26 janeiro 2007

A menina Pinto do Deserto Vermelho


Uma inquisidorazinha de nome Pinto, pertencente aos comités de vigilância do pensamento único, deu em chamar "nazis" ao Pedro Guedes da Silva e ao Blogue do Não, marcandos-lhes as portas com a cruz branca com que a Venda Baixa da Carbonária fazia as célebres advertências homicidas. A menina Pinto, estipendiada pelos cofres do berloque burguês, exibe com meridiana claridade o inconfundível estilo da extrema-esquerda: palavras mansas escondendo intuintos liberticidas, "delação cívica", intimidação psicológica, difamação e confiscação do direito de opinar.


A menina Pinto é, sem tirar nem por, uma glosa dos manuais de terrorismo. A menina Pinto é uma anedota em busca de notoriedade, uma dessas alpinistas da bravata reles esbracejando e guinchando a ganga das frases-feitas com que o bluff de esquerda se fez e se desfazerá. Ali não há um pingo de seriedade, não há um discurso, uma linha de raciocínio; tudo aquilo são desconchavos irritados e irritantes próprios de uma falange de lunáticos que se tem agarrado a "causas fracturantes" para justificar uma mão curta de representantes no parlamento. No fundo, a culpa por este abaixamento da qualidade da AR deve-se a alguma imprensa dita de referência, que ao longo dos anos tem investido nessa agremiação, cumulando-a de rapapés e insensórios indignos da deontologia jornalística.



O labéu de "fascista" é chão que já deu uvas: foi tão usado e abusado que se dasvalorizou. Tempos houve em que, para a fulanagem que emparceira com a menina Pinto, todos eram fascistas: o CDS, o PPD, o PPM, o PS. Queriam e sonhavam com as valas comuns da justiça popular, com as prisões debaixo de armas, os tribunais populares, as investidas nocturnas, as listas publicadas nos jornais, as expulsões e saneamentos com justa causa. Era o tempo em que Pol Pot, Mao, Estaline e Enver Hohxa engalanavam as paredes da curibeca da menina Pinto. Depois, com o Thermidor de 75, moderaram-se-lhes os gestos e as fúrias psicóticas, mas permaneceu latente o mesmo espírito calabrês.



A menina Pinto é, aliás, uma excelente angariadora de votos para o NÃO. Revelando-se as manhas, as investidas de cernelha e os maus fígados, ficamos deslumbrados pelo entusiasmo com que tal troupe aliena parte importante de um eleitorado equilibrado, sensato e moderado que até poderia votar no SIM. Esperemos que a menina Pinto continue, imparável. Que se dê voz, rádio, televisão, jornais, parangonas. A extrema-esquerda é um presente caído do céu no arroz doce com que o NÃO festejará a vitória na noite de 11 de Fevereiro.


Vai um bloody Mary ? Cheers !

25 janeiro 2007

País do garfo, da bandeja e do naperon



Aqui não há feiras de indústria, comércio e serviços, não há marcas portuguesas internacionalizadas, não há invenção, investigação científica com aplicação tecnológica. As câmaras municipais, prevendo a morte das actividades produtivas, estão-nos a transformar num baldio Massai para o nicho do turismo selvagem. Não há indústria mineira, como também não há agricultura, trocada em jeeps e apart-hotéis pelos fundos corruptores da PAC e do desinvestimento. A província limita-se a oferecer "percursos temáticos" e "percursos pedestres" para putativos turistas de fim de semana, mais "turismo de habitação" em ermos para anacoretas, mais artesanato local, rude e infantil como lavores de escola primária. Aqui há velhos sentados ao sol, anos a fio, vendo passar os carros, velhotas de negro espantando o tédio nas janelas de casinhotos semi-arruínados, cães cheirando e esgravatando restos.
O centro nevrálgico das aldeias, dos vilarejos e cidadezinhas congeladas no tempo é o café onde a maldita televisão despeja decibéis com esfuziante mediocridade de futebol e programecos que enchem manhãs e devoram tardes na expectativa da tal novela. Pela noite, por toda a província, abrem-se as luzes do alterne. Ao longe, no betão e no asfalto, passam em velocidade supersónica os camiões de Espanha em direcção ao Corte Inglês, às grandes superfícies e mesas dos portugueses suburbanos do Cacém, da Amadora, da Cruz de Pau, do Barreiro e de Setúbal. Dizem que por aí vem o TGV e o novo aeroporto. Sim, mais turistas de baixos recursos à procura do tal mel silvestre, da bonecagem tosca dos barros e das cortiças, dos tintos carrascões, dos pastéis de bacalhau e das tascas de maõzinha de coentrada, das migas e das moelas de cebolada. Creio que daqui a duas gerações só haverá duas profissões registadas: criados de servir e proprietários de tascas.
Os Portugueses ainda não descobriram o capitalismo, a iniciativa individual , o atrevimento de ousar, a liberdade de correr riscos. Enquanto tivermos alma de criadas de servir, enquanto persistirmos em fugir ao que é e ao que mundo de hoje nos exige; enquanto persistirmos na ilusão de um país pacato, sonolento, aqui e ali agitado pela ganância agiota dos banqueiros, dos patos-selvagens e dos almocreves do lucro imediato, seremos o que somos: um país de velhos e velhotas à espera da morte, de futebóis, de novelas e de alguns aventureiros dos negócios, da especulação compra-para-vender, da política politiqueira e de tudo o que nos reduz a isto !

24 janeiro 2007

Da melhor prosa doutrinal e do melhor serviço das ideias

1 Sub specie civilitatis, em Je Maintiandrai
2 Intervencionismo moralão, em Da Literatura
3 Carreira das Índias, um blogue indispensável
4 A Apoteose da Vontade, por André Azevedo Alves

Lebensunwertes Leben


Ouvia ontem uma maltrapilha intelectualóide - feíssima e intocável, por sinal - dissertar sobre a propriedade do [seu/dela] útero, quando me dei conta da escandalosa similitude entre a defesa do aborto e as teses do sr. Karl Binding, o vate da eutanásia moderna, inspirador da cultura de morte dos nazis e do seu sinistro programa T-4.

Em Die Freigabe der Vernichtung Lebensunwertem Lebens, literalmente Licitude na Eliminação da Vida que não Merece Viver, arrumava-se a moldura que permitia matar um doente sem que este fosse interpelado e sem que daí decorresse qualquer remorso, sanção e inibição para o perpetrador da morte misericordiosa. Para cumprir todos os requisitos de contemporaneidade, apelava-se a uma "peritagem médica" (um médico e um psiquiatra), a uma "peritagem jurídica" (um jurista) e ao vox populi expresso por um comité de jurados.
Sei que a interrupção da gestação é um crime aos olhos da deontologia e do juramento de Hipócrates, que o aborto não é, nunca foi, um "acto médico", que a gestação não é uma doença e que a decisão de abortar - dolorosa, sem dúvida - é produto da vontade de quem o quer praticar. Tenho medo - e há já sinais claros que tal se vai realizar - que o avanço do abortismo abra portas a todas as formas de eugenismo, suicídio assistido e demais práticas de eliminação. Chegaremos ainda ao tempo em que a velhice será encarada como uma doença, pelo que surgirão defensores da legitima destruição dos velhos imprestáveis. Neste admirável mundo da opinião e da vontade combate-se a pena de morte - justíssimo - mas esta passa a ser aplicável a criaturas que não transportam qualquer dívida e culpa para com a sociedade. No fundo, não há crime nem criminosos. É tudo uma questão de capricho, decisão, liberdade individual e utilidade social.

Vá, vão aos hospitais psiquiátricos e matem todos os doentes mentais; vão às escolas de ensino especial para autistas, trissomáticos, surdos-mudos e paralíticos cerebrais e matem-nos a todos; entrem portas adentro nos lares para idosos e aliviem-lhes a dor de existir com uma injecção de fenol. Ripostam os defensores da morte assistida dos fetos que estou a fazer "amálgama". Não, pois que estas são, todas, derivações do mesmo desrespeito pelo acto de existir.

23 janeiro 2007

Domingo sangrento


APOCALYPTO: verdades e inverdades
O meu Domingo foi sangrento. Fui ao Apocalytpo. O escândalo que Apocalypto carreia não reside, evidentemente, naquela estúpida, banal e desleixada violência sangrenta com que Mel Gibson ocupa o enredo das suas fitas. Já a havíamos presenciado em Brave Heart e Jesus Cristo, como a vemos espalhada por toda a cinematografia para multidões pouco dadas a subtilezas. No fundo, Gibson é o homem comum, de hoje e de sempre - de Babilónia, de Roma, de Cartago e de Nova Iorque - ávido por sensações fortes não elaboradas, convencionais e previsíveis. O seu encanto reside, precisamente, na linearidade e segurança com que manuseia o conhecimento do homem comum - opinativo, moralista, maniqueísta, seguro e assertivo - sobre temas por todos conhecidos, sem ter de se arvorar em divulgador; logo, Gibson é "como nós", pela sua voz escoa-se a "nossa voz", os "nossos valores", as "nossas certezas". No fundo, evoca o mágico folhetim de Oitocentos, a capa-e-espada que todos liam em suspenso mas cujo fim era por todos ansiado e conhecido. É a banalidade burguesa em todo o esplendor.


Contudo, a fita não deixa de ser polémica, concitar debate ideológico aceso e permitir uma interessante revisão de lugares-dados da cultura esquerdista que se foi instalando desde a década de 40.


O primeiro, mau grado o anacronismo (a chegada dos castelhanos) é o da Leyenda Negra. Como me lembrou há dias o Professor Vasconcelos Saldanha, o principal veículo desssa lenda infamante da reputação ibérica foi Bartolomeu de las Casas, bispo de Chiapas e autor da tristemente célebre Brevíssima Relación de la destrucción de las Índias (1552). Las Casas era um louco, um mitómano e um obecado, um daqueles ardorosos pregadores cujo equilíbrio não resistiu ao calor dos trópicos. Infelizmente, à delirante safra de Las Casas não se apõe a leitura de Cabeza de Vaca, bem mais contido na descrição dos usos e costumes dos índios e observador atento das suas práticas. As sociedades ameríndias - sobretudo aquelas que atingiram culminâncias de complexidade, vida urbana e organização pré-estatal e estatal - assentavam na depredação, na escravização, etnocídio sistemático dos seus vizinhos e devastação ambiental. Quando Cortez desembarcou no México, teve de imediato ao seu serviço senhores e reinetes de tribos subjugadas, chacinadas e atormentadas pelos Astecas. Quis a lenda edílica das "sociedades perfeitas" - ah, como Marx deixou sulco, como tantas Ruth Bennedict continuaram a contar mentiras douradas até aos dias de hoje - fazer crer que a raíz do descalabro das civilizações pré-colombianas fora a chegada do bandido branco. O branco levara o tifo, a gonorreia, a sífilis, os tormentos do chicote, das grilhetas, do trabalho e da alienação a povos pacíficos, "naturais", livres e sábios. Para os sonhadores desse paraíso realizado, os Maias seriam o epímote de uma sociedade de matemáticos e astrónomos onde o saber era a virtude cardeal.


Um outro aspecto que merece discussão prende-se com a formação do realizador. Sendo Gibson um católico tradicionalista, algumas das suas preocupações sobre a sociedade contemporânea fazem eco de uma estrita interpretação da Bíblia e da ideia de um pacto com Deus, cuja desobediência incorre na ira divina. Os sacerdotes maias fazem o retrato perfeito dos idólatras e das "falsas religiões" que abundam no Antigo Testamento: seres cúpidos, arrogantes, mentirosos e manipuladores ( o sorriso do sacerdote perante o medo da multidão em pleno eclipse solar) desconhecedores dos mandamentos pela prática de "coisas terríficas". Para Gibson, a cidade Maia é uma Sodoma e uma Gomorra, condenada, doente e votada ao desastre pela desobediência ao plano de Deus para os homens. Esta piedosa perspectiva pode fazer as maravilhas de um público mono-cultural, mas esconde a complexidade da evolução do cristianismo primitivo - com a sua longa genealogia de sínteses e aproximações a outras religiões idolátricas - e, também, a evidência de ter sido o cristianismo, desde a sua génese, um fenómeno urbano. Aqui nasce a contradição. Se a cidade maia era a quinta essência da perversão e da desobediência à lei divina, por que razão elegeu Gibson como herói um selvagem ? O "bom selvagem" - justo, respeitador da natureza, monogâmico, bom pai, valente e bom camarada - pratica a religião natural. Se está intocado pela peste do vício urbano (sem mercado, sem Estado e sem propriedade) pode até ser um "cristão inconsciente"; logo, passível de salvação pelos actos e intenções. Mas vendo tudo aquilo, o poder abstracto que faz da religião maia uma "religão complexa", aproximamo-nos mais dessa forma de viver a religião. Em suma, Gibson encontra-se dividido entre o impulso do deserto dos anacoretas e a aceitação da boa-nova, que salvará in extremis a todos, pecadores, impuros e criminosos por atacado com justos e bons.
É um filme de "direita", sem dúvida, o reflexo do lento apagamento de uma sub-cultura popular de esquerda que dominou os ecrans desde os anos 60 e que teve, no género, um último e grandioso assomo de vitalidade em A Missão, de Roland Joffé.

Lançamento do livro do BdN: hoje às 18h30 no Hotel Tivoli em Lisboa


Realiza-se hoje o lançamento do livro do Blogue do Não, que reúne os textos mais relevantes das suas primeiras dez semanas da vida. O livro terá apresentação de Maria do Rosário Carneiro e Francisco Sarsfield Cabral e a sessão decorrerá no Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade, Lisboa), às 18h30.

22 janeiro 2007

Führerismo, autofagia e ficções delirantes


Aquilo anda em polvorosa pelas bandas do Partido Popular. Fazendo jus a uma das mais acarinhadas tradições da direita aborígene - a guerra civil, os ódios de estimação e as devastações automutiladoras - o quase defunto partido do Caldas esgota-se em querelas bizantinas, vaidades irritadas, cegueiras suicidárias, venenos de Locusta, defenestrações e autos-de-fé. Há uma tendência congénita nesta direita nativa em acertar o passo com causas perdidas, atitudes odiosas e gestos grosseiros. Assim foi. Os melhores, aqueles que escolheram o caminho longo do estudo e do saber, foram [sempre] preteridos pelos impulsivos, pelos irracionais e pelos intriguistas.



Desde os tempos do Senhor D. Miguel que a direita portuguesa dá mostras da mais refinada imperícia, da mais alarve estupidez, da mais supina arte da demissão da inteligência e exaltação do chocarreiro analfabetismo. Lembro que as vozes mais perspicazes, os cérebros mais trabalhados e os homens mais sensatos - aqueles que podem lançar pontes, refazer o quadrado, certificar o discurso, ensinar os rústicos - sempre receberam o salário da dor e do desprezo daqueles por quem deviam pensar. Lembrei aqui há dias o 2º Visconde de Santarém, demitido em 1833 das funções ministeriais que ocupava por haver ousado sugerir que a causa tradicionalista estava votada a perder aquela guerra civil e, portanto, que se impunha negociar e impedir a débacle que se veio a dar volvido um ano.


A história da direita portuguesa é a crónica infinda de partidos, partidinhos, partidecos, movimentos, associações e grupúsculos nascidos uns dos outros, uns contra os outros, todos contra todos. Repetem o mesmo há século e meio - os mais actualizados sonham com Salazar, os mais coerentes com o Trono e o Altar, os mais iletrados aspiram ao Centro, que não é ideologia nem coisa alguma - mas em todas expressões desse imenso desastre, abstraindo as ideias - infelizmente bem poucas, de pouca valia, datadas ou ridículas na forma escolhida - há o mal português.


O portuguesinho, assim que afivela a pequena molécula de poder simbólico, assim que se senta na mesa e aparece na tal lista, sente-se um pequeno césar. Como não tem o poder, simula o poder intra-muros. Conheci, nas minhas andanças, muitos Mussolinis de trazer-por-casa, muitos Hitlers de café, muitos Salazares de papelaria, muitos Estalines de pantufas. Ali não há uma ideia, um discurso, uma frase escrita, um texto publicado, uma profissão aplaudida. Fulanos cheios de si, redondos de presunção, medíocres arrogantes e confusos, só fazem aquilo que as débeis circunvoluções permitem: arremeter contra uma bandeira, um trapo ou uma palavra, explodir em iras de hospital psiquiátrico contra tudo o que desconhecem, cultivar ódios contra pessoas que nunca viram. Faz-lhes falta a tal bibliotecazinha caseira, faz-lhes falta saber o que vale uma profissão certa e decente, trabalhar 10 horas por dia, experimentar mundo, um passaporte carimbado, uns museus e, sobretudo, um pingo de humildade.