18 dezembro 2007

Os nossos "cães de guarda"


Já nos havia bastado a inépcia dos missionários gauleses para a Ásia expedidos pelo Rei Sol - que aqui semearam sizânia q.b. - para nos vermos livres da concorrência dos pregadores da Boa Nova. Porém, em inícios do século XIX, com a Europa em cinzas e parte das colónias europeias asiáticas ocupadas manu militari pela Union Jack, a London Missionary Society, mas também a American Board for Foreign Missions, começaram a querer reescrever a história do cristianismo na Ásia, mudando-lhe o registo e procurando impor a gramática de Lutero, Calvino e toda essa turbamulta de iluminados que convencionamos crismar como "protestantes". Gente sem qualquer preparação, fanática, intolerante e perfeitamente indiferente ao meio, começou a demandar a China, a Insulíndia e o Sião. É evidente que nada conseguiram, mas do seu porfiado como vão esforço ficaram relatos e memórias desses pregadores do "Gospel"que merecem a maior atenção.
Leio presentemente um fantástico Early Missionaries in Bangkok: the Journals of Tomlin, Gutzlaff and Abeel 1828-1832 para melhor compreender esse outro vector da ocidentalização que foram (e são) as companhias missionárias protestantes. O título peca, infeliz, pela arrogância. Os "Early Missionaries" do século XIX chegaram, por sinal, bem atrasados à reunião: os nossos portugueses já cá andavam na pesca de almas há quase trezentos anos, conheciam a língua, os costumes e instituições e estavam tão envolvidos com a vida dos povos que eram, a um tempo, pregadores, funcionários, médicos, engenheiros e diplomatas ao serviço dos potentados. Que supino atrevimento esse de missionários ad hoc ao presumirem que aqui chegavam e, zás, num toque de mágica, manipular com as suas boticas e sangrias e com o arsenal de medos e apóstrofes, obrigar os gentios a abandonar a "idolatria". Ora, para nos darmos conta de quão entranhados estavam os portugueses nestas paragens, nada melhor que deixar o inimigo falar. O inimigo, neste caso, Jacob Tomlin, que chegou ao Sião em 1828 e foi confrontado, no primeiro encontro com as autoridades siamesas, com o comandante do porto de Banguecoque - um "português", isto é, um católico - e, logo de imediato, com o Praklang/Barcalão [Ministro dos Exteriores], bem assessorado por "portugueses". Nada melhor que um naco de deliciosa prosa para elucidar os nossos leitores:


"Sabbath August 24 th, 1828: "I called Mr. Hunter and went with him to the Captain of the Port. He is head of the Christians residing in what is called the Christian Campong. (...) He speaks a sort of Portuguese English, seems a mild, candid, inteligent spirit (...). We went together to the Phra Klang's and found him sitting on a bamboo platform in the corner of a carpenter's shop contiguous to his house. Gutzlaff was already there. The Captain, who interprets, with several other Catholics, sat crouching behind us like dogs".


O elogio não cabe na letra das palavras. Sim, os católicos "portugueses" eram os cães, mas os cães de guarda do Sião, impedindo qualquer cedência e qualquer manipulação. Acresce que, conhecendo o país ou sendo dele naturais, cumpriam as regras da etiqueta, coisa que não passava pela cabeça dessa gente recém-chegada das pocilgas dos portos londrinos. É evidente que nada conseguiram. Regressaram, cheios e desculpas, aos portos de onde haviam partido. Os portugueses", que aqui já estavam há trezentos anos, aqui permaneceram. Hoje, os 500.000 católicos tailandeses são a memória dessa presença.

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