21 janeiro 2014

O carnicão



Ontem falou-se ao jantar em Cavaco, cavaquismo, cavaquistas e outras questões de relevância equivalente. O ardor com que alguns investem na matéria deixa-me surpreso, tão indiferente e incólume me deixou quando a questão se revestiu de alguma novidade que agora é, permitam-me o atrevimento, um mero passatempo para o aparelho fonador. Nunca compreendi, desde a sua génese, o que foi, era ou é o "cavaquismo". Lembro, sim, aquele tropel de gravatismo sem ideias, de arrogante galga trepadeiras, de arrazoado economês, de meninas retocadas como Barbies brincando ao business, da moda das gestões e dos marketings, do desprezo pelos ofícios produtivos que acometeu uma geração inteira de meninos convertidos à pragmática do terciário colarinho branco, do boom dos cartões de crédito, do ter um carro, um apartamento numa "nova urbanização" a toda à pressa para exorcizar séculos de caminhos pedregosos no dorso de mulas, da jogatana desenfreada da bolsa e dos milagres da D.ª Branca. Lembro, sim, que essa gente cuspia na cultura, na literatura e em tudo o que nobilita um ser humano adulto afirmando, sem rebuço, que tudo tem um preço, um lugar no mercado e um "nicho de consumidores". E como o povo, embrutecido, iletrado e incivilizado pedia futebol, telenovelas, viagens ao Brasil e jet-7, fez-se-lhe a vontade. Se o Portugal do antes do cavaquismo era terceiro-mundista, acendia velas à inveja, à pinderiquice socialistóide e se comprazia em exibir mulheres de buço e o lumpen de mão estendida à caridade do Estado, os dez anos que medeiam entre 1985 e 1995 - mais o cavaquismo piegas de Guterres que se lhe seguiu - diluiram a cultura cívica, dinamitaram a respeitabilidade das forças fáticas, instituíram uma cultura de direitos - direito à riqueza, ao consumo, direito ao canudo - sem exigir trabalho, compeneração, esforço e qualidade. Muito daquilo que hoje se diagnostica teve a sua génese nesses anos de dourada promoção do nada em que Portugal, subitamente bafejado pela cornucópia dos fundos germânicos, preferiu as croissanterias, os jeeps e os aparthotéis à cultura da exigência. O cavaquismo é um velho carnicão. Está lá, ainda, seja em versão socialista, seja em "social-democrática". É um espinho cravado entranhado que nos vai privando, ano a ano, ao direito de sobrevivermos enquanto comunidade.

2 comentários:

José Domingos disse...

Nem mais. O sr silva, continuou a obra começada em 25A. O povozeco, esqueceu a miséria que os camaradas colocaram Portugal e começou o socialismo, com o dinheiro dos outros. Agora vieram as facturas e todos eles assobiam para o lado.

alberico.lopes disse...

É talvez o melhor postal ilustrado que alguma vez se escreveu acerca do cavaquismo!
Parabéns!