempre para negócios e lucros chorudos, facilitismos lóbistas e demais práticas contrárias ao bem-comum. Vazia e podre na Baixa, grafitada, insegura, cheia de mendigos, ladrões e traficantes, suja e esburacada, faz dó a quem por ela sente um pingo de respeito.



Ultimamente, precipitou-se no caos e na anomia. Já não há quem por ela responda, tantos são os processos-crime que impendem sobre os respeitáveis autarcas. O lixo que se acumula em caixotes, as paredes cobertas e recobertas por cartazes, as calçadas esventradas, os monumentos e edifícios de interesse histórico desfigurados, os prédios devolutos, aos centos, emparedados, os lagos e fontes secos, as árvores tentando morrer dignas, de pé, o caos rodoviário, as cabinas telefónicas destruídas, os jardins e parques quase moribundos, as zonas de recreio para as crianças praticamente calcinadas por vândalos, uma insegurança de nível sul-americano ou africano tolerada pelas autoridades, com uma prostituta e um meliante em cada esquina, um desgraçado expondo aleijões em cada quarteirão e verdadeiras matilhas de vendedores de bugingangas e angariadores de tolos para miríficos sorteios e brindes assaltando impunemente o pacato turista.



Carmona Rodrigues diz que veio para ficar. Se assim for, dentro de dois ou três anos estaremos a reclamar por luz eléctrica nas ruas, pela água canalizada e por grades em portas e janelas em todas as casas. Não sei o que o impele a tamanha cruzada pela cidade. Se os seus antecessores foram lastimáveis, Carmona é um flagelo. No dia em que abandonar os Paços do Conselho, abro uma garrafa de champanhe, do melhor.

O Coronel da Luftwaffe


Ontem jantei com um casal alemão. De passagem por Lisboa, com lembranças de velhos amigos da Renânia do Norte, o Coronel Norbert X foi amabilíssimo. Combinámos às 8.30 horas e cá veio ter às 8.29. Ele é oficial superior da Força Aérea alemã, ela professora de História numa escola secundária. Conversa amena: as belezas de Lisboa, a boa comida, o bom vinho. Pois, precisamente quando o vinho dominou o bom coronel Norbert começaram as cançonetas, depois as piadas e, por último, a política: reivindicações territoriais, as "nossas" províncias ocidentais da Polónia, uma parte da República Checa que nos "roubaram", um distrito da Dinamarca, uma talhada da Holanda, uma kleine fatia da Bélgica, o Luxemburgo, o Tirol do Sul - que em Itália até se chama Alto Adige - e, talvez, umas partes da Roménia, da Eslovénia e, quiçá da Lituânia, " sehr interessantes Land". Ao sair, Viele Grüssen e um enigmático: "que pena Portugal ser tão longe da Alemanha". Retorqui: "mein Oberst, wir sind keine Deutsche/ meu coronel, nós não somos alemães". Resposta: macht nichts, Sie sprechen deutsch/não interessa, Você fala alemão". Até tremi.

FA-BU-LO-SO


A conspiração dos "assassinos" Cavaco, Sampaio, Sócrates e Barroso no Idolátrica. Uma das melhores peças non-sense que já me foi dado ver. Pagava para entrevistar a senhora. Nem Chesterton se lembraria duma rábula como esta.

13 abril 2007

Os meus filmes




Barry Lyndon, de Kubrik. Marcha Hohenfriedberger dos exércitos de Frederico II da Prússia. No tempo em que o inimigo suplicava: Messieurs les Anglais, tirez les premiers!

Primis lettere: a vida é a aventura


Ontem entretive-me com uma viagem no tempo. Sem espaço para velhos papeis pintados com tinta, como lhes chamava Pessoa, mas sem coragem para os deitar ao lixo ou dá-los a um alfarrabista, resolvi empacotar os meus velhos livros de aventuras. Salgari, Mayer, Verne e demais ícones para sucessivas gerações aguardavam há anos o afago de uma mão, queixando-se silenciosamente pelo cruel abandono a que haviam sido condenados por tão ingrato amo. Eles foram tudo para mim, abriram-me o gosto por esse universo mudo que, transposto, me permitiu viajar, fantasiar, sonhar acordado e fugir à absurda mediocridade com que vamos arrastando a nossa vidinha. Neles, deitado de barriga para baixo no sofá, comendo uma sandwich de manteiga com toneladas de açúcar que o criado Augusto trazia cada meia hora, fui o Tigre de Mompracen, fui Nemo e Fumanchu, o Corsário Negro e Axel a caminho dos interstícios da Terra.


Depois deles, a vida tornou-se menos heróica, mesmo que alimentada pela "verdadeira literatura", também aventurosa, de Novalis (Heinrich von Ofterdingen), Conrad (Coração nas Trevas, The Rover), Joseph Roth (Die Flucht ohne Ende), a terrível Yourcenar, que me enfeitiçou por Roma, o crapuloso Malraux - traficante de obras de arte e falso soldado - o poseur Hemingway, essa terrível forças das profundidades que foi Ernst Jünger e outros tantos afamados, nomeados e galardoados. Mas, confesso, nunca nenhum deles teve impacto tão grande sobre a minha imaginação como o pobre Salgari, que viveu paredes-meias com a miséria, se enforcou por dívidas e nunca teve meia dúzia de cobres para sair da sua terra-prisão. Aos 9, 10 anos, tudo está por realizar, tudo está por aprender. Ontem afaguei-os mas não ousei abrir uma só página amarelecida. Tive medo da decepção. É por isso que gosto de mentiras - não dessas mentiras dos burlões e dos falsários - mas das mentiras piedosas sem as quais nos reduzimos à caricatura que somos.

A Dona da Rádio

Miss Pearls soma e segue. Amanhã, sábado, no 104.3 (Rádio Clube Português), entre as 10 e a uma da tarde, Isabel comentará os jornais do dia na companhia de Eduardo Pitta e António Barreto. A blogosfera começa a ter apetites imperialistas. Neste caso, do bom imperialismo.

A mania do Portugal com 1,45 m: o discurso dos pequeninos


Sá Carneiro, Junho de 1974

Com o exemplo ainda fresco da Argélia !


Soares numa performance genial. No comments... (Julho de 1974)

12 abril 2007

Falésias desafiantes


Vera Lynn: White Cliffs of Dover

Um monumento ao colectivismo: a "comprativa"


Não percam esta aula de teoria económica marxista na NOVA FLORESTA.

11 abril 2007

Uma questão de carácter


D. Carlos I, que conhecia como ninguém os portugueses, concedeu em Novembro de 1907 uma entrevista a Joseph Gaultier, do parisiense Le Temps. Questionado a respeito da nomeação de João Franco para Primeiro-Ministro, limitou-se responder: "dá-me, como Primeiro-Ministro, garantias de carácter". É tudo ! Hoje só me apetece dizer, como o outro: "mon pays me fait mal". Não sei se se trata de um mitómano, de um burlão ou de um desgraçado, mas se eu fosse Presidente da República demitia-o esta noite, sem apelo nem agravo. Sinto-me defraudado e enganado. Sinto verdadeira revolta pelo estado a que tudo isto chegou. Isto é, verdadeiramente, um enclave de sub-desenvolvimento no seio da Europa.

10 abril 2007

Em 16 anos de república, o único homem que se portou com honra

O "Soldado Milhões", instrumento da propaganda republicana para salvar a honra de um Exército desbaratado e abandonado à fome e aos piolhos pela República do Terreiro do Paço.
(foto colecção Ângela Castelo-Branco)

Ainda La Lys


Alguns confrades revoltaram-se pelo tom, que estimaram arrogante e desdenhoso, de um texto aqui depositado ontem a propósito da efeméride do dia. La Lys não foi uma batalha, foi um massacre. Disse-o e repito-o, pois não obstante o martirológio - que o houve - não dignificou em nada o prestígio de Portugal no conflito. A nossa participação na Grande Guerra foi um desastre - desastre humano, desastre económico, desastre logístico e militar - e só não foi diplomático porque permitiu fazer sentar em Versalhes um representante do governo português, muito embora tivessemos sido relegados para uma posição secundária, ao lado da China, do Sião, da Grécia, Cuba, Nicarágua, Costa Rica, Equador e Guatemala. O desastre militar foi-o na Europa como em África. O nosso exército ficou em tiras, não alcançou uma só vitória, pelo que, no conjunto, essa guerra é para esquecer. Para além de Ludendorff (vide Meine Kriegserinnerungen 1914-1918, Berlin : Mittler, 1941), que nos fez reparos de sincera simpatia, não há qualquer elogio nas memórias deixadas pelos comandantes Aliados (Joffre, Foch, Nivelle, Haig, Jellicoe). Consultando a propaganda de guerra, os centos de cartazes exibindo as bandeiras dos Aliados, a nossa surge de quando em vez, menos que as do Montenegro e da Grécia.


O que ficou dessa participação foram as memórias e correspondência de importantes homens das letras e das artes, que pintaram aquilo que gostariam ter sido uma participação gloriosa, mas que o não foi. Quando há anos, na Biblioteca Nacional de Paris, procedi à consulta de documentação respeitante à presença de forças portuguesas em França, chamou-me a atenção o facto de não haver nas centenas de títulos, jornais e revistas da época, qualquer menção a Portugal e o CEP (Corpo Expedicionário Português). Na abundante iconografia disponível, os "serranos" pouco aparecem. Até a matança de 9 e 10 de Abril (La Lys e Lacouture) não despertou grande comoção na imprensa, dado enquadrar-se no conjunto de uma vasta ofensiva alemã que empurrou dezenas de divisões aliadas para uma retirada que só terminaria nos arrabaldes de Paris. Por cá, os jornais, submetidos à censura de guerra, demoraram dias a preparar a opinião pública. Com o estrondo das intermináveis listagens, nasceram lendas compensatórias, uma delas a do Soldado Milhões, porventura dos poucos que dispararam naquele dia. As baixas alemãs, habitualmente elevadas em arremetidas contra trincheiras, foram insignificantes. Ora, tais assaltos eram desferidos por Sturmtruppen, unidades de choque com alta preparação e habituadas a baixas muito significativas. Em La Lys, os assaltantes só encontraram uma paisagem lunar, mortos, estropiados e muitos, muitos prisioneiros ainda traumatizados pela preparação de artilharia. A nossa [artilharia] nem respondeu.


Ao contrário do que diz o nosso caro Jansenista, a outra grande guerra europeia em que nos vimos envolvidos - as Guerras Napoleónicas - não deslustrou o prestígio português, antes pelo contrário. A atestá-lo, a observação de Wellington quando, em Londres, se soube do regresso de Napoleão a França, fugido de Elba. O grande comandante britânico, cujas vitórias na Península se deveram aos 80.000 soldados portugueses sob o seu comando (Wellington dispunha apenas de 20.000 militares britânicos nessa campanha) afirmou: "tragam-me os portugueses para a grande batalha com Napoleão". Só não estivemos em Waterloo por impossibilidade de fazer chegar a Portugal uma frota que transportasse um exército de primeira categoria, enquadrado, é certo, por oficiais britânicos, mas uma força admirada pelos sempre parcos em elogios britânicos e franceses. Custa-me contradizer o mito. O mito faz parte do nosso amor-próprio. O mito da Grande Guerra serviu para libertar o Exército da vergonha mas, sobretudo, para dar à república uma justificação que a salvasse aos olhos dos portugueses, pois pela obra interna há muito estava desacreditada.


Não deixa de ser curioso o facto de, em 1918, para o desfile da vitória celebrado em Londres, os britânicos terem ao lado do rei Jorge V, não o embaixador português, mas D. Manuel II. Os britânicos, exímios nas artes da diplomacia, mandavam um recado educado a Portugal: se a V. participação foi uma lástima, tal deveu-se ao regime que V. governa. Se a ninguém é lícito duvidar do sofrimento dos nossos soldados - como não o será para os italianos na 2ª Guerra Mundial - a questão deve ser colocada noutros termos: eram os governos português e italiano responsáveis pela sorte a que destinaram os seus jovens ?
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09 abril 2007

O poder por um canudo: eleições até ao Outono ?

Outros blogues, bem mais informados sobre as peripécias da vida política nacional, desbastaram abundantemente o assunto candente da actualidade, pelo que me limito a ler e aprender. Sobre o Doutor Roberto, sobre o Dr. Vara e outras importantes figuras já tudo foi dito, redito e mostrado. Sobre Sócrates - que, repito, deve ser julgado pela governação e não pela posse de uma licenciatura - paira a expectativa. Julgo que o Primeiro Ministro não se devia envolver na questão, posto que esta reside numa outra dimensão que ultrapassa as suas competências. Se Sócrates nela interferir, depreendemos que acusa todas as insinuações e, se assim for, teremos eleições antecipadas até ao Outono. Como dizia o Cónego Remédios, não havia nechechidade.

9 de Abril: lembrar os portugueses atirados para o matadouro pela República


Passam hoje 89 anos sobre a "batalha" de La Lys, o maior desastre militar português desde Alcácer Quibir. A responsabilidade ? A república portuguesa, que ao contrário do que conta a lenda, não se envolveu no cataclismo para defender o Império, mas para ganhar o reconhecimento das potências. A Grã-Bretanha e a França tudo fizeram para evitar a entrada de Portugal na contenda, pois a abertura de hostilidades por parte de Portugal iria vulnerabilizar ainda mais a difícil situação Aliada na África Austral. La Lys não foi uma batalha, foi um massacre. Limitou-se a uma barragem de artilharia alemã e subsequente assalto a trincheiras coalhadas de mortos e mutilados. Os oficiais que não foram capturados fugiram como lebres, os sargentos idem, abandonando tudo num tropel que ofenderia para a eternidade o brio do Exército. Os sobreviventes - com o mitificado soldado milhões - ou se renderam, sendo bem tratados pelos alemães, que lhes renderam todas as honras, ou esgueiraram-se pela terra devastada, recolhendo à rectaguarda onde, até ao fim da guerra, fariam trabalhos sujos de faxina e vazamento de latrinas. O mito de La Lys é o que é. A república nunca se penitenciou dessa tremenda falta.

Mon Dieu


Edith Piaf: Mon Dieu

08 abril 2007

Estes iletrados que nos governam




Os grandes heróis políticos são, quase sempre, homens incultos que se fizeram respeitar pelo bastão. Alguns, sem nunca terem largado o chicote e a espada, quiseram que a posteridade os fizesse sentar ao lado de Platão, Aristóteles e outros caminhantes do espírito. O poder, esse grande afrodisíado, também tem o condão de comprar servos, edificar mitos e fazer perdurar mentiras que todos reverenciamos. O homem público, tão envolvido que está pelas solicitações menores e em permanente luta pela manutenção do que conquistou, não é, não pode ser, um homem de cultura; vive obcecado pelo dia de hoje, pela agenda e pelo transitório que sabe terminará abruptamente logo que a sua estrela se apague. Reis houve que eram homens de cultura, pois a sorte do nascimento, aliada a qualidades inatas, quis que num homem residissem o poder e a inteligência. Com o ocaso das monarquias, tornou-se claro que essa junção acidental entre poder e inteligência jamais se voltaria a verificar, ou, pelo menos, na ordem das probabilidades que haviam permitido uma Cristina da Suécia, um Frederico II da Prússia ou um D. Luís de Portugal.


O mundo moderno, ao invés de abrir portas à ascensão dos homens superiores, desterrou-os e tornou-os mesmo odiosos aos olhos de quem se impôs pelas artes verbais da mentira, do engano e da demagogia. O mundo moderno detesta o recolhimento e a meditação, pois estabelece-se sobre o atrevimento da opinião, que é, por natureza, o oposto da concentração do espírito. Os homens da política, por mais títulos académicos e obra que consigam reunir, são homens de acção e sedução, pelo que o estudo, o tempo longo do penoso amadurecimento, a dúvida e o recomeço lhes são de todo vedados. Se assim é, por que razão se continua a produzir torrencial bibliografia gabando inexistentes méritos a homens que já não oferecem as esmolas aos escrevinhadores que venderam as suas penas e talento para engrandecer tiranos e criaturas medíocres ? Ainda hoje, continuam-se a escrever centos de livros sobre Napoleão, imputando-lhe a paternidade do Código, peça angular do Direito contemporâneo. Gaba-se-lhe a inteligência como estratega mas, mais, a sua paixão pelas artes, pela música, pelas belas letras e pela ciência. O poder compra o presente, mas investe no futuro, fazendo fé na natural tendência dos homens em acreditar que tudo o que se lhes diz, sobretudo quando esculpido, pintado, versificado ou gravado na tinta negra das rotativas, é fiável.


A mentira biográfica não é intencional. Vai-se reproduzindo de pena em pena, de obra em obra, de autor para autor até se realizar a imaculada síntese entre a inverdade e a necessidade de informação. Talvez eu transporte uma centelha de loucura, se é verdade, como dizem os psiquiatras, que as casas para alienados estão cheias de admiradores de Napoleão. Dele li as mais diversas biografias: de Jacques Bainville, de Madelin, de Tarlé, de Lucas-Dubreton, Holland Rose e desse fantástico retratista que foi Emil Ludwig. Infelizmente, sempre deixei de parte as obras do memorialismo daqueles que com ele privaram. Li as hagiologias, não li os relatos dos criados. Há cerca de dois anos comprei as Memórias de Chaptal, insigne cientista que também foi ministro do Interior do déspota usurpador dos reis de França. Fiquei siderado. Tudo o que soubera do homem Napoleão era pura propaganda e o tirano rira-se de mim durante anos.




Foi com esta abracadabrante descoberta que passei a duvidar, em absoluto, do mito do homem de cultura e pensamento que algumas figuras da nossa vida política - lembro-me, à cabeça, de um venerando Pai da Pátria, ainda vivo - quiseram reproduzir à escala portuguesa. Se Mitterrand, um vulgar facínora, foi um émulo dessa tradição napoleónica, ainda se compreende. Agora, ver no venerando Pai da Pátria uma reedição de Napoleão, é coisa para verdadeiros e empedernidos crentes.