23 dezembro 2007

O jovem idealista e o dragão da plutocracia



Hoje é dia de eleições na Tailândia. O confronto opõe o Partido Popular (PPP), dirigido por uma personagem de terceira fila, mandarete do deposto primeiro-ministro Taksin - exilado em Londres - e o Partido Democrático, dirigido pelo jovem Abhisit Vejjajiva. O retorno à democracia carrega, resrvados prognósticos quanto ao futuro imediato do papel que caberá ao Rei, até hoje árbitro e referência obrigatória. Taksin Shinawat, o mais rico homem do país, pretende regressar se o PPP obtiver maioria no parlamento. Afastado do poder por um golpe de Estado, tem manobrado nos arcanos, abrindo imensa saca de dinheiros para comprar candidatos e apelar à reforma profunda da vida política nacional, o que aqui quer dizer - sem o dizer - retirar protagonismo e peso à instituição real. É o velho choque entre o poder da tradição e o poder do dinheiro. Taksin quer, todos o sabem, diminuir a intervenção da coroa e, quiçá, vir a colocar-se como putativa alternativa à monarquia. O grande capitalista dá-se ares de preocupações sociais. De discurso populista e demagógico, os candidatos do PPP apontam baterias à "aristocracia conservadora", às Forças Armadas e ao Funcionalismo do Estado, acusados de monopolizar e perpetuar o peso do aparelho do Estado. Contudo, a história recente tem-no demonstrado, a possibilidade de retirar ao Rei prerrogativas envolve tremendos perigos para a unidade nacional, tanto mais que a Tailândia é um puzzle de etnias e religiões e qualquer mudança tendente a concentrar poder num sector da sociedade civil far-se-á em detrimento da harmonia conseguida ao longo de 50 anos de intervencionismo do actual Chefe de Estado. Anteontem fui às compras e cruzei-me com Abhisit em plena rua. Pedi-lhe que me deixasse tirar uma fotografia. Sorriu e, com afabilidade, perguntou-me de onde era. É o típico quadro superior da urbana, educada e influente classe dirigente que cerra fileiras em torno do Rei. Este jovem idealista, que fala de pátria, unidade nacional, justiça e desenvolvimento sustentado é o oposto de Samak, o homem de Taksin, uma figura truculenta, maciça e agressiva cujo passado carrega o mais reservado juízo a respeito da seriedade com se entrega à vida pública. Samak foi ministro do interior em 1973 e foi sob ordens suas que milhares de estudantes foram presos e massacrados no campus universitário. Depois, foi governador de Banguecoque e o desempenho saldou-se por um fiasco clamoroso. Ultimamente rendeu-se à munificência do Midas tailandês e por ele fará tudo para ocupar um lugar, por sinal bem triste, numa eventual reviravolta dramática da vida deste país.

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