12 janeiro 2007

Tribo Branca outra vez




A minha irmã Ângela ultrapassou-me, decididamente, no resgate da memória dessa África Portuguesa que tantos teimam em denegrir. Anti-colonialistas ferrenhos, pois africanos portugueses, custa-nos que tantos pataratas continuem a opinar sobre aquilo que nunca viram, viveram e sentiram. A Ângela volta a reabrir o dossier Tribo Branca da África Austral. Por mim, voltarei à carga com um novo seriado, destarte refazendo a memória dos anos de chumbo de 1973-1980, a que darei o nome de A Tribo Branca no Exílio.

Esqueçamos Goa e Macau e ataquemos em Nova Delhi e Pequim


Um dos erros mais insistentemente praticados pela diplomacia portuguesa assenta na errada avaliação de perspectiva com que nos sentamos à mesa com indianos e chineses. Presumimos que a importância conferida a Goa e Macau na história portuguesa é simetricamente correspondente ao lugar que as mesmas ocupam nas histórias indiana e chinesa.


Se continuarmos a cultivar tal erro de perspectiva e escala - ferindo, gratuitamente, os nossos interlocutores, como nos sentiríamos feridos se ambas as potência se relacionassem com Portugal através de Vila Real de Santo António ou Ermesinde, caso as duas cidades tivessem sido um dia chinesas ou indianas - corremos o duplo perigo de sermos mal educados, ameaçando inutilmente o estatuto de que Goa e Macau gozam nas constituições chinesa e indiana, bem assim como levantarmos entraves à mobilidade de futuras investidas dos empresários portugueses.


Chineses e indianos sabem à saciedade que Portugal foi diferente, mas tal não significa que o devamos lembrar em cada minuto. É ridículo, é insultuoso e é negativo para novos entendimentos. Nunca nos aproveitámos da vulnerabilidade de uma e doutra para ganhar vantagem territorial em períodos não muito distantes em que bastava uma canhoneira varejar pelo fogo de repetição uma cidade para, ipso facto, se impor um tratado desigual, concessões comerciais e até cedências territoriais. No caso da Índia, bastava que nos tivessemos associado aos britânicos no esmagamento da Revolta de 1857-58 para recolhermos o fácil quinhão. No que toca à China, bastar-nos-ia integrar uma das "expedições punitivas" - das muitas que invadiram, saquearam e violaram o Império do Meio - para vermos alargados os limites de Macau e deitarmos para o caixote do lixo o estatuto da soberania partilhada que aí conseguimos manter ao longo de quatro séculos.


A Índia e a China são grandes potências, mas por razões psicológicas preferirão encontrar interlocutores ocidentais de pequeno e médio porte a terem de conviver com países que os dominaram pela espada e pelo bastão. Um indiano tem sempre, queira ou não queira, uma relação de ex-colonizado com um britânico. Os indianos nunca esquecerão o Raj britânico, mesmo que saibam que, sem a colonização, a Índia - uma grande ficção - jamais seria uma União, mas uma manta de retalhos de pequenos Estados divididos pela língua, pela religião e querelas intraregionais. Os chineses, por seu turno, olharão sempre com alguma e mal escondida inferioridade para quem os obrigou a mudar o seu mundo.


A Índia e a China têm ambições de influência e protagonismo fora do quadro regional em que se situam, nomeadamente a Ásia do Sul e o Extremo-Oriente. A Índia quer ver a sua influência projectada em África, tal como a China. Neste particular, não contem os nossos empresários com a bonomia e compreensão desses intrusos perante quaisquer "razões históricas" que possamos invocar a respeito de Angola e Moçambique. Porém, se formos capazes - isto é, se alguma luz e bom senso se fizer nas cabeças de governantes e empresários portugueses - poderemos obter algumas parcerias estratégicas importantes no processo de fixação de interesses indianos e chineses em África. Paralelamente, o mesmo poderia ocorrer em relação a Timor, ao Brasil e, até, no espaço comum europeu em que nos movimentamos sem grandes entraves.


Trabalhar pela preservação da identidade de Goa e Macau implica não as misturarmos com as relações bilaterais com os dois Estados em que os enclaves se situam. Preservar Goa e Macau envolve as fundações, o Instituto Camões e o IPOR e demais instituições públicas e privadas vocacionadas para a cooperação cultural e científica. Mas, por favor, não voltem a falar de Goa em Nova Delhi e Macau em Pequim. Não estraguem a vida aos goeses e macaenses, nem estraguem a vida aos empresários portugueses.

11 janeiro 2007

Aqui ganhei um lugar no Céu




Foi precisamente neste local, há 3 anos, que ganhei a melhor terminação para entrar no Paraíso em tapete florido. Foi na "Aldeia Cultural" do Camboja, uma feira lembrando os parques temáticos do folkish europeu da primeira metade do século XX, incluindo zoo humano com amostras de espécimes vivos caçadores, pescadores, lavradores, dançarinas -as famosas apsara khmers - e funâmbulos, bem como interminável galeria de figuras de cera sem graça e sem vida. Só lá falta a segunda maior atracção do país, logo a seguir, claro está a Angkor Wat, que dista cinco ou seis quilómetros. Falta a reprodução em cera, se possível no leito de morte, do carniceiro do Camboja, uma simpática e sorridente criatura que das Franças trouxe ódio quimicamente puro, adubado generosamente em marxismo-leninismo: Pol Pot.


Voltemos ao meu passaporte carimbado de aspirante a bem-aventurado. Estava ali naquelas escadas a tirar umas fotos, quando olhei para água barrenta e vi uma criança de colo a debater-se pela vida. A mãe, completamente histérica, dava verdadeiros guinchos de aflição, tão agudos que mal se ouviam. Duas velhas, impávidas, olhavam para aquele drama julgando tratar-se, eventualmente, de uma das rábulas que se vão realizando ao longo do percurso da visita. O miúdo, que teria um ou dois anos, lá desapareceu por fim na sopa malcheirosa. Eu tinha uma máquina cara, as calças acabadas de vestir, sapatos reluzentes, óculos escuros novinhos e um relógio acabado de comprar numa fábrica de contrafacção especializada em "cópias autênticas". A minha parte burguesa disse-me: "vá, não saltes, não estragues o dia". A minha costela de Martim Moniz falou mais alto e atirei-me para aquela balbúrdia de limos, barro, sapos e outras coisas que nem me passam pela cabeça. Salvei o miúdo, devolvendo-o à mãe, que se desfez em orações. Ao sair da fétida sopa, ouvi uma ovação. Eram uns trinta americanos que batiam palmas. Gente enorme, gordíssima, camisas floridas, pernas leitosas e chapéus de palha. Fiquei atónito. Aquela gente sempre estivera ali, não se movera e, por fim aplaudira. Um dos paquidermes acercou-se e disse: "amazing show". Foi nesse momento que compreendi que, durante dez seguntos, trabalhara para o certame. Que o miúdo se salvara, o que importa ? O importante foi encher de entusiasmo aquela mole de miúdos de 50 e 60 anos, mais as rotundas bifas vestidas com aqueles incríveis balandráus XXL.

Nas livrarias já na próxima semana

Blogue do Não em livro.

10 janeiro 2007

A Força do Destino

Quer ver quintuplicadas as visitas ao seu blogue ?


Lento de raciocínio, só agora me apercebi da existência de arcanos libidinosos que empurram para culminâncias estratosféricas alguns blogues da praça (vide Blogómetro). Quer a receita ?
Pois, para garantir plateia cheia, semeie com discreto empenho palavras como gatas, lolitas, mulheres, naked, sex, sexo, sexual, sexuais ao longo de textos anódinos - literatura, filosofia, belas-artes, política - e verá coroado o empenho com que se entregou à devoção de tão respeitáveis actividades do espírito.

Há muitos anos conheci um fulano - editor experimentado que dizimara fortuna até se resignar ao apelo da evidência - que me afirmou encontrar-se o sucesso de uma obra no título e na capa. "Pois, se V. quer que a plebe leia boa literatura, escarrapache-lhe no título algo que a interpele directamente no centro de gravidade das suas magnas concupiscências e aproveite a oportunidade para lhe juntar uma suástica. O sucesso é garantido, mesmo que se trate de um tratado de Wittgenstein, Popper ou Kuhn".

09 janeiro 2007

Matar o que se ama


Acabou, finalmente, a saga da Bíblia Hebraica furtada por Michel Garel na Biblioteca Nacional de França. Vendida em 2000 por uma respeitável leiloeira a um incauto bibliófilo, foi devolvida ao legítimo proprietário (o Estado francês) após duras negociações com o aquisitor. Michel Garel, um respeitado hebraísta, era conservador da valiosa colecção de manuscritos hebraicos, pelo que tinha acesso aos reservados da BNF sem quaisquer restrições. Homem circunspecto, senhor do seu conhecimento e detentor de obra apreciável, invocava ainda pergaminhos familiares de "filho de Resistente"- uma quase nobilitação laica em França - e sobraçava a vice-presidência de uma importante instituição de apoio à infância. Preso, acusado e comprovada a autoria das malfeitorias lesa-património, penou dois anos numa penitenciária. Regressa à liberdade pobre, desconsiderado e coberto de vergonha.


Caso análogo terminou há meses no Reino Unido. Norman Buckley, assistente da Biblioteca Central de Manchester, terá furtado 250 obras, vendendo-as de seguida através da internet. No acto de detenção foram descobertas no seu apartamento outras tantas preciosidades prontas a seguir a sorte de muitas que jamais retornarão aos depósitos. O criminoso recebeu pena leve.


A mesma sorte não teve, entre nós, António de Faria Ataíde e Mello. Bibliotecário erudito e autor de minuciosos catálogos ainda hoje compulsados por investigadores medievalistas, devastou durante anos as colecções da Biblioteca Nacional portuguesa, mutilando raros códices iluminados, recortando-lhes as capitais e vendendo-as no circuito de alfarrabistas e coleccionadores de raridades bibliográficas. Descoberto, foi preso, expulso da função pública e sentenciado. Suicidou-se por enforcamento na prisão, em finais da década de 40. Esta novela rocambolesca dava um romance ou uma fita, mas constitui rica matéria para reflexão.
Como pode um homem apaixonado por livros, aos quais dedicou toda a vida de labor e canseiras, destruir aquilo que ama ? Como pode um apaixonado matar, mutilar e vender ao desbarato o objecto do seu amor ? O ser humano é um indecifrável enigma. Repreendia-me há tempos um amigo pelo meu casmurro pessimismo a respeito das pessoas. Ora, para fazer um criminoso, retorqui-lhe, é tudo uma questão de local e oportunidade. É por isso que julgo preferível controlar as pessoas, dar-lhes liberdade caucionada e nunca lhes permitir qualquer sentimento de impunidade. A ocasião faz o ladrão, pelo que qualquer homem - Cardeal, juiz, comissário da polícia ou ministro - deve saber que, sobre ele, até prova em contrário, existe uma lei capaz de o levar à prisão. Não se trata de uma questão cívica. As leis servem para impedir o crime, pois o crime está latente dentro de cada homem. É o que é: sou um incorrigível conservador.

Salomão Nunes de Carvalho

No Grand Monde, o caleidoscópio do velho mundo renascido.

07 janeiro 2007

Ricos e mal agradecidos

Via hoje a estafadíssima mesa redonda da Clara Ferreira Alves e folgazões quando dei comigo a pensar nesta gente maledicente, rezingona, escarninha e arrogante: são ricos, desocupados, bem integrados nas linhas de elogio e promoção, detestam Portugal e odeiam ser portugueses, são de esquerda com certeza, nasceram com o rabo para o sol e ainda protestam. Assim não custa ser protestatário !