07 abril 2007

Anonimato e triunfo da blogosfera


Li com a maior atenção um oportuno post debitado pelo amigo Corta-Fitas a propósito de um texto saído na edição de hoje de O Público. A blogosfera está em expansão, abrindo brechas na até ontem venerada imprensa de papel. Ainda há dois ou três anos, os jornais eram uma fonte de informação, um oráculo certificador e um contra-poder. Até que chegaram os blogues. Onde se julgava residir a plenitude da opinião que se respeita, a notícia veraz, a informação limpa, a pluralidade possível, desvelou-se a prostituição, o mercenarismo, a auto-censura, a manipulação e a desinformação. Desde esse momento terrível em que muitos se sentiram perante um imenso logro, os tigres de papel entraram em lenta como patética desagregação. Foi como se nos viessem demonstrar que, afinal, o deus a que prestávamos homenagem não passava de um ídolo sem préstimo.


A blogosfera veio demonstrar que a inteligência, a formação e a superioridade sobrelevam a publicidade, o cartel, o clube e o favor. As penas que a blogosfera nacional revelou esmagam knockout aquele jornalismo pequenino, estipendiado, amedrontado e vassalo que inundava as páginas dos grandes, médios e pequenos jornais que cobrem as bancas: é gratuito, é frontal, é estereoscópico e antecipa-se aos cozinhados das redacções. A prová-lo, o facto de muitos bons jornalistas desenvolverem actividade na blogosfera, sem censura e sem o nihil obstat de chefias venais e analfabetas que submetem a informação oficial à ditadura do Papagei Wissenschaft.


É evidente que a blogosfera revelou o melhor, mas trouxe, também, do pior: a canalhice, o rebotalho, a provocação medíocre, o odiozinho reles, a difamação, a porcaria e toda a sorte de doentes neuróticos e seres imundos que nela vazam traumas, recalcamentos e fúrias. Mas, como em tudo, o que é mau acaba por desaparecer. Cotejo meia centena de blogues que se apresentavam nús e imundos e sorrio quando constato que sobrevivem dois ou três, com um público ridiculamente pequeno, sem eco e sem interesse. Aqui funciona tudo como no mercado: o lixo acaba por ser repelido, as marcas certificadas passam a cânone de qualidade.


A última barreira a vencer é o anonimato. Compreendo que muitos queiram manter o recato e evitem a exposição, porquanto vivemos numa terra que se especializou como nenhuma outra nas artes das inquisições, das policias políticas e das vinganças servidas a frio. Num meio medíocre e invejoso como o português, boas cabeças há que no anonimato se sentem libertas, brincalhonas e até menos expostas à certificação científica. Não é necessário lembrá-las para fazer tese desta impressão. Contudo, esses anónimos são Senhores Anónimos, como o são Senhores no exercício das actividades profissionais a que se dedicam com autoridade e reconhecimento público. Não falo desses anónimos, mas dos "outros". É precisamente por isso que não abro Combustões a comentários dos valentes do teclado. Se um dia se nos impuserem o registo obrigatório da titularidade de um blogue, continuarei a dizer e escrever o que sempre escrevi. Lamento que os grandes anónimos tenham de fazer a escolha; gargalharei perante a escolha certa dos "outros". Aos primeiros, abrirei as portas, permitindo-lhes a publicação dos seus textos, que assinarei por baixo. Aos outros, farei o que sempre fiz: desprezo absoluto.

06 abril 2007

Porque é que esta noite é diferente de todas as outras ?

Um dia mais, um dia a menos. Por tudo o que Ele pode representar, mesmo que Dele em nós pouco se possa ouvir mas, sobretudo, pela esperança que semeou entre os que nos deixaram com a convicção de haver algo maior a isto.


De Orfeu e Eurídice (Gluck): Que faro senza Euridice ?

Balsemização.... NÃO !


O PSD propõe a total privatização da RTP. Se com isso querem alargar a ETAR em que se transformou a televisão comercial (futebol, telenovelas e demais iguarias para acicatar o mau gosto canalha), há que lutar com todos os argumentos para impedir tal crime.

No tempo dos folhetins radiofónicos



Marilyn Monroe: I Wanna be loved by You
Confesso que até hoje nunca tinha pegado num romance cor-de-rosa. Ou antes, tinha lido Camilo, Balzac e outros gigantes, mas nunca me atrevera pegar em Delly, Anne Golon e outros leprosos. Há um dia para tudo. Abri e não achei Cartland muito diferente de muito que nos é imposto como Literatura. Há preconceitos para tudo. Antes a Cartland que muito prémio literário !

Filmes que vi em miúdo: a premonição



Exodus (1960), de Otto Preminger. Vio-o em 1972, na Igreja da Polana, em Lourenço Marques. Mal sabia que dois anos depois estaria envolvido no êxodo que acompanhou o fim da África Portuguesa. O tema de Mancini, também interpretado por Piaf, é um hino de dor pela pátria perdida, mas um aceno de esperança à vista da nova terra de acolhimento. Só quem nunca perdeu a sua terra pode falar de ânimo leve em pogroms e perseguições étnicas; só quem nunca sofreu a humilhação de perder a sua terra pode advogar tais engenharias demográficas. Conheci um dia um judeu cuja família saíra in extremis da Polónia em 1939. Falava das árvores, das ruas, das casas e até dos animais de estimação que lá deixara. Anos depois, na Alemanha, travei amizade com famílias alemãs expulsas das suas terras pelos selvagens de Estaline. A mesma nostalgia, o mesmo impulso para viver o tempo morto. A nós, refugiados de África, negaram-nos tudo, até a menção da nossa origem. Por precaução, aconselharam-nos a não proferir o nome de Moçambique. Mas a nossa pronúncia era diferente e em tempos gloriosos do PREC éramos, apenas, os "negreiros" e os "exploradores" expiando o crime horrendo de havermos sido os portugueses de África.

05 abril 2007

20% dos franceses afirmam-se monárquicos


É obra. Após duzentos e dezoito anos sobre o início da Revolução, uma sondagem encomendada pelo France Soir em Março passado indica que 20% dos franceses aceitariam o retorno da monarquia como solução para o aprofundamento da Europa, com a necessária salvaguarda da identidade nacional francesa mercê da existência de uma chefia de Estado hereditária e dinástica. Se bem que Ives-Marie Adeline não tenha conseguido as assinaturas suficientes para a apresentação da sua candidatura ao Eliseu - em França a recolha, bem bonapartista, faz-se no quadro dos hierarcas da república: maires e procuradores - o Partido Realista não pára e elabora listas para as eleições municipais de 2008.



O Partido Monárquico integra-se no conjunto de forças de direita ditas "eurocépticas" - Mouvement pour la France, de Philippe de Villiers e Front National, de Le Pen - mas não possui o cunho contra-revolucionário, tradicionalista, confessional e regionalista do primeiro, nem o populismo nacionalista do segundo. Integra-se numa direita orleanista, aceitando a monarquia constitucional, o sistema representativo partidário e a economia de mercado.

04 abril 2007

Filmes que vi em miúdo



Where Eagles Dare (1968), de Alistair Maclean.
Lembrando Richard Burton e Clint Eastwood tentando roubar o segredo da bomba atómica a Hitler.

Os Demóstenes que não temos


O português nunca foi uma língua pródiga em discursos. Se os temos, não cumprem os requisitos pedidos pelo Estagirita: não são lógicos, não são dialécticos, não são retóricos nem poéticos. Pondo de parte as grandes excepções - o Padre António, os irmãos Passos, António José de Almeida, Leonardo Coimbra e Rolão Preto - que conseguiam peças capazes de arrancar os mortos das campas, os nossos homens públicos são incapazes de reunir quatro palavras de improviso, muito menos arrancar uma saraivada de aplausos que não sejam comprados.



Confesso que gosto de uma boa discursata mão na anca, gesto teatral, mãos nervosas, voz altiva e olhar desafiante. As pessoas rendem-se, deixam-se prender e vê-se-lhes o brilho nos olhos por meia dúzia de banalidades bem ditas. Ao invés, entranha-se-lhes um cansaço de pés pesados quando deparam com um discurso escrito, correcto e carregado de erudição. É como no teatro: ninguém aceita um actor que carregue o texto. Soa a falso. É como numa missa lida; os circunstantes passam a olhar para a roupa dos outros, para a criancinha que guincha, o pó que não foi limpo, o pássaro que se perdeu e esvoaça dentro do templo.



Ninguém nasce com dotes de orador, mas exige-se que os homens públicos treinem o mínimo compatível com o ofício. Compreendo que Salazar não gostasse de improvisar. Não tinha voz e era um homem de gabinete. Porém, num regime parlamentar fundado na angariação de votos, aos políticos pede-se essa competência. Olhando para os últimos trinta e tal anos, fica-nos a sensação de vazio absoluto. Se pretendermos fazer uma antologia de discursos produzidos no actual regime, não ficou nada. De Soares restou o "olhe que não, olhe que não", de Sá Carneiro nada, de Mota Pinto idem, de Balsemão idem idem, de Cavaco um "raramente me engano", fanado a Mussolini, de Guterres zero, de Barroso o "discurso da tanga", de Santana "o discurso da incubadora" .



Um dia, em Paris, fui assistir a um discurso de Le Pen. O homem não diz nada que o homem comum não saiba, mas fala primorosamente: tem graça, conta anedotas bombásticas, passeia-se pelo palco com aqueles fatos garridos technicolor e cabelo pintado de louro, interpela retoricamente a assistência, estabelece cumplicidade com o público e, curioso, raramente tem tiradas, falando normalmente como se estivesse sentado connosco à mesa do café. É o segredo Le Pen: fazer-se passar por um amigalhaço com quem se priva e se fala sem esmero e sem pose. Aquele público rende-se perante o "tio" Jean-Marie, há uivos, assobios, palmas, gargalhadas e, no fim, um verdadeiro furor quando o entertainer dirige a multidão no entoar da marselhesa.



Julgo que Le Pen poderia vir a Portugal a convite da Assembleia da República para aqui ministrar um curso de comunicação. Muito aprenderia Marques Mendes, que fala como o boneco do ventríloquo, enriquecido ficaria também Sócrates, que grita, berra e barafusta sem razão aparente, Louçã que nunca se desligou daquele ar de pregador de seita adventista, Ribeiro e Castro que fala para os seus pulmões e o camarigueiro Sousesco que é um campeão da não-comunicação. Moral da história: os políticos, se não sabem falar, se têm medo das palavras, mudem de ramo. Ontem, pelo telejornal, ouvi atentamente Sarkozy. Ali estava mais um segredo de comunicação. Com aquele ar de valentão de briga na paragem do autocarro, a língua seca, a frase curta e incisiva, cumpre a expectativa do homem comum. Não há circo, ópera ou comédie française, como em Le Pen; há o chefe da esquadra da polícia a quem nos vamos queixar de uma carteira roubada, de um vizinho barulhento ou de um traficante que temos em frente da porta. As pessoas adoram actores e respeitam os autoritários. Por cá não temos nem actores nem homens de autoridade, só uns chatos cujas deixas já conhecemos de cor.

Ela hoje acordou assim

A Bomba fez 3 anos. Na corte exige-se que a partir de hoje só fale em francês. Os embaixadores trouxeram prendas e ao povão foram dados croissants au beurre avec du chocolat.

03 abril 2007

Praticamente empacotada

Nas primeiras imagens difundidas após a captura, a soldado Faye Turney, de 26 anos de idade, envergava o camuflado dos fuzileiros reais. Quatro dias após, foi-lhe coberto o cabelo com um trapo axadrezado. Ontem surgiu exibindo o "trend" da colecção primavera-mulha, coberta dos pés à cabeça pelo lençol negro azeviche, sem pinga de maquilhagem e aparentando 46 anos. Daria uma excelente esposa para um hirsuto analfabeto, daqueles que enxameiam a Guarda Revolucionária. Se continuar a fumar - o que é proibido às mulheres por lei - será chicoteada pelos pressurosos vigilantes dos bons costumes num país que consome pornografia e ópio como nenhum outro. Entretanto, Miguel Portas continua a minimizar a questão do véu. Acrescentar-lhe-ia outros pormenores enriquecedores da multiplicidade cultural da humanidade, tais como a escravatura na Mauritânia, a excisão feminina, a lapidação, os açoites públicos e outros peanuts de somenos. Relativismos culturais ...

02 abril 2007

Guerra das Falklands ou o único país europeu que não perdeu a coragem

A França foi à luta e perdeu na Indochina, foi à luta na Argélia e assustou-se. A Bélgica, que se dera ares de importante, saiu do Congo carregada de vergonha. A Espanha descolonizou sem honra nem glória no Sahara Espanhol: mandou regressar o exército e entregou o território e respectivas populações às colunas da Marcha Verde. Portugal ganhou militarmente em África, mas no fim abandonou tudo, sem regatear e sem prover, condenando Angola a uma guerra de 27 anos, Moçambique a 20 anos de matanças e Timor-Português ao genocídio indonésio.
A descolonização europeia terá sido um dos maiores desastres humanitários do século XX, mas no conjunto dessa imensa tragédia escapou o Reino Unido: deu luta aos comunistas na Malásia e venceu-os, deu luta aos Mao-Mao, venceu-os e só depois de os civilizar concedeu a independência ao Quénia. Em 1982, um general argentino encurralado entre a hiper-inflação, o descrédito e a ilegitimidade, empurrou país para uma aventura que estimava impune. Não contava que os britânicos - que jamais aceitaram os "ventos da história" e outras crenças revolucionárias, posto continuarem a ser uma monarquia, súbditos e fiéis a uma Constituição histórica - conhecem a honra nacional, o sacrifício e o valor das responsabilidades do Estado. As Falklands foram retomadas pela força pois, para os britânicos, não há direitos históricos sem a anuência das populações, não há factos consumados ao arrepio da legalidade internacional, não há cedências perante os interesses permanentes da nação. Os argentinos foram esmagados, os habitantes das Falklands voltaram a ser leais e livres súbditos e hoje o arquipélago é o mais rico do hemisfério sul. O ditador argentino foi apeado, a Argentina caiu no desastre insolvente que se conhece e os argentinos - que se portaram com grande coragem na luta - dedicam-se hoje a proezas futebolísticas. Foi uma lição. Se a Europa tivesse na Grã-Bretanha o seu espelho de virtudes outro galo cantaria.




"Rule, Britannia!"

Começou o êxodo: Lisboa está quase deserta

Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos; com os nossos filhos, e com as nossas filhas, com as nossas ovelhas, e com os nossos bois havemos de ir; porque temos de celebrar uma festa ao SENHOR. (Êxodo, 10.9)

Proibir e não proibir os inimigos da liberdade

Não preciso de proposições abstractas para saber o que é e o que não é a liberdade, como não preciso que me discorram sobre a essência do mal para saber onde ele vive e respira. Ouvia hoje um programeco na televisão - uma torrente de ódio, desse ódio estúpido encurralado na irracionalidade dos lugares comuns aclamados, com direito a Tordo e tudo - e o tema era, invariavelmente, a "questão do cartaz". Não sermos adeptos de soluções que repudiamos não quer dizer que sejamos cegos ao direito de outros pensarem como bem entendem e de fazerem a apologia daquilo que os mobiliza. Se cumprem a lei, se usam a palavra e as ideias e não as armas, a violência e a ameaça, estão no "negócio" como quaisquer outros.

A ideia de uma sociedade livre é incompatível com a censura, a segregação e sufocação das vozes contrárias. Se a democracia repousa sobre convicções, deve saber conviver com quem com ela não está e acordo, conquanto sejam acatadas as regras do jogo. Espanta-me, apenas, que gente que não tem autoridade alguma para falar em tolerância, que se situa num campo ideológico que prega subrepticia ou descaradamente a violência revolucionária, adepta envergonhada ou expressa de Trotsky, Estaline e outros monstros, tenha o displante de se colocar na vanguarda da liberdade.


Que eu saiba, nunca o DN, o Público ou qualquer outro orgão de comunicação social jamais se indignou pela distribuição de propaganda que fizesse a apologia do comunismo, do terrorismo de Estado e do negacionismo do gulague e jamais impediu o acesso de Louçã, Garcia Pereira, Carmelinda Pereira, Arnaldo Matos, "major" Tomé, Jerónimo de Sousa e Rosas à comunicação directa com o povo português. Portugal continua a viver refém de um tempo em que o CDS era perseguido nas ruas, apedrejado e ameaçado de morte pelos valentões que hoje se cobrem de grinaldas pudibundas de sacerdotizas da Liberdade. Vivi esse tempo e a perseguição invocava uma danação, em nome da qual todos os excessos eram desculpados: FASCISTAS ! Fascista foi o PS, fascista foi o PPD, fascista foi o CDS, fascista foi o PDC, este último democraticamente impedido de concorrer a eleições por uma douta entidade académica que dava pelo nome de Conselho daRevolução.


Enquanto nos situarmos neste redil de liberdade cercada pelo arame farpado enferrujado dos idos de 75, dependeremos sempre dos lobos enraivecidos do extremismo comunista a brincar em cães de guarda da democracia. Que a Procuradoria Geral da República abra um, dois, ou vinte processos, que o Tribunal Constitucional avalie, estude, discorra sobre o caso, mas, por favor, incluam no processo os programas, declarações e clarifiquem os intuitos de cinco, dez, cem movimentos, partidos e associações que são passíveis de ilegalização por induzirem à difusão de princípios, valores e convicções contrárias à democracia. Por este andar, qualquer dia vêm a minha casa rastrear as minhas estantes por nela constarem romances, novelas, gravuras, textos filosóficos, obras historiográficas, discos e estatuetas que constem de um mais que certo index prohibitorum riscado por um demente em busca de bruxas e demónios. Aliás, os caçadores de bruxas e demónios apareceram para dar emprego a liberticidas, precisamente antes do surgimento da "praga de bruxaria" que quase destruiu no século XVII tudo o que o Renascimento trouxera. Bruxas em Salém. Uma menina jornalista disse que viu o demónio. Empilhem a lenha, mandem vir os doutos teólogos, venham as confissões sob tortura, as denúncias e, sobretudo, venha o auto-de-fé. Este país envergonha-me.

01 abril 2007

A tortura do véu

O maior fantasma a que os obscurantistas anti-ocidentais dão largas assim que deitam a mão a uma mulher europeia é fazê-la regredir mil anos, cobrindo-a com o envelope mutilador.


VERA LYNN, We'll meet again (1939)

Sarkozy precisa-se

Descobri agora por que razão simpatizo com Sarkozy. Não é francês !

Os inimigos da Liberdade e suas falácias

Os maiores inimigos da sociedade aberta partem de um pressuposto absolutamente errado da democracia sempre que reclamam direitos políticos, sociais e individuais que julgam indiscutíveis para, com eles, destruirem a própria liberdade. Como aqui tenho repetidamente dito e redito, democracia e liberalismo foram coisas absolutamente distintas, mas de cuja convergência histórica se produziram valores, práticas e atitudes que se confundiram e têm-se revelado - pelo menos ao longo dos últimos cem anos - como indispensáveis à preservação da liberdade dos indivíduos, das sociedades e da cultura. Lendo The Constitution of Liberty, de Hayek, ali nada vemos de inovador no que aos três núcleos do pensamento liberal de oitocentos assegura a coerência de uma linha doutrinária que se confunde hoje com a própria ideia de Ocidente: liberdade política, liberdade económica e liberdade individual. Por maiores malabarismos a que se dediquem os seus inimigos, a verdade é que estes três pilares do pensamento liberal triunfaram sobre todas as contestações, ao ponto dos inimigos da liberdade serem, por vezes, pateticamente mais ortodoxos na invocação dessas premissas.

Inicialmente, quem mais contestou a ideia de liberdade política do liberalismo foram os seguidores da soberania popular, ou seja, os democratas. Para o liberalismo clássico, a liberdade fundava-se em factos objectivos. Quem não reunisse meios elementares para comprar a sua autonomia, quem dependesse de outrém, quem não possuísse instrução adequada a uma participação responsável na vida política, devia merecer a dignidade da cidadania, mas ver limitados os direitos políticos. De facto, perdoe-se-me a dureza, todos nós não deixamos de colocar objecções morais ao facto de um fulano analfabeto e incapaz de discernir e fundamentar, possuir os mesmos direitos políticos que uma pessoa instruída. Este debate foi particularmente aceso na Europa da segunda metade do século XIX, tendo sido resolvido pelo reformismo e pelo cartismo no progressivo alargamento da participação dos cidadãos e universalização do direito de voto. A partir do momento em que consentimento individual, representação e constitucionalismo se tornaram universais, lançou-se mão do intervencionismo estatal que permitiu debelar a pobreza, a marginalização e a ignorância através de políticas nos domínios laboral, assistencial e educativo que permitissem apagar desigualdades gritantes. Todos nós somos, de uma maneira ou de outra, defensores do liberalismo económico - com maior ou menor laissez faire - do liberalismo moral - dar aos outros a liberdade de escolha e de realização, como a aquela que reivindicamos - mas é no domínio do liberalismo político que podemos divergir.
Tenho para mim que o liberalismo político encerrava problemas que foram sendo resolvidos por mecanismos de contenção do poder da plebe armada pelo voto. A existência de senados, a preservação de monarquias constitucionais e outros sofisticados mecanismos de reconhecimento do mérito sobre a força do número salvaram a desigualdade, impediram a hegemonia da plebe e permitiram que o respeito pela maioria não ofendesse a diversidade de gabarito dos indivíduos. Ora, quem desde do primeiro momento quis fazer tábua-rasa da desigualdade enriquecedora foram os defensores do poder da rua, do bonapartismo plebiscitarista de Napoleão III aos socialistas e, logo depois, os adeptos dos totalitarismos. Como recusam, em absoluto, o individualismo, a liberdade económica, o direito à propriedade, o direito de escolha, quiseram fazer crer que a democracia só existia como método de escolha e eleição. É o velho sofisma. Se nós, totalitários, vencemos pelo voto, somos democratas. Mas não se pode advogar a metodologia democrática para matar a democracia, como não se pode defender o triunfo eleitoral para, de imediato, acabar com a liberdade de votar.
A mudança política, em democracia, significa apenas permitir que outros programas acedam ao poder e desenvolvam políticas específicas sem colocar em questão a liberdade de escolhas subsequentes. Ora, a demagogia - que não deixa de esconder a sua crapulosa intenção final - contenta-se com críticas realistas à democracia, escondendo o seu verdadeiro rosto. Que as democracias carregam corrupção, partidocracia, plutocracia e outras chagas, tudo isso é verdade. Mas isso são dados etiológicos, são doenças, que não atacam a própria essência da democracia. Fazer crer que sistemas fechados, autistas, monopolizadores do político, espezinhadores dos indivíduos, intervencionistas e manipuladores da economia, do direito à iniciativa e da propriedade são melhores, é erro desastroso. Nunca, nos últimos duzentos anos, governo tirânico algum conseguiu demonstrar a sua superioridade, pois todos se viram substituídos por governos de índole liberal e democrática. Se se aceita, academicamente, o autoritarismo desenvolvimentista - aquele que permite criar as bases de riqueza, educação e sentido de cidadania a partir dos qual o poder pode regressar ao povo, como aconteceu na Espanha de Franco, na Turquia de Mustafá Kemal, no Chile de Pinochet, na Coreia do Sul de Park Chung-hee - não se pode permitir a involução radical e conceptual da ideia de um governo do povo, para o povo e pelo povo.


Ainda e sempre avisado, Hayek advertiu no velho e sempre actual Caminho para a Servidão que a lenta contaminação da democracia liberal com pós de intervencionismo (nacionalizações, planificação, assistencialismo exagerado, direitos outorgados) iriam, a termo, matar, as raízes da liberdade e retirar, em extremo, o poder aos indivíduos e à sociedade, concentrando-a nas mãos do Estado. Em Portugal, que passou por tremenda bebedeira estatista, os inimigos da liberdade - os demagogos - parecem exigir a morte da democracia política, invocando uma mirífica "democracia social". Ou seja, querem fazer crer que a democracia social que reclaman não implica, no seu termo, a morte da democracia política e o absoluto controlo dos indivíduos. PC, Bloco de Esquerda e outros extremistas vivem nessa mentira. Como somos, por fatalidade, um país analfabeto e pouco amante da liberdade, vamos aceitando sem lhes perguntarmos directamente o que connosco fariam no dia em que vencessem as eleições. Não há por aí um jornalista com um neurónio que tenha coragem de perguntar a um dos líderes totalitários o que faria com a democracia no dia seguinte à eleição de um parlamento maioritariamente anti-liberal ?

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Um dia, em Madrid, um taxista - sempre os taxistas ! - voltou-se para mim quando passávamos por uma manifestação extremista e disse: "ellos están llenos de razón, pero son todos unos hipócritas. Todo lo que dicen es una mentira para atrampar a los idiotas". O inferno está cheio de boas intenções.

Ela não pára


Berlim, Dublin, Madrid, Paris, um grand tour feito de museus, bibliotecas, esplanadas e restaurantes onde se serve de libré; é disto que gosta Miss Pearls. Da próxima vez convido-a para outros destinos. Que tal Katmandu, Isabel ? Cuide-se de problemas com "jovens" e traga-me umas Dattes farcies arcies aux amandes (enrobés au chocolat).


Paris sera toujours Paris, Maurice Chevalier (1942)