10 março 2007



Franz Völker, Liebesbrief am Grammophon (1930)

Yes, Sir !



Um portento 100 vezes mais talentosa que a Dietrich. Zarah Leander em Zu neuen ufern (1937)

09 março 2007

"Não se trata uma senhora por você, mas por senhora"


Nada me move contra a Dr.ª Maria Cavaco Silva. Aliás, até a defendo sempre que no tom e sorriso irónico dos seus críticos - habitualmente esquerdistas de boas famílias - pressinto a mácula daquele preconceitozinho social com que as "senhoras" antigamente falavam de uma "rapariga" que entretanto havia ascendido socialmente. Tenho, decididamente, alguma reserva por aqueles que colocam a riqueza de nascimento e a pedatura acima das qualidades humanas - inteligência, dedicação e esforço, vontade de vencer - pelo não tolero desconsiderações cuja natureza ninguém pode alterar.




Ao contrário do que imaginam as boas mentes, ninguém pode reverter os dados da família, da cor da pele, da religião e da cultura do meio em que nasceu. Simultaneamente, neste mundo tudo parece moldável: do tamanho dos seios à adiposidade da cintura, do nariz abatatado à pilosidade, da calvície à miopia, da voz à barbela, há por aí milhares de cirurgiões-Pigmaleões à espera das senhoras e cavalheiros cheios de problemas de relacionamento com os espelhos. Contudo, a personalidade e o jogo em que esta participa está lá, mais ou menos burilado: acumulação de estratos geracionais, memória do tempo longo de uma cultura familiar e e social que não se muda de uma década para outra. São atitudes, gestos, motivações de cunho regional que antecedem e acompanham os indivíduos.




De há três décadas a esta parte passou a vulgarizar-se entre nós a ideia segundo a qual há "uma primeira dama". Esta moda, tirada de empréstimo dos EUA, tem dado mau resultado. O chefe de Estado republicano, eleito por sufrágio directo, não contempla qualquer acompanhante, seja feminino ou masculino, pelo que a "primeira dama" não cabe, decididamente, na hierarquia do Estado. Fazer da esposa do Chefe de Estado uma figura pública, atribuindo-lhe responsabilidades - ou cumulando-a até de cargos, como aconteceu com Maria Barroso - constituiu um atropelo que pode chegar ao favor. Para não ser mais explícito, julgo que não se pode fazer de uma simples cidadã aquilo que só as rainhas o são por formação, tradição e expectativa. Tudo o mais são cópias, e más ! Abro o site da Presidência da República e dou com uma secção que me surpreende: "escreva a Maria Cavaco Silva". Por que raio tenho eu de escrever à esposa do Chefe de Estado ? Se tenho um problema merecedor da atenção do Chefe de Estado, escrevo ao Chefe de Estado. Ou haverá uma secção nos sítios dos ministérios dos Negócios Estrangeiros, Cultura, Educação ou Administração Interna destinado aos cônjuges dos titulares ? Em suma, a D.ª República a brincar às monarquias.

08 março 2007

Hoje sinto-me judeu


Primeiro congelaram os aumentos salariais. Depois, congelaram a evolução das carreiras. Semanas volvidas, anunciaram o congelamento de concursos públicos para provisão de vagas. De imediato, foi introduzido o sistema de avaliação por objectivos e notação do trabalho. Se uma criatura insignificante e semi-analfabeta nos quiser destruir, dá-nos duas notas negativas, somos colocados perante um pelotão de execução e atirados para a vala comum do desemprego por motivos disciplinares. Ontem foi-nos comunicado que o miserável "privilégio" que detínhamos - um dia a mais de férias por cada cinco de trabalho - iria ser abolido. Hoje pela manhã recebemos a informação que haverá equiparação salarial entre o funcionalismo do Estado e o sector privado. Presumo, pelo tom seráfico, que a equiparação será feita com as caixeiras balconistas do comércio retalhista. Amanhã - a lógica exige-o - serão abolidos o subsídio de férias e o 13º mês. Depois de amanhã, terminarão com a ADSE, mas os descontos feitos jamais serão ressarcidos. Na próxima semana, o regime contratual da função pública passará a ser abrangido pelo regime de "prestação de trabalho".




Um silêncio sepulcral. Ninguém reage, não estivesse o PS em permanente concertação com as máquinas fazedoras de notícias e dessa opinião pública moldada pelos magnatas da comunicação social, vulgo propaganda do Estado. Alguma nota sobre a real origem do colapso das contas do Estado ? Algum dedo acusador aos 60.000 meninos e meninas boçais e parasitas que o regime nomeia para funções ditas de "confiança política"? São centos, milhares deles, dos ministérios ao parlamento, às secretarias de Estado, aos Institutos, aos "observatórios", às assessorias disto e daquilo, aos bancos, às empresas do Estado, às representações diplomáticas de nula produtividade. Se Manuela Ferreira Leite tivesse feito um décimo seria defenestrada, arrastada pelas ruas, desmembrada e cortada às postas, incinerada e as cinzas jogadas ao tejo. Mas não, vivemos sob o manto perfumado do socialismo.

07 março 2007

Atlântico: a consolidação de uma excelente revista de ideias

Mais um número da Atlântico, exorcizando o velho demónio português da efemeridade das publicações periódicas destinadas a públicos mais exigentes. Passando os olhos pelas referências catalográficas obrigatórias para a história do periodismo nacional (Jornais e Revistas Portugueses do Séc. XIX, de Gina Rafael e Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, de Daniel Pires), conclui-se não haver, entre nós, a tradição dos títulos de leitura obrigatória para uma, duas ou três gerações, tal como acontece em França, no Reino Unido ou na Alemanha.
Aqui, as iniciativas carregadas de boas-intenções morrem quase ao nascer. Um número tonitroante, dois números compostos e, depois, o cansaço, a falta de colaborações, a míngua de leitores, as lutas internas, a separação zangada e promessas da "novos projectos". Que me lembre, só a Águia (da Renascença Portuguesa), a Seara Nova (democrático-socialista), a Vértice (comunista), a Nação Portuguesa (integralista) e, mais recentemente, a Futuro Presente conseguiram a proeza de manter visibilidade, com maior ou menor assiduidade, na vida cultural e política portuguesa ao longo de mais de um década.
As "direitas" batem recordes na longa lista de títulos sepultos. Para tal fracasso não terá sido estranha a permanência de um regime que detinha o monopólio da actividade política, isentando (e muitas vezes impedindo) as direitas de pensar. Em vez de ler, reflectir, renovar e comparar, a direita adormeceu. Salvo uma ou duas exepções - aqui destaco a Tempo Presente - a direita portuguesa perdeu voz, auto-censurou-se e dedicou-se mais aos tombos e aos códices que à defesa das suas ideias. Em 1974, já a totalidade do periodismo de ideias servia os diferentes matizes das oposições, dos chamados "católicos progressistas" (O Tempo e o Modo) aos títulos da extrema-esquerda. Foi necessário que desabasse o perigo comunista para que as direitas abandonassem o catecismo anti-comunista, limitado ao jornalismo de combate (O Diabo, a Rua, O Dia) e tolerasse o inevitável desafio de um patamar superior. Esperou-se e, finalmente, surgiu a Atlântico. Os números já saídos auspiciam o melhor. Esperemos que, desta vez, tenhamos um título para longos anos.

06 março 2007

Bela contrastaria Euro-Ultramarina

Uma colecção de pratas doada pelo nosso caro Euro-Ultramarino.

Do Gana a Timor: 50 anos de fracassos



Ainda persiste a superstição de uma comunidade internacional feita de iguais. A ONU, inicialmente circunscrita a 50 Estados, integra hoje quase 200. Porém, quase dois terços dos membros com assento nesse areópago não cumprem alguns dos requisitos pelos quais o Direito Internacional estabelece as condições formais para o reconhecimento da soberania. Dir-se-ia, lembrando Robert Cooper, que no momento presente há menos relações internacionais e mais caridade planetária. Grande parte dos Estados representados na ONU são, ainda, pré-modernos. Aí não existe nem Estado nem governo na rigorosa acepção canónica, mas um poder barricado na força das armas de um grupo que se apossou do poder contra parte da população que vive numa área a que se atribuiu uma designação genérica: Tchade, Somália, Zimbabwe, Myanmar...



Aí, as responsabilidade do Estado no domínio da política interna - lei, ordem, política económica, assistência médica, educação - não existem, pura e simplesmente. Aí não existe cidadania, instituições representativas, indiferenciação dos cidadãos perante o Estado. A velha fórmula kantiana para o reconhecimento da legitimidade de um príncipe (governo) não se aplica a essa exótica panóplia de ditos-Estados. Aí funcionam apenas a razão da força, o arbítrio e a tradição do grupo que tomou o nome do Estado. O florescimento das ONG's demonstra à saciedade o fracasso da maioria dos Estados. O processo de substituição dos governos pelas ONG's marcha no caminho inverso daquele que historicamente marcou o processo colonial africano. Na África colonial, a acção caritativa das missões cristãs foi recuando na proporção da assunção de responsabilidades pelos colonizadores europeus. A exploração dos recursos naturais e da força de trabalho deu lugar a políticas de promoção das populações colonizadas e à lenta afirmação de uma nova elite capacitada para o exercício da governação nos termos pedidos pelo Estado moderno. Em 50 anos, essa elite desapareceu, foi erradicada e substituída por déspotas, tiranos e senhores da guerra que instauraram verdadeiras cleptocracias ou impuseram a lei de ferro aos grupos étnicos inscritos nas fronteiras do Estado, mas decididamente fora da esfera do interesse humanitário dos donos do poder.



O Gana engalanou-se para celebrar os 50 anos da independência proclamada por Nkrumah, que alguém sugeriu ser o "Lénine Africano". De facto, foi-o. A Grã-Bretanha entregara-lhe um país rico e cheio de potencial, propusera-lhe manter quadros e garantir total assistência em programas de desenvolvimento sustentado. Kkrumah voltou-se para o marxismo e para URSS e tentou industrializar um país no meio de nenhures. Foi um fracasso clamoroso.
Em Timor-Leste, a mais jovem entidade estatal com assento na ONU, o caos reina nas ruas. Não fossem as forças australianas e a nossa GNR, Xanana há muito teria sido apeado e chacinado pela turbamulta de delinquentes armados que percorrem o território apedrejando, queimando, assaltando e matando. Em suma, esse rosário de "independências" fez-se ao arrepio dos povos, sem os povos e, quantas vezes, contra os povos.

04 março 2007

O grande jogo



Não creio que a generalidade dos chamados analistas políticos tenha compreendido a radicalidade do plano que Paulo Portas carreia nesta reaparição que tantos pruridos tem provocado, sobretudo no Bloco Qualquer-Coisa (que se habituara a fruir do privilégio da oposição solitária), mas também entre um certo centro apático, acéfalo e a-ideológico adestrado nas artes do comentário televisivo dominical do Professor Marcello.




Julgo não estar a ousar em demasia ao insinuar que Paulo Portas defende o fim, a extinção, a desaparição do CDS. Sim, quere-o com o mesmo entusiasmo que Pedro Santana Lopes quererá o fim, o apagamento e as exéquias desse enorme lugar vazio que dá pelo nome de PSD. No fundo, os dois partidos são consequência do Pacto MFA-Partidos, organizações datadas sobreviventes ao PREC, de um tempo em que era preciso pedir autorização a Melo Antunes, a Costa Gomes ou a Kalinine para que alguma expressão de pluralidade pudesse mostrar ao mundo que em Portugal não se vivia a repetição do processo de instalação de mais uma democracia popular.




O PPD e o CDS sobreviveram, buscando ao longo dos últimos 30 anos as vestimentas que os tornassem queridos e votados por um amplo eleitorado não socialista que sempre se opôs - digamos a verdade - ao espírito da Constituição de 76. O eleitorado do CDS nunca foi centrista, assim como o eleitorado do PSD nunca foi social-democrático. Para agravar a dissimulação e a esquizofrenia, os líderes do CDS e do PSD nunca foram, importa referi-lo, particularmente eloquentes na fixação de um limes ideológico - nem tão pouco programático - que legitimasse fronteiras naturais e espaço para qualquer das duas formações. Ambos os partidos passaram por fases, ao sabor dos gostos e sentido de oportunidade dos seus sucessivos líderes. O CDS foi "rigorosamente ao centro" com Freitas do Amaral, liberal com Lucas Pires, democrata-cristão com Adriano Moreira, conservador e nacionalista com Manuel Monteiro,conservador-liberal com Portas. Por seu turno, o PSD foi social-oportunista com Sá Carneiro, liberalão com Balsemão, liberal com Cavaco e liberal-conservador com Santana Lopes.




Não, entre nós, nada há que se assemelhe a um RPR ou uma UDF franceses, um Partido Conservador ou um Partido Liberal à britânica, uma CDU ou uma CSU à alemã. O CDS e o PSD são, apenas, "partidos populares" ao estilo do pós-guerra, organizações onde lá se está por mero clubismo ou interesse particular daqueles que ainda têm paciência para a esterilidade da actividade partidária, cada vez mais pobre e mais degradante no que toca ao respeito devido a quem faz da política uma actividade. Se perguntarem a um filiado ou a um dirigente do CDS e do PSD que valores são pertença exclusiva de um e outro, não saberão responder. Não saberão responder porque, de facto, nada os pode separar.




Tenho para mim que o grande jogo que Portas agora desencadeou envolve, in extremis, a junção do CDS por ele reconquistado com o PSD de novo dirigido por Santana Lopes. Este grande partido, limpo de toda a adesivagem profissional dos pequenos burocratas e das nulas vaidades seria, afinal, o Partido Conservador ou a União Democrática, pois que a titularidade da Nova Democracia repousa em outras mãos. Portas e Santana poriam fim ao longo e doloroso imbroglio em que a direita investiu ao longo de décadas. É uma jogada arriscada, mas necessária para que se defina de uma vez por todas a europeização da vida política portuguesa.