02 fevereiro 2007

Até às fezes: a república da Leva da Morte e da Noite Sangrenta


Em Outubro de 1918, vivia o mundo aterrado pela irrupção das duas pestes - a peste comunista e a peste da "gripe espanhola", metástases da Grande Guerra- e Portugal transido de fome e frio pela austeridade da guerra, mais o banditismo dos sicários de Afonso Costa pedindo desforra contra Sidónio e a sua polícia Preventiva. O "dezembrismo" sidonista descambara na anarquia repressiva, com polícias boçais agindo de moto proprio, sem rei nem roque, matando, espancando e intimidando quem se atravessasse no caminho (v. Artur Villares, a Leva da Morte).


A república estava tinta de sangue, fazendo jus à pedatura terrorista que se exibira com magnífica moldura de morticínios no 14 de Maio de 1915 - motim democrárico contra o chefe do governo Pimenta de Castro e contra o moderado Presidente Arriaga - e se aprimorara, entretanto, com a crescente pauperização e descalabro económico. A ordem nas ruas era tarefa das autoridades, mas estas foram delegando paulatinamente responsabilidades a grupos armados de apaniguados das facções no poder, ao ponto de não se saber mais quem agia por conta de quem. Ditadura, estado de emergência, filas de racionamento, desemprego e grande insegurança para pessoas e bens, era este o retrato do Portugal republicano oito anos após a implantação do regime. Foi neste quadro crepuscular, com acenos de messianismo no presidente-rei e sinais de angústia celestial (aparições de Fátima), que se deu a Leva da Morte. Ali para a Victor Cordon, um grupo de 153 presos políticos foi atacado por uma turba de adeptos de Sidónio. A chacina provocou sete mortos, entre os quais um dos famigerados mandantes do regicídio de 1908, o Visconde de Ribeira Brava. A república deglutia, um a um, os seus mentores.



Sidónio foi, entretanto, assassinado - num daqueles magnicídios portugueses, cujas causas jamais são apuradas - e o país assistiu à guerra civil entre monárquicos e republicanos. No rescaldo da Monarquia do Norte, regressou, de novo, a República Velha. Os ódios fratricidas entre os próceres republicanos - cada um com as suas inconfessáveis memórias, segredos e culpas na desgraça nacional - atingiram o zénite. A Formiga Branca - outro nome da Carbonária - fazia a lei dos caciques de Costa. O Estado deixara de existir. Em sua substituição, rufias de café, pistoleiros e bandidos fardados da Guarda Nacional Republicana impunham a lei da submissão a um regime que há muito perdera qualquer vestígio de legitimidade. Num inextrincável nó de intrigas politiqueiras, surgiu o boato que o governo de António Granjo ("moderado") pretendia repor a ordem na casa, a começar pela GNR, guarda pretoriana que entretanto se dotara de artilharia pesada e tinha a servi-la oficiais da maior confiança das organizações secretas que sempre domiram a República. Afonso Costa queria voltar à ribalta, mas não tinha o aval de António José de Almeida, seu arqui-rival. Uma confusão própria de uma república de opereta. Perante a boataria e um pronunciamento militar iniciado em 21 de Outubro de 1921, Granjo pede a demissão. Almeida aceita-a. Nessa noite, Lisboa conheceu uma das noites mais violentas da sua história.



A célebre Camioneta Fantasma, conduzida pelo marujo Abel Olímpio - mais conhecido por Dente de Ouro, um daqueles valentes rapazes partidários de Afonso Costa - percorreu as mansões abastadas dos donos do país, levando um a um os lídimos heróis dos Banhos de S. Paulo* (Granjo, Carlos da Maia, Machado Santos, Botelho de Vasconcelos), abatendo-os a tiro ou perfurando-os com bainetas. O sórdido de tudo isto reside no facto dos assassinos serem acompanhados por jornalistas do Imprensa da Manhã, que orientavam e corrigiam o percurso da famigerada carripana. A república regorgitava no atoleiro de violência que havia abubado ao longo de décadas de práticas mafiosas desde os tempos da verrina anti-monárquica. Se lermos as Minhas Entrevistas con Abel Olimpio, o "Dente de Ouro", da autoria de Berta Maia, viúva de Carlos da Maia, ressuma a atmosfera de banditismo que foi a história desse enorme ludíbrio saído do 5 de Outubro de 1910. Até às fezes - o título que Givesuis deu a uma das mais cruas obras de denúncia política publicadas no século XX - aplica-se à república portuguesa que tantos teimam dourar.


* Banhos de S. Paulo: ao contrário do que propalou a mitologia do 5 de Outubro, os dirigentes do PRP passaram a jornada do 5 de Outobro de 1910 enterrados nos Banhos Públicos, não se expondo à fuzilaria que opunha os bandos da carbonária, mais os "valentes sargentos da Rotunda", às forças reais ao Rei.

01 fevereiro 2007

República e salazarismo




A revolução devora sempre os seus filhos dilectos. A revolução republicana não escapou à regra. Aquela gentuça violenta, medíocre e arrivista, que galgara a tiro, bombas, difamação e demagogia a escada do poder, logo que instalada, praticou com esmero - com moderado cinismou ou com escancarada coerência - a pedagogia do porrete, das prisões arbitrárias, do assalto e queima das redacções dos jornais oposicionistas, do desterro dos inimigos e dos ajustes de contas mafiosos.



A república anunciou-se com um horrendo crime, impôs-se a tiro e manteve-se pela intimidação do poder da rua, das organizações civis armadas do terror jacobino e da confiscação do aparelho do Estado, destruíndo quase cem anos de esforço civilizador que começava, finalmente, a entreabrir as portas do país ao compasso da Europa.



A república foi uma involução, fechou-nos numa singularidade "mexicana" - com os pronunciamentos, guerras civis, matanças rituais, intolerância anti-religiosa - e partejou tudo o que a esquerda mitómana persiste, erradamente, em atribuir à criatividade liberticida do Estado Novo. Foi sob a República que morreu o Estado de Direito, foi sob a república que se instaurou o policiamento do espírito, foi sob a república que se deu rédea solta aos senhores militares e seus apetites de mando e fortuna, foi sob a república que se anulou a separação de poderes, foi sob a república que se instrumentalizaram a Escola e a Universidade para a inculcação do credo político dominante.



Salazar apenas operou com tecnologias repressivas e materiais seleccionados e testados durante a "República Velha" e a "República Nova": censura, polícia política, leis extraordinárias, anulação da oposição, juramento de fidelidade ao regime, obrigatório para todos os servidores do Estado, desterro e exílio para os recalcitrantes. Em certa medida, a república foi mais abusiva, menos legalista e tendencialmente mais totalitária que o salazarismo, na medida em que continha um programa que misturava regime e sistema (a diversidade política sob a república era, tão só, a de uma pluralidade intestina), que confundia soberania do Estado com direito de intervenção do Estado na esfera da religão, do ensino e da família e declarava ser seu propósito mudar a cultura, as tradições e crenças do povo português.



Finalmente, a república, ao contrário do que afirmam os seus panegiristas - Carlos Ferrão, Medina, Oliveira Marques - colocou os interesses do regime acima dos interesses nacionais, desenvolvendo uma política externa lesiva da segurança nacional, expondo o país a uma guerra mundial de todo evitável, alienando simpatias com os aliados (Grã-Bretanha) e criando relações de má-vizinhança com a Espanha.

31 janeiro 2007

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (6)


Executor-chefe do crime: Manuel Buíça (1876-1908)

Professor do Colégio Moderno, filho do pároco de Vinhais Abílio Buíça e Maria Barroso, fora um estudante medíocre e evidenciara, desde jovem, forte desequilíbrio temperamental, apenas aplacado pelo cognac. Amigo de Aquilino, que fora testemunha do registo da sua filha Elvira, frequeentador assíduo do café Gelo - ponto de encontro de republicanos e carbonários - Buíça era um daqueles espalha brasas da micro-burguesia bombista que enchia as fileiras revolucionárias, longe dos "senhores políticos", mas por estes manipulada. Os senhores doutores nunca mancham as mãos manicuradas com o sangue dos inimigos.

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (5)


Visconde de Ribeira Brava: mecenas do crime

Para além dos nomes, a questão mais interessante é a da origem do armamento utilizado. O processo judicial iniciado em 1908(1) ocupou-se especialmente, segundo assevera quem o pôde consultar, da aquisição da carabina do Buíça. Era uma carabina semiautomática Winchester, de modelo recente, de grande calibre e precisão, com o número de série 2137. Foi possível apurar que fazia parte de um lote de nove encomendadas em Hamburgo, em 1907, pelo armeiro Gonçalo Heitor Ferreira, com loja no Rossio. Tinham chegado a Lisboa precisamente em Janeiro de 1908. Segundo o instrutor do processo, três terão sido adquiridas por caçadores da província e as restantes pelo visconde da Ribeira Brava. (...) Também a arma de Alfredo Costa, uma FN-Browning, teria sido vendida por Heitor Ferreira a Ribeira Brava. Ferreira era, como acontecia a muitos dos comerciantes da Baixa de Lisboa, um maçon."

(v. Rui Ramos, D. Carlos)

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (4)


Mandante terrorista: Afonso Costa

"Quanto à origem das armas, Correia revela que a carabina do Buíça ter-lhe-ia sido oferecida por Joaquim Augusto Meira e Sousa, director do jornal republicano O País, o qual a comprara ao armeiro Heitor Ferreira: "a pistola do Costa pertencia ao DR. Afonso Costa"; o resto provinha de aquisições dos Dissidentes".


"(...) José Relvas viu Afonso Costa representar uma nova farsa, dando a beijar a alguns o revólver que lhe servira para insinuar (...) a participação no regicídio".

(v. Rui Ramos, D. Carlos)

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (3)





Aquilino Ribeiro, cúmplice terrorista


"Outro indício [das intenções dos terroristas] está na última conversa de Alfredo Luís da Costa (terrorista] com Aquilino Ribeiro, segundo este contou nas suas memórias. aconteceu na manhã de 1 de Fevereiro. Alfredo da Costa disse a Aquilino que Marinha de Campos, um dos organizadores do 28 de Fevereiro lhe encomendara a morte de João Franco. Mais à frente no texto, porém, o próprio Aquilino Ribeiro acabou por admitir ter percebido em Costa "uma intenção reservada": "por detrás do objectivo confesso, outro fosforejava".

(v. Rui Ramos, D. Carlos)

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (2)

Mandantes morais do crime: o dinheiro dos plutocratas despeitados

"A caixa da revolução era engrossada pelas bolsas dos abastados, de alguns viticultores irritados e sobretudo a de José Relvas, tornado republicano. O comerciante Francisco Grandela pagava com paixão e tinha um alvo fixo: o Rei, envolto no ódio do mercador porque jamais subira as escadas dos seus armazéns em preito ao seu talento de fanqueiro organizador."

(v. Rocha Martins, D. Carlos: história do seu reinado)
O sentimento predominante entre os anti-monárquicos, amiúde dissimulado pela invocação da igualdade dos cidadãos e pelo repúdio pela hereditariedade da chefia de Estado monárquica, reside, presisamente, no ódio que aos homens do dinheiro inspira tudo que não podem comprar. Se não podes comprar, destrói ! É entre os plutocratas, os arrivistas e os parvenus que se encontra, ainda hoje, o maior número de adeptos republicanos.

99 anos sobre o crime do Terreiro do Paço (1)

Guerra Junqueiro, acicatador de um crime

"Sim, nós somos os escravos de um tirano de engorda e vista baixa. Que o porco [D. Carlos] esmague o lodo é natural. O que é inaudito, é que o ventre de um porco esmague uma nação e dez arrobas de cebo achatem quatro milhões de almas !"
(Guerra Junqueiro in Voz Pública, Maio de 1906)


O grande vate nacional [Junqueiro] negociava móveis antigos e objectos de arte; possuía colecções sumptuosas, arranjadas na febre da paixão e do lucro. Constava-se que procurara vender a El-Rei algumas das suas pertenças, tituladas de magníficas, embora falhassem em maravilha e que D. Carlos as mandara comprar por intermédio de um amigo, pois sentia admiração pelo poeta e não o queria melindrar. Em suma, um pulha que fazia vista grossa a receitas, mesmo que oriundas dos cabedais generosos de um cliente que queria ver morto.
(Vide Raul Brandão, Memórias; vide Rocha Martins, D. Carlos: história do seu reinado)

30 janeiro 2007

Zarah Leander: Wo sind die Clowns ?

A nova China e o pensar velho português


Quando há vinte anos se falava da China, da sua imparável emergência e das consequências que fatalmente se operariam na estrutura da economia global logo que o grande país entrasse em cena, a generalidade dos europeus, escudados no proteccionismo da então CEE, regalados no complexo de superioridade pós-colonial e absolutamente rendidos ao mito da invencibilidade do Ocidente, riam-se com despreocupação.



A Europa acordou para o pesadelo há dez anos e tratou de atalhar caminho investindo no país do dragão, deslocalizando empresas, compensando perdas com investimento em tecnologia de ponta, especializando-se em produtos e serviços de qualidade que os chineses não poderiam emular. Por cá, viviam-se os dias dourados da demolição do aparelho produtivo, dos fundos estruturais canalizados generosamente a fundo perdido para o cavaquismo e para o guterrismo, dos empresários portugueses conclamados para o patriótico dever de olhar para a Guiné-Bissau como terra da promissão e para o Brasil como eterna futura potência nascente. Por cá, chineses eram uns homenzinhos amarelos, insignificantes vendedores de quinquilharia. Lembro ainda com amargura ter jantado com alguns embaixadores e empresários na embaixada do Brasil - num daquelas excelentes convívios que José Aparecido de Oliveira acolhia - e ter ouvido, entre outras, colossais manifestações de desprezo pelas novidades da Ásia. Lembro, particularmente, um embaixador português afirmando com certeza kantiana ter "a China os dias contados".

Há dez anos, já não era só a China a escalar as alturas do sucesso. Atrás vinham a Malásia, a Tailândia e, pasme-se, a Índia, associada no imaginário orientalista europeu a miséria putrefacta e à tão repetida "nascem, crescem, reproduzem-se e morrem na rua". Hoje, a Índia é económicamente mais poderosa que a França, a Itália e Espanha juntas. Por cá, indianos eram os "monhés" das chamuças e das lojecas do Martim Moniz. Os governas nada faziam para aconselhar e direccionar o investimento.

De súbito, a nossa indústria e o nosso comércio receberam o impacto, saíndo de imediato a terreiro os proteccionistas apelando ao "patriotismo", à defesa dos "interesses nacionais e sociais" e quejandos sofismas com que nos defendemos sempre que nos sentimos incapazes de competir. Ora, que eu saiba, nunca um governante, um diplomata, um responsável pelo ICEP ou
da nóvel agência para o investimento se preocupou em esclarecer, preparar, advertir. País de ignorantes arrogantes, sem especialistas em questões asiáticas - haverá dois, três, quatro quanto muito - nem nos demos conta que na Ásia se estava a jogar o futuro dos portugueses.

Temo que às duas viagens agora encetadas pelo presidente Cavaco e pelo primeiro-ministro, respectivamente à Índia e à China, falte essa informação de base e o conhecimento estratégico que permita arrimar o que quer que seja, como lembra um preclaro confrade. Ir à China não é o mesmo que ir a Bissau, a Belém do Pará ou a S. Tomé. Lamento, pelo país e pelo Estado, que tanta ignorância persista entre aqueles que podem fazer ou desfazer o nosso futuro colectivo.
No que à Tailândia diz respeito, desisti de incomodar. Durante anos, para Durão Barroso e seus ministros dos Estrangeiros, para José Sócrates, seus ministros e embaixadores, mais presidentes de fundações e institutos, alertei para a urgência do aprofundamento das relações entre Portugal e o velho Sião, mas tudo caíu no esquecimento. Recebi uns bilhetes evasivos, outras vezes nem isso. Penso conhecer aquele país, ter aí excelentes contactos e possuir um programa acertado para o desenvolvimento de importantes parcerias, mas por cá só fala na Guiné-Bissau !
PS: ler, também, nas Portas do Cerco

29 janeiro 2007

Dia da Memória

Evocar o Rei e o Príncipe Real assassinados pelos terroristas republicanos. A todos apelo a comparência massiva. O crime de 1908 anunciou a separação de Portugal da Europa, o assalto ao poder por uma minoria que jamais se submeteu ao veredicto dos portugueses, a confiscação do Estado por organizações secretas e grupos armados, o fim do Estado de Direito, anos de balbúrdia seguidos de ditadura e de ditadura seguida por balbúrdia. Sem o regicídio não teria havido intervenção na Grande Guerra, nem deriva radical jacobina, nem reacção católica autoritária, nem revolução marxista, nem descolonização de pé descalço, nem genocídio de Timor, nem entrada aos empurrões e sem condições para a CEE. Estaríamos, certamente, bem mais ambientados às práticas, ritmo e crenças da tolerância, da vivência da Liberdade e do patriotismo; em suma, estaríamos bem mais civilizados. Portugal perdeu quase cem anos com a burla, as superstições e desmandos da república. Ainda é tempo de recuperar ?

Miss Pearls

Brilhou ontem nas hertzianas, quando lá fora caíam flocos de neve. Rolo Duarte até citou o Combustões.