03 dezembro 2007

Victoria's Wars


Embrenhado no estudo da história do Sião nos umbrais da contemporaneidade - i.e, da formalização da identidade de um Estado asiático moderno à luz das concepções de soberania, tradição e nacionalismo importadas do Ocidente de Oitocentos - não deixo de acompanhar lateralmente o vertiginoso ritmo editorial de bibliografia dedicada à res asiatica, surpreendendo-me a cada passo pela qualidade, profundidade e actualidade das matérias contida nos títulos que me vão chegando às mãos. É sabido que tais temas não interessam à generalidade dos nossos leitores, nem aos académicos, nem aos decisores políticos. Não fosse o labor de três ou quatro reputados estudiosos dessas questões - Jorge Flores, Vasconcelos Saldanha, Luís Filipe Tomás, Maria Ana Marques Guedes - e para nós, portugueses, esse momento axial da formação do mundo globalizado passaria à margem, tão afanosos andam os nossos historiadores agarrados às minudências de catarpácios dedicados às lutas sociais nas campinas e lezírias do Ribatejo em finais do século XVIII, ao estatuto da mulher camponesa na Vidigueira de 1930, aos cacos de barro encontrados numa herdade de Castro Verde ou à problemática das "lutas femininas" e do "medo do falo" nos contos populares. Tudo questões relevantíssimas, destinadas à poeira das bibliotecas ou à aprovação de uma tese que não altera uma molécula que seja no minúsculo e tristonho ambiente da Universidade Portuguesa.



Devoro neste preciso momento a mais recente obra de Saul David, autor de grande fôlego que já conhecia de um admirável Indian Mutiny e de um arrebatador Zulu. O autor tem-se especializado em questões de história militar britânica, nesse preiamar do imperialismo e do colonialismo que catapultou a Velha Albion victoriana para a posição de império mundial. Tenho mudado de opinião a respeito dos britânicos. Vira-os, durante muito tempo, intoxicado pelo despeitado francesismo ou pelos ecos do republicanismo saloio, como um povo de piratas e aventureiros ávidos e sem pingo de respeitabilidade; a velha tese posta a correr desde os tempos de Napoleão, de Hitler e Estaline, ou seja, dos continentalistas sem visão do mundo. Nestas Guerras Victorianas abre-se-nos em visão panorâmica o cadinho de lutas em que os britânicos se envolveram, da Crimeia à Índia, do Afeganistão à China, ao Sudão à Birmânia para imporem a sua Pax, mas sobretudo a concepção de um mundo aberto ao livre comércio e a ideia de uma comunidade internacional fundada na aceitação de uma cultura diplomática e de um direito internacional que tornasse possível evitar os conflitos armados. Sei que os britânicos - quem não teve pecados no tribunal da História ? - exorbitaram dessa força, que cometeram massacres, desencadearam guerras de agressão não provocadas, que exploraram até às últimas consequências as vantagens da metralhadora (e até do avião, no Iraque dos anos 20) para se apossarem dos pontos vitais por onde passava o comércio e a riqueza mundiais. Mas fizeram-no por uma ideia que veio a triunfar. Fizeram-no, também - preconceitos à margem, racismo à margem - em sintonia com o espírito do tempo. Nesse particular, a força do imperialismo britânico foi, aceitemos ou não, o artífice da globalização da ideia de Estado moderno, da imposição de elites urbanas e letradas e, até, das independências. Sem essas guerras, sem esse grande império, o mundo teria sido diferente, autárcico, fragmentário, regional.


Elgar: Pompa e Circunstância, 1

Sem comentários: