16 março 2007

Os criminosos com nome de rua, os pacificadores danados


Transcreve o nosso confrade Exactor um trecho de uma carta travada entre D. Carlos I e João Franco Castelo-Branco. Passam agora 100 anos que o governo da monarquia tomou consciência - tardia - do crescendo de banditismo armado a que os mandantes republicanos vinham dando estímulo após sucessivas derrotas eleitorais. O PRP (Partido Republicano Português) fez sua a lei da dinamite, do revólver e da coacção, que caminhava a par da mais sórdida difamação jornalística contra a família real, o clero, os deputados e demais autoridades políticas e religiosas do país. A agremiação republicana, que jamais ultrapassara os 7%, investiu decididamente pelo terrorismo depois de verificar que através do jogo político eleitoral jamais descolaria dessa margem extremista, micro-burguesa e recalcada que acudia com o seu reduzido voto aos comícios.



Ao contrário do que se fez crer depois, João Franco jamais foi ditador na acepção hoje vulgarizada. A "ditadura" era, então, um mero interim, um arranjo que permitia governar sem a câmara de deputados; ou seja, essa ditadura era comissarial, tinha um tempo restrito de vida e visava a acalmação que permitisse ao governo resolver questões bloqueadas face à inexistência de consensos. Era, sem dúvida, uma solução extrema, com envolvimento do Rei, mas sem colocar em causa os fundamentos do liberalismo e o respeito pela normalidade de uma Carta que cumpria todos os requisitos de um sistema representativo moderno. O que João Franco tentou foi, aceite-se ou não, encontrar uma saída para o bloqueio da vida política portuguesa entregue a partidos alternantes, reduzindo concomitantemente o flagelo do extremismo político representado pelo republicanismo. Quase o conseguiu, mas a reforma foi interrompida violentamente pelo regicídio.



Percorremos as ruas e praças desta capital, que já foi de Império e que acolhia, então, as principais cabeças - coroadas e não coroadas - do mundo, atestando o reconhecimento internacional de Portugal. Os nomes que as lápides exibem não são nem as dos heróis de África, que garantiram a sobrevivência do Império, nem do rei que sonhou um Portugal europeu, civilizado e amante das letras, das ciências e das artes. Lá, vergonhosos, estão os nomes de mandantes de crimes de sangue, instigadores do bombismo e das famosas "esperas" republicanas. Com eles Portugal deixou de ser europeu, mexicanizou-se, foi uma ditadura da rua e clamou, no colapso da balbúrdia, por Salazar. Cem anos após João Franco, só lamentamos que não tenha chegado ao termo a sua reforma.
O que Partido Republicano temeu foi que João Franco proporcionasse o surgimento de uma esquerda parlamentar de tipo europeu (social-democrática), que enterraria a demagogia pequeno-burguesa do messianismo de pacotilha dos senhores doutores do republicanismo nativo. O que os velhos partidos monárquicos liberais temeram em João Franco foi a ameaça aos lugares e negócios que, ontem como hoje, fazem as maravilhas dessa classe de homens que só da política e na política podem sobreviver pois, ontem como hoje, nenhum deles consegue realizar profissão decente e reconhecida sem o amparo das cumplicidades e solidariedades de partido. Estou certo que D. Carlos gostaria de ter em Portugal a reprodução da realidade política britânica do seu tempo: um partido conservador, monárquico e mantenedor, um partido liberal, reformista e cosmopolita, um partido trabalhista que forçasse o alargamento do universo eleitoral e representasse os trabalhadores e todos os excluídos. Tudo isso se gorou. Continuamos a pagar o preço desse fracasso.

15 março 2007

Alemanha espartana ou ateniense ?

De novo Charlotte, que aqui timidamente parece evocar a grandeza que Madame de Staël lobrigou na Alemanha, aborda uma questão importante: são os alemães um povo tão maníaco pela organização e pela disciplina ao ponto de sacrificar a moral e a decência à obtenção de objectivos políticos ? Julgo, sinceramente, que não.


A história alemã moderna está cheia de calamidades e violência. Esta não é apanágio exclusivo de Hitler e do seu nefasto regime, o qual empurrou a Europa para a colonização cultural norte-americana ou para a escravização à barbárie comunista. A Alemanha do Segundo Império também cometeu coisas abomináveis em África, anunciando com décadas de antecedência a estúpida violência institucional e o ódio ao humano que fizeram do III Reich um monumento ao fracasso político, geopolítico e cultural. Lembro que a Gesellschaft für Deutsche Kolonisation - Companhia para a Colonização Alemã - fundada com o propósito de dar aos alemães um império colonial em finais do século XIX, foi inexcedível na aplicação da brutalidade como instrumento de imposição da pax germanica aos os negros do Tanganyka (Tanzânia). Lembro, também, que no Sudoeste-Africano (Namíbia), von Trotta cometeu verdadeiro genocídio entre os Herero.



Porém, importa lembrá-lo, o animador da colonização do Tanganyka, Karl Peters, foi publicamente desautorizado e senteciado pelo governo alemão depois de conhecidos os métodos inqualificáveis de intimidação e escravatura que envolviam a actividade da sua companhia. A criatura seria reabilitada post-mortem por Hitler. Os nacional-socialistas nele viam um parente ideológico avant la lettre, querendo fazer esquecer que Peter havia sido um verdadeiro predador sexual de mulheres africanas, uma das quais mandou matar por motivos passionais. Quanto a Lothar von Trotha, que concebeu e aplicou com meticulosa barbaridade o Vernichtungsbefehl (ordem de extermínio) dos herero, regressou à Alemanha, foi nomeado general, mas nunca mais recebeu qualquer função de relevo. Os alemães, ao contrário de britânicos e franceses, que também cometeram pavorosos massacres coloniais, nunca deixaram de pedir desculpas às vítimas dos seus excessos. Que eu saiba, nunca a França pediu desculpas pelos massacres de Montagnac, nem a a Grã-Bretanha pelo massacre de Amritsar. Lembro uma passagem das Lettres d'un soldat, assinada por Montagnac e publicada em França em 1885.



« Toutes les populations qui n’acceptent pas nos conditions doivent être rasées. Tout doit être pris, saccagé, sans distinction d’âge ni de sexe : l’herbe ne doit plus pousser où l’armée française a mis le pied. Qui veut la fin veut les moyens, quoiqu’en disent nos philanthropes. Tous les bons militaires que j’ai l’honneur de commander sont prévenus par moi-même que s’il leur arrive de m’amener un Arabe vivant, ils recevront une volée de coups de plat de sabre. […] Voilà, mon brave ami, comment il faut faire la guerre aux Arabes : tuer tous les hommes jusqu’à l’âge de quinze ans, prendre toutes les femmes et les enfants, (...) En un mot, anéantir tout ce qui ne rampera pas à nos pieds comme des chiens. ». Sinceramente, nem Himmler nem qualquer dos seus capangas conseguiria exceder tão eloquente prosa.



Pois, cara Charlotte, tudo o que continuamos a pensar dos alemães é resultado da propaganda de guerra. O nazismo morreu de morte macaca, os seus crimes foram justamente punidos, mas alguns dos que os julgaram não eram inocentes virgens em matéria de atropelos à dignidade humana, guerra de agressão e genocídio. Não há povos criminosos, como não os há isentos de tentação criminosa. Ora, creio, a Alemanha tem feito obra grande neste mundo desde 1945, sendo dos mais destacados obreiros da paz, da ajuda internacional, da cooperação e da caridade. Onde há conflitos, fome e desastres naturais, lá estão os alemães ajudando árabes e judeus, negros e amarelos sem olhar a preconceitos. Tenho grande admiração por todo o esforço de reparação de que os alemães deram provas ao longo de porfiada penitência. Chegou a hora de deixar a Alemanha descansar um pouco e das Grã-Bretanhas, Franças, Bélgicas e Holandas se converterem, como os alemães, em benfeitores das feridas da humanidade.

Felina alemã: Marika Rökk



Für eine Nacht voller Seligkeit

Combustões nos Açores

"Combustões: sob a divisa "Livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido", Miguel Castelo Branco alimenta aquele que é um dos melhores blogs individuais de Portugal.A favor: tudo! Uma erudição que exorbita da mediania e uma escrita que honra o melhor que há na nossa tradição Camiliana e Queiroziana ; uma crítica implacável e impenitente da actual República ; um blog assumidamente de Direita ;Contra: a inexistência de uma caixa de comentários para a habitual refrega do confronto ideológico; a postagem de imperceptíveis vídeos do YouTube com obscuras aves canoras de natureza germanófila."
João Nuno Almeida e Sousa teve a amabilidade de levar Combustões às ilhas atlânticas. Fico-lhe grato pela menção honrosa, que devo retribuir, pois o Ilhas, como o Fôguetabraze, são dois excelentes blogues cuja superioridade, graça e impertinência são dignas de nota, evidenciando aquela natural qualidade com que os Açores sempre se afirmaram na sociedade portuguesa. Pelo que ouvi de Miss Pearls - que por lá esteve com Charlotte - os animadores desses blogues são gente digníssima que tem o condão de receber - e com que mordomias - os seus convidados. Quanto aos comentários de João Nuno, reconheço-me inteiramente, com exclusão (fatal) da qualidade literária, pois sou um mero aprendiz da arte da escrita.

14 março 2007

Tigrezas germânicas


A nossa Bomba blogosférica, que tem excelente gosto, pois até venera a minha deusa do celulóide, chama a atenção para um mito (e uma fobia) muito franceses: o mito da agressividade alemã e a fobia dessa grande cultura - literária, filosófica, historiográfica, musical - que é a cultura alemã. Tenho para mim - cá estou eu com as minhas generalizações - que os italianos têm a bela música, os britânicos a bela objectividade, os franceses o belo rocaille, os holandeses o belo pincel, mas que cultura-cultura, profunda, torturada, sem artifício e sem afectação é a alemã. Sabe a Charlotte que naquela língua nada existe por acaso. No pensamento alemão, tudo o que se manifesta está lá por necessidade absoluta da inteligência. Se essa inteligência teve perversões - diria, acessos de demência, nestes incluindo à cabeça o nazismo, essa sub-religião dos pobres de espírito, bem como o marxismo, essa doença nervosa de invejosos e recalcados - nunca deixou de me espantar pela capacidade de aspirar à totalidade daquilo que é alcançável (o saber enciclopédico) e daquilo que o não é (a metafísica). Tudo o que de mal se disse e redisse a respeito dos alemães tem selo e assinatura franceses. A França, descobri-o ao longo dos anos de estadia na Alemanha e França, tem um complexo profundo face aos alemães, que repetidas vezes os esmagaram militarmente, que produziram génios na mais fina das filhas do espírito (a música) e que os destronaram nos domínios das ciências exactas, das ciências aplicadas e até nas ciências ditas sociais. O ódio a tudo o que é alemão é uma estupidez rematada. Nunca conheci, com excepção dos japoneses, povo tão curioso e tão desprendido das "suas coisas culturais" como os alemães. Ao contrário dos franceses, que só se observam, os alemães possuem uma visão dilatada e estereoscópica, sabem apreciar e valorizar as diferenças e são, no que toca a amor-próprio, bastante humildes. Tenho, cara Charlotte, uma admiração enorme pelas Alemanhas.

A propósito de Iwo Jima: uma justificada crítica

Legenda da foto: Defense worker N. Nickolson writes to her sweetheart thanking him for his letter and "souvenir." This skull of a Japanese soldier bears the inscription: "Here is a good Jap -- a dead one!"(in Life Magazin, 1943)




"Permita-me recordar-lhe os frutos do nacionalismo Nipónico: os massacres de populações civis e os assassinatos de prisioneiros de guerra aliados. Uma simples pesquisa no Google dar-lhe há algumas luzes. Há descrições cuja brutalidade é revoltante. Não me acredito que o Miguel não as conheça, nem me acredito nas suas palavras quando nos diz que seria neutral. Não me acredito.
Compreendo que o Miguel – tal como eu – goste da “estética” shinto, do zen, do bushido (deturpado durante o período de paz que se seguiu a Guerra Civil dos Séc XVI e XVII por um lírico que nunca viu ou provou uma batalha sangrenta.) Dizem que há dois Bushidos: o da guerra, bastante prático e realista e o da paz, trágico, sangrento e assassino. E foi este último que moldou o espírito dos nacionalistas japoneses com resultados trágicos para todos. É. Não me acredito nas suas palavras. Até hoje a sua excelente prosa revela uma humanidade vigorosa, sempre em combate contra a barbárie. Viu o Miguel um filme que apela aos seus valores. Certo. Eu também gostei, mas não limpa os crimes japoneses. É por isso. Em todo caso: “ Nichi nichi noko-koro!”
Parabéns pelo seu excelente blogue e pela esperança que nos dá com as suas palavras. E nem pense em desistir!
Respeitosamente,
Pedro Flores Marcos"





Agradeço a Pedro Flores Marcos a oportunidade para aclarar um aspecto que presumi pouco oportuno para o texto que ontem aqui deixei a propósito das Cartas de Iwo Jima. Sim, como muito bem lembra Pedro Marcos, os japoneses portaram-se miseravelmente no que toca aos civis chineses, à minoria chinesa na Malaya, aos timorenses, aos prisioneiros de guerra anglo-americanos, aos colonos franceses da Indochina, aos holandeses das Índias Orientais e aos civis britânicos em Hong Kong e Singapura. A brutalidade, o racismo e a total ausência de decência humana deixaram marcas que ainda hoje perduram no extremo-oriente e sudeste-asiático, constituindo uma prioridade da política externa japonesa limpar esses incómodos vestígios da "Esfera de Coprosperidade-da Ásia Oriental". Recomendo uma visão portuguesa desses tempos tormentosos na leitura [obrigatória] dos Relatórios de Vasco Martins Mogado, Cônsul-Geral de Portugal em Cantão, editados pelo Professor Vasconcelos Saldanha.



Porém, lembro que os norte-americanos se portaram de forma verdadeiramente selvagem na guerra que moveram aos japoneses. Sabe-se hoje que o espírito suicida dos nipónicos era mais motivado pelo medo aterrador das sevícias e brutalidade da soldadagem americana que por qualquer suposta impregnação do bushido nas camadas mais humildes do exército japonês. A verdade é que os norte americanos não faziam prisioneiros, abatiam-nos; os norte americanos não recolhiam náufragos, faziam-lhes tiro-ao-alvo; não respeitavam pilotos em para-quedas, chacinavam-nos; não poupavam navios-hospitais nem embarcações de pesca. Os norte-americanos moveram ao Japão uma guerra racial, permitindo que os soldados enviassem para as suas famílias relíquias macabras que nem os nazis - para além desse mundo infecto que eram os campos de concentração - se atreveriam tolerar sob pena de reacções populares: orelhas, escalpes e crânios japoneses.

13 março 2007

Kimigayo

A espada e o crisântemo













Ken Watanabe enche o ecrã vestindo a pele do general Kuribayashi. Uma força respeitável, um poder afável e cavalheiresco, uma determinação serena inculcada pelo dever e pelo serviço da pátria. Em Cartas de Iwo Jima desaparece, de vez, a propaganda racista, a caricatura e o difamante estereótipo do nipão sangrento e desalmado. A elite nipónica - sim, num tempo em que os cavaleiros ainda persistiam em não abandonar o palco da história - debatendo-se contra a maquinização e industrialização da guerra, desesperadamente consciente do fim de uma certa ideia de ética de sacrifício, hoje morta.


O filme é um requiem. A Ásia que remanescera à ocidentalização - e que desta aprendera apenas os segredos que a levariam ao desastre - morreu ali nas praias vulcânicas e nos montes escalvados de Iwo Jima. Sobreviveu o pobre rapaz do povo, humilde padeiro cuja alma se dilacerava entre as pequenas grandes coisas - a filha recém-nascida, a sua padaria, a sua casa em papel - e as grandes causas que merecem o sacrifício derradeiro: a pátria exausta e quase derrotada, as crianças que vão ser bombardeadas e calcinadas pelo fósforo das bombas ou pelo demónio atómico. Iwo Jima exprime o desespero de homens concretos na impossibilidade de manterem um posto avançado no meio do Oceano, necessário ao inimigo como pista de aviação para a destruição final do Japão.
Um filme comovedor que não é um filme de guerra, ao estilo de Sam Peckinpah. Ao sair do cinema, dei comigo a fazer contas aos meus afectos e à razão. Se no quadro da Segunda Guerra Mundial a minha razão tende para o Ocidente, o meu afecto está com o Japão. Apaziguando as minhas dúvidas, pensei: naquele conflito que matou o velho Ocidente, estaria ao lado dos Aliados no Ocidente (com exclusão dos soviéticos, ainda piores que os nazis), e neutral no conflito asiático.

As boas causas




Só muito tarde na minha vida aprendi a evitar os "idealistas", aqueles que se escravizam a uma abstracção, consagram-lhe toda a energia e por ela se dizem capazes da imolação. O que caracteriza essa gente é um total desprezo pelos outros, uma absoluta especialização onde não cabe a dúvida, o contraditório, a acareação e a comparação. São os "idealistas" os analfabetos da alteridade, os cegos da certeza, os surdos da dúvida e os paralíticos da ética. No fundo, os que se entregam a uma causa com apego religioso, fanatizados e cercados por muralhas de certeza, são cobardes apaziguados pelo conforto de algo que pensa por eles, funciona acima e antes deles. Como fracos de espírito - ou doentes da razão imóvel - raramente conseguem impor-se aos outros pela sedução do discurso. Optam, amiúde, pelo culto da força bruta, da violência purificadora ou pela fuga para o nada experimentado, que tanto pode ser o mito como a Utopia.




Há maluquinhos destes um pouco por todo o lado. Hoje coube-me um leninista ao almoço. A criatura vive num universo onde tudo surge, aparentemente, em relação com tudo, um verdadeiro relógio de corda. Se no correr da conversa se menciona um romance, uma pintura, uma viagem, uma sinfonia ou uma cançoneta, zás, lá vêm as relações de produção, as contradições, as alienações, a exploração do homem pelo homem, os peitos tísicos dos deserdados, os banquetes dos ricos, a fome dos pobres, o regime da propriedade, as "lutas" e as "resistências". Como monomaníacos, revelam-se de uma espantosa erudição. Passaram anos a percorrer as capelinhas, coleccionando todas as pagelinhas, amuletos e talismãs e, como os mau-mau dos Kikuyu, sentem-se invulneráveis às balas. Dá dó ver a que ponto seres dotados se deixam esvaziar e anular pela crença. Saí dali com uma imensa pena do homenzinho. O que seria ele capaz de me fazer se um dia tivesse oportunidade de me impor os seus delírios.


12 março 2007

Sukiyaki



Kyu Sakamoto

Carta para o faraó



Entrei no gabinete do secretariado. Secretárias meninas e menos meninas: as meninas, morenas, as menos meninas, louras. Fazendo jus àquele comentário de Salazar a Garnier, segundo o qual há um mistério com as portuguesas, que são todas morenas em novas e todas louras a partir dos 40, lá estavam, impávidas, quase arrogantes, respondendo entre dentes sem se dignarem levantar os olhos a tão insignificante criatura.



Falei, com védica candura, tratando-as pelo Sr.ª D.ª Qualquer-Coisa a que obriga a nossa etiqueta, com deferência mansa. Uma respondia por monossílabos, a outra olhava para um papel garatujado e fazia contracções nas comissuras, com aquele ar de importância que torna os portugueses quase hostis aos estranhos. Ali estive em pé dez minutos na gélida chafarica atapetada. Esperava e desesperava que as meninas novas e velhas me dessem uma molécula da sua divina atenção. Até que uma menina, por acaso a mais loura (i.e. a mais velha) me arrancou os documentos da mão. Arranhou-os apressadamente, à procura da inevitável falta que me obrigasse a lá voltar uma, duas, dez vezes.



De súbito parou, deteve-se, viu a assinatura de uma carta anexa, olhou para mim com uns olhos arregalados de espanto e disse, com voz alterada e aterrada: "mas esta carta é de [.....] e destina-se ao Senhor Presidente". Anuí silencioso. Foi um corropio. Uma cadeira, quer um café ? O chefe das meninas novas e morenas - também chefe das meninas louras e velhas - apareceu e sentou-se para ler a missiva. Ao pousar a vista pela carta, levantou-se quase em sentido. Aquela carta era para o Faraó. É assim que se porta a nossa gente. Aqui não há igualdade de tratamento para ninguém. Só merece atenção quem for portador de uma carta para o Faraó !

Alameda Digital


Ainda a crepitar, o número 6 de Alameda Digital ao V. dispor. Tendo como tema de fundo a "política cultural", lá alinhavei um textozinho contendo uma heresia e um sacrilégio: afirmo que a cultura, ao invés de libertar, aprisiona e que a acção cultural do Estado deve ambicionar dois fins: propaganda e inculcação de patriotismo.

11 março 2007

Combustões acertou no paiol do navio-almirante

Dá sempre prazer ter a ilusão de estar onde os acontecimentos vão ocorrer, prevendo-os. Aqui disse há dias qual o destino próximo das direitas portuguesas. Santana Lopes acaba de confirmar que o GRANDE JOGO começou. Estranho. A seu lado, sorridente, não estava Paulo Portas mas Manuel Monteiro.