24 fevereiro 2007

Relendo "Os deuses têm sede", de Anatole France



Le chant du Départ (1793). A França espalha Rousseau, a guilhotina e o Terror virtuoso pela Europa.
"Em Paris foram guilhotinadas 51 pessoas em Outubro de 1793, 58 em Novembro, 68 em Dezembro, 71 em Janeiro de 1794, 73 em Fevereiro, 127 em Março, 257 em Abril, 358 em Maio, 122 nos dez primeiros dias de Junho e 1376 de 10 de Junho (lei de Prairial) até 27 de Julho (9º Termidor). Ainda em 27 de Junho, foram guilhotinados uns vinte lojistas e operários. Mata-se muito mas rouba-se mais. Os bens nacionais, colocados sob sequestro, são roubados por aqueles mesmos que os têm debaixo da sua guarda. "Depositário de bens arrestados" e "ladrão" são perfeitos sinónimos na linguagem do tempo. Os livros, os quadros, os móveis, os tapetes, as carruagens, os soalhos embutidos, as janelas, os mármores, tudo desaparece".
Pierre Gaxotte, A Revolução Francesa, p. 267

22 fevereiro 2007

O aborto ? Está a governar muito mal !


Raramente caio em contradição, mas não posso deixar de citar o wrestler da Madeira em duas tiradas dignas de antologia. Aquele homem, com tudo o que tem de caricatural e grotesco, não deixa de ter repentes de hilariante presença de espírito, quebrando - diria mesmo espezinhando - o respeitinho cinzentão dos politiqueiros da brigada do casaco de malha que reduziram a classe política a uma pequena casta sem classe alguma. Interpelado sobre o rescaldo do referendo sobre a IVG, respondeu numa tirada genial: "o aborto ? Acho que está a governar muito mal".



Dizem as más-línguas parlamentares que a caracterização feita por Jardim a respeito dos seus inimigos - "gente inculta, incompetente e uns traumatizados sociais" - caiu como uma bomba entre a clientela da maioria. Que me lembre, Jardim não tem rival em Portugal, lembrando as mais sangrentas boutades de Le Pen e Franz Josef Strauß. Se abandonar o posto, que venha para S. Bento trazer algo da sua graça a uma casa onde há muito morreu a arte de Demóstenes, Frei Bartolomeu dos Mártires e dos irmãos Passos. Jardim não é um analfabeto. No seu carroceirismo brilham pérolas camilianas e evidencia-se leitura dos maiores avoengos da grande tradição portuguesa. É uma pena que seja tão inconstante e imprevisível, pois há bem pior que por aí se exibe com ares florentinos e não vale uma côdea do pão de milho do madeirense.

Rodésia e Zimbabwe


Não tarda muito e os habitantes da outrora Rodésia do Sul irão a Selukwe pedir ao veterano Ian Smith que regresse ao poder naquele que foi o terceiro país mais rico de África. O homo mugabensis cometeu a proeza de emular, superando-as, as magníficas experiências de Macias Nguema, Samora, Amin Dada, Mobutu e dos Santos. No interim de 25 anos, transformou o Zimbabwe, de maior exportador regional de produtos agrícolas a pedinte das ajudas internacionais, empurrou 80% da população activa para o desemprego, fez regredir em 20 (vinte) anos a esperança média de vida, empurrou a taxa de inflação para uns módicos 1600%/ano e converteu-se em chefe de Estado vitalício em sistema, de facto, monopartidário, com total confiscação do poder judicial e da imprensa. Não querendo ser acusado de nostalgia colonial, só posso lembrar que nos tempos da minoria branca a população rodesiana possuía a segunda maior taxa de alfabetização de África, a segunda maior rede assistencial do continente, o segundo maior número de telefones e televisores per capita e uma esperança média superior à da África do Sul. Pergunto-me se a independência o foi realmente, ou, ao invés, se tratou de uma regressão que torna impossível a preservação do Estado.

Es leuchten die Sterne

A propósito das oitocentistas crenças anti-monárquicas de O Jansenista






A supremacia da monarquia sobre a república reside precisamente no facto de dispensar os homens de génio para asseverar a sua bondade intrínseca. Lembro que D. Afonso VI recebeu o cognome de Vitorioso e Carlos II, mesmo com o prognatismo mandibular extremo e defeitos neuromotores vários, para além da impotência e da epilepsia, passou à história como o homem cuja vida se confunde com a desesperada tentativa para evitar a intervenção estrangeira que veio, depois da sua morte, enlutar a Espanha naquela que seriaq a mais mortal das guerras europeias do século XVIII.
Há certamente uma vasta bibliografia nosológica oitocentista - leia-se republicana e jacobina - que se lê com agrado e mórbida diversão, mas grande parte dessas devassas só expriem a maldade e insensibilidade dos preclaros autores a respeito das deficiências físicas; em suma, puros actos de grosseria. O realismo e, sobretudo, o naturalismo literários, quando transpostos para a historiografia, geraram textos curiosos, mesmo soberbos, mas a marcação pretensamente médica de fisiologistas e psicologistas não resistiu à acareação documental séria. Oliveira Martins, Fialho e Ramalho acabaram todos, se não incondicionais dos Braganças, em contrição pelos escritos ligeiros que haviam assinado contra uma dinastia que produziu uma plêiade de homens de evidente vontade em servir o país, para não referir as qualidades intelectuais e criativas que demonstradas por D. Pedro V, D. Luís I, D. Carlos e D. Manuel II.
Gosto, porém, de lembrar aos cultores das lendas dinásticas que a galeria dos senhores presidentes é bem mais reservada no que respeita ao carácter, coisa que coloco acima dos defeitos físicos. Leia-se a obra de Homem Cristo (Pai) a respeito dos verdadeiros bandidos que se alcandoraram a Belém e fica-se, no mínimo, com a impressão que a república conseguiu a proeza de ter como primeiros magistrados facínoras de delito comum até os substituir por marechais e almirantes descerebrados. Ultimamente, até traidores tivemos nos salões presidenciais. Quanto ao actual rei de Espanha, conseguiu evitar uma nova guerra civil, o estilhaçamento do país em republiquinhas e merecer a confiança e respeito da grande maioria dos espanhóis. Convidaria qualquer presidente português (já temos três na reserva) a medir popularidade, serviço do Estado e respeito dos concidadãos com o actual monarca espanhol.

21 fevereiro 2007

Tão perto e tão longe


Miss Pearls volta radiante de Madrid. A diferença, cara amiga, reside num pormenor que é tudo: eles são uma MONARQUIA e nós uma republiqueta. Não sou solariano, mas acredito que há mundos mais perfeitos que este em que Soares, Sampaio e Aníbal adornam as paredes das repartições.

Victory Through Air Power, um mito da geoplítica americana



Soa a truísmo afirmar terem sido os séculos XIX e XX politicamente diferentes de todos os outros. A grande mutação terá sido motivada pela industrialização, pela standardização e mecanização das organizações, pela superação do homem pela máquina e pelo encurtamento do tempo e das distâncias, que deitaram por terra o ritmo natural a que obedeciam os comportamentos, a reflexão e as decisões. O fascínio pela máquina e o poder apercebido da vantagem proporcionada pelos artefactos bélicos gerou, por seu turno, produção teórica que alterou a arte de pensar e fazer a guerra. O avião é, mais que o computador e o nuclear, o emblema da mutação irreversível.




Datam dos anos 10 e 20 as primeiras reflexões sobre o poder emergente do avião, com Giulio Douhet, Mitchell e Seversky relativizando a velha dicotomia poder continental v. poder marítimo ante a ascensão do termo superador destas: o poder aéreo. Já antes da Segunda Guerra, mais que símbolo de modernidade, o avião ascendera a ícone venerado pelos decisores políticos, que julgavam evitável a repetição das carnificinas da Grande Guerra 14-18. A ideia de uma guerra total e fulminante que pudesse destruir o inimigo por detrás das suas linhas - as suas fábricas, as suas cidades, a sua vontade de lutar - encontrava adeptos um pouco por todo o Ocidente. Se bem que os alemães utilizassem o poder aéreo, fizeram-no com meios tácticos restritos aos teatros de operações, e mesmo as célebres blitz (sobre Roterdão, Londres, Conventry e Belgrado), com os Stuka em voo picado aterrorizando populações e militares, nunca tiveram outro efeito que o de abreviar o desenlace das campanhas militares de 1940 e primavera de 1941.




Foram os britânicos, graças a Harris, bem os norte-americanos, discípulos de Mitchell, que absolutizaram a ideia que a guerra aérea sem quartel poderia esmagar e fazer sentar à mesa da capitualação o inimigo. Porém, já desde 1943 se sabia que a guerra aérea terrorista, ao invés de destruir o esforço de guerra adversário, robustecia a vontade deste em lutar. A incineração da Alemanha e do Japão pouco ou nada precipitaram a derrota alemã e japonesa. O bombardeamento estratégico mostrou-se, assim, um completo fracasso. Quando chega o momento de lutar fisicamente com o inimigo, não há avião que socorra. Se no cenário de batalha, o avião táctico, bem como o helicóptero, são preciosos auxiliares, no quadro geral de um conflito, o seu peso é relativo. Os Aliados criaram um mito que se veio a revelar fatídico no Vietname, como já fora na Coreia. Esse mito resistiu e até terá sido reforçado com a facilidade com que os EUA derrotaram o Iraque na primeira e segunda guerras do Golfo, alijaram Milosevic do poder e fizeram calar as veleidades de Kadhafi.




Em conflitos de baixa intensidade, porém, o avião de pouco serve. No Afeganistão, como no Iraque, as aeronaves têm-se mostrado totalmente inúteis na guerra contra os guerrilheiros. Lembro ter falado do assunto a um oficial norte-americano que encontrei numas férias na Malásia. Homem de infantaria, pés na terra e realista, disse-me seguir com apreensão o triunfo dos partidários do poder aéreo. Os EUA, como império, têm de garantir a vitória nas campanhas. Para tal, precisam de sacrificar homens, ocupar território e garantir a pacificação. Não é com aviões que se ocupa e controla um país. Os problemas no Iraque e Afeganistão decorrem de recusa do não acatamento desta evidência imperial.

20 fevereiro 2007

Um blogue de excelência

Visite o Exactor. Dir-se-ia reunir Je Maintiandrai e o Jansenista. Mais um mistério da blogosfera, onde nem o brilhante provocador Pedro Botelho falta.

Petardos carnavalescos


Jardinesco e a pantomima 2007: Escolheu sintomaticamente a quadra para se exibir no palco da paródia política. O homem está há trinta e tal anos na ribalta do desconchavo, do gesto histriónico, da boutade, do palavrão e do sem-propósito. O repertório esgotou-se e devia retirar-se. Cansa-me a rábula da independência, cansa-me tanto como as deixas do Herman falido da graça, incomoda-me aquele tom de carvoaria, aquela gente inacreditável que arrasta de trela atrás da olímpica barriga. É tempo de pedir a reforma.
Lisboa stromboliana: Passeio pela baixa rumo ao largo Camões. Centos de turistas de câmara em riste fotografando as vacilantes grandezas daquela que foi a cabeça de um vasto império. De cinco em cinco metros - nas escadarias dos templos, nos passeios, na base dos monumentos - cachos de pedintes esfarrapados, mutilados, velhos desamparados, uma velha devastada cantando um fado guinchado, malabaristas de rua; todos de mão em concha implorando, incomodando, tiranicamente insistindo por uma moeda. Ao que chegámos.
Os mistérios do género: O carnaval está nas últimas. Felizmente, já não se mascaram as criancinhas de Zorro e de sopeira. Abundam as vestimentas baratas mas sugestivas compradas nas lojas chinesas. Fico feliz pela alegria dos miúdos, cheios de si com o fato de pantera, o escafandro de astronauta, a vestimenta do homem aranha. Os graúdos, homens, claro, dão largas às sua fantasias escondidas. Os homens, em Portugal, quando se trata de brincar ao Carnaval, vestem-se de mulheres. Mistérios do machismo meridional !
Um ministro de telemóvel: Saio do ginásio e no parque de estacionamento está um homem baixo, de ventre proeminente, vestido sem o inseparável fato que faz a imagem dos homens públicos, com um cabelo negro-avermelhado que dir-se-ia pintado de fresco. Fala, esbraceja e dá ordens a algum subordinado. É o ditador da economia. Fica melhor na televisão. Julguei-o seco de carnes, mais apresentável. Mas não, na TV fica melhor.

Nur auf die Minute

Unter einem Regenschirm am Abend

19 fevereiro 2007

O colapso do modelo

Pede hoje o Diário de Notícias ,em editorial incendiário, a extinção da CML. Sempre habituados ao compromisso, à contemporização e ao consenso, velha chaga de carácter dos portugueses, fiquei aturdido com a acutilância do gesto. A nossa velha fórmula - berrar, invectivar e espantar demónios, para logo deixar tudo como antes - tem permitido a esta sociedade carregar, incorporando-os por assimilação e adesivagem, os erros, as práticas e homens de todos os regimes passados. O país gosta, pois mantém intocados os interesses, as conquistas e benefícios dos antigos, não pondo em causa as conquistas, os interesses e benefícios daqueles entretanto chegados. Assim foi em 1910, em 1926 e 1974; assim será de futuro. Como lembrou acertadamente Marc Ferro nos Tabús da História, esta estúpida tentação platonizante e intelectualista de separar homens e ideias decorre da crença - igualmente estúpida - de considerar as ideias como algo que existe antes, fora e acima dos homens. Nada mais errado, pois são os homens que fazem e desfazem as ideias, são os homens que movimentam a história e é deles que se faz o tempo. Se se verifica que o modelo não funciona, se este é despesista, corrupto, ineficaz e insusceptível de se corrigir, então pense-se um outro. Conquanto se salvaguardem aquelas liberdades fundamentais que são dados imediatos de civilização, qualquer alternativa de regime, sistema, instituição ou prática tidos por benéficos à realização de fins colectivos deve ser respeitada. Não há modelos acabados e perfeitos, pelo que continuar a perseverar em tabús é, mais que prova de reverência primitiva, uma tremenda injustiça lançada sobre aqueles que depois de nós virão. Se isto se aplica ao turvo mundo das autarquias, aplica-se de igual modo ao modelo de representação escolhido pelos constituintes de 76.

Estes siameses são loucos !

Os tailandeses parece não prestarem qualquer atenção ao governo militar que encerrou o parlamento, suspendeu os direitos políticos e lançou um mandado internacional contra o ex-primeiro-ministro Taksin Sinawatra. A guerrilha muçulmana no sul também não os parece incomodar, nem as bombas semeadas em Banguecoque por uma organização terrorista, nem tão pouco os sinais de estagnação económica que ameaçam a posição do tigre asiático. Toda a atenção dos siameses está centrada no romance de Natallee, Miss Universo 2005 (canadiana) e Paradorn Srichaphan, o mais famoso atleta thai, senhor dos courts de ténis e de uma fortuna imensa. Perguntei a a uma amiga tailandesa, jornalista de profissão e pessoa bem pouco atenta a tais trivialidades. Com a maior segurança, sem hesitar, respondeu-me: rak ying yai jak chay kon neang, provérbio que quer dizer "o amor é a coisa mais importante para um homem".

Evocando a velha Prússia, sem Weimar, nazismo ou comunismo


Paul Emil von Lettow-Vorbeck (1870-1964)


Uma figura admirável


A biografia apaixonante um brilhante estratega que deitou para o lixo a germânica lei de Clausewitz, aprendida nas academias da Prússia imperial, fazendo sua a doutrina de Sun Tzu. O guerrilheiro legendário, glória das glórias do exército alemão na Primeira Grande Guerra, foi um amante da África, dos seus povos e culturas. Com os seus devotados askaris semeou durante quatro anos o pavor entre britânicos, belgas e portugueses. Lida num ápice, como quem lê um romance, esta biografia revela facetas pouco conhecidas do coronel Von Lettow-Vorbeck. Monárquico intransigente, opositor declarado do nazismo e protector dos negros que viviam na Alemanha sob a ditadura de Hitler, recusou todas as honrarias que o regime lhe propôs. Nos anos 50, de regresso a África, foi apoteoticamente recebido pelos seus soldados negros. Um capítulo sem mácula na história da África colonial.