10 dezembro 2007

A gruta


Nem por encomenda se poderia ter em Lisboa, dias a fio, com tamanho estadão, a fina-flor do entulho dos ditadores, cleptocratas, genocidas e demais benfeitores da humanidade. O tal "espírito de Lisboa", que João Gonçalves, sem dúvida o maior polemista da actualidade tão bem tem captado é, afinal, a rendição da Europa à estulta como ingénua pressuposição que tal gente, de mãos tintas de sangue, se converterá ao "diálogo", à "tolerância" e aos preceitos que a ética democrática ocidental inscreve no frontão do templo da Liberdade. Os ditadores, se de esquerda, têm sempre atenuantes. Lembro a vergonhosa adulação com que Tito, Ceaucescu, Samora e Castro eram recebidos nos areópagos internacionais, como lembro também, a oposta recepção que era feita aos "ditadores incorrectos": Pinochet, Mobutu, Marcos e Suharto. Nisto há dois pesos e duas medidas. Os mortos de esquerda triplicam em valor os mortos de direita; as vítimas da esquerda são vítimas do "processo histórico", enquanto as vítimas das direitas são "mártires da Liberdade". Lisboa conseguiu, finalmente, transformar-se em gruta de Ali-Babá, com muitos ladrões e sem nenhuma vergonha.

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