20 dezembro 2007

A "fuga" para o Brasil: um exercício de história comparativa


15 de Novembro de 1940. Uma imensa frota composta pela totalidade dos efectivos da Royal Navy, deixa os portos da Grã-Bretanha, prevendo-se a sua formação em comboio nas imediações da Islândia. No navio-almirante da RN, o cruzador de batalha HMS Hood, seguem o rei Jorge VI e a rainha Isabel, enquanto o recentíssimo King George V transporta as princesas Isabel e Margarida. Os restantes membros da família real viajam em outros couraçados e cruzadores, assim como os soberanos e governos exilados da Holanda e Noruega. O primeiro ministro Winston Churchill, acompanhado pela família e por altas patentes da Armada, segue no Repulse, encontrando-se o gabinete de guerra britânico espalhado, também por razões de segurança, por outros navios.Couraçados, cruzadores, porta-aviões e todas as unidades menores e auxiliares são acompanhadas por centenas de navios de comércio, carregados de documentos, oficiais do exército, marinha e RAF, além do tesouro do Banco da Inglaterra. O destino é o Canadá, refúgio onde o legítimo governo estabelecerá a base para a continuação da guerra contra a vitoriosa Alemanha. As Ilhas Britânicas estavam na iminência de ser totalmente ocupadas pela Wehrmacht, após o sucesso do Adlertag e da Operação Leão Marinho. Centenas de quilómetros a sul, a esquadra do Mediterrâneo Ocidental, escapando à destruição no porto de Gibraltar, recolhia em Lisboa o governo de Salazar e o presidente Carmona. Acompanhada pela pequena mas recente esquadra portuguesa, tinha como destino provisório os Açores, onde a soberania seria mantida. Esta retirada tornara-se imprescindível pelo desencadear da Operação Isabella, que reunindo o exército espanhol de Franco e os efectivos alemães destinados à ocupação de Gibraltar e de Portugal, previa a transformação da Península numa base avançada do Eixo, fechando o Mediterrâneo e o Atlântico Norte à navegação aliada.

Era este um cenário possível, no caso do colapso britânico no Verão-Outono de 1940. A transferência do governo inglês para um outro território da Commonwealth, deixaria intactas as possibilidades quanto ao desfecho da guerra mundial iniciada um ano antes. Negando-se à rendição, não existia qualquer probabilidade de entrega forçada da esquadra e de qualquer território ultramarino, ao mesmo tempo que os Estados Unidos eram forçados a reagir à nova situação criada. Essa retirada, seria hoje encarada como um alto serviço prestado ao mundo e à causa Aliada e uma clara demonstração de firmeza e determinação. Podemos imaginar apenas o que escreveriam os historiadores do nosso tempo, mas decerto a avaliação não poderia deixar de ser positiva.

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Em absoluto contraste, temos uma vez mais a realidade portuguesa, que após 200 anos decorridos sobre a invasão franco-espanhola, ainda discute a conveniência ou o acerto da transferência do governo e corte para o Brasil, apodando-a muitos - os mesmos de sempre -, como fuga. Não se foge quando a bordo da quase totalidade esquadra real parte o governo em peso, a rainha e o regente com a família, o tesouro do Estado, a biblioteca real (que ficou para sempre no rio de Janeiro), documentos e bens de toda a espécie. Acompanhada por muitas dezenas de navios de comércio, a esquadra de guerra furtou-se à sua utilização por Napoleão. O príncipe regente e a família, símbolos da soberania, não vão negociar nem espolinhar-se aos pés do Corso. Chegado ao Rio, o soberano tem como primeira medida declarar guerra à França, guerra esta que se prolongará até à entrada do exército português em Toulouse (1814). Em toda a Europa, o presidente-coroado Napoleão I tinha manipulado, ofendido e humilhado os soberanos e as nações. Retalhara impérios seculares, criara novos Estados à medida dos seus interesses e da sua família. Espezinhara direitos adquiridos e violara todas as regras da diplomacia, levando Talleyrand a pronunciar a célebre frase ..."o que é excessivo torna-se insignificante"... Bonaparte estabeleceu uma tirania em todo o continente, impondo pautas aduaneiras abusivas, saqueando recursos dos países ocupados e estabelecendo a desigualdade como base de consolidação da França imperial. A política de destruição e de saque, acompanhada por todo o tipo de atrocidades sobre as populações era o quadro geral que se oferecia. Contudo, sempre houve quem entendesse ir ao encontro do invasor, procurando o entendimento possível que permitisse o exercício de um qualquer tipo de poder, por muito ilusório que fosse. Assim aconteceu com a deputação enviada à pressa a Baiona, prestando vassalagem ao conquistador que já tinha como refém o sogro do príncipe regente, o rei Carlos IV de Espanha. Cedendo e negociando, a Espanha sujeitou-se a todas as arbitrarieades imagináveis, tendo mesmo que suportar a colocação no trono do inepto José Bonaparte, arvorado em simples maire de Madrid com o pomposo título de rei da Espanha e das Índias. Numa época em que a honra ainda contava no âmbito das relações internacionais, o futuro D. João VI poupou-nos a tudo isto. No memorial de Santa Helena, Bonaparte acaba por reconhecer o fracasso da sua política no ocidente, quando viu frustrado o seu projecto de capitulação portuguesa. Nada surpreendente é a posição da generalidade dos académicos brasileiros, que julgam esta transferência da corte e governo de uma forma absolutamente positiva. Não se encontrando comprometidos com os interesses e "legitimações" dos regimes que têm vigorado em Lisboa, estabelecem a partida da família real como um marco imprescindível para a compreensão dos acontecimentos que, tendo garantido a sobrevivência de um Portugal independente, conduziram também à pacífica independência do Brasil. E nisto são inamovíveis. Os náufragos da putrefacta barcaça de 1968 encontram sempre motivos para o amesquinhar da nossa História. Desprezando o povo de que fazem parte, são eles, em suma, os principais responsáveis pela actual situação de ignorância, cobardia e desânimo vigentes. Do alto das suas pretensas cátedras, não ensinam: balbuciam lugares comuns, enraízam preconceitos. Intimamente, têm consciência da sua pequenez, não pesquisando e rejeitando todo o trabalho sério que possa abalar as suas periclitantes e rizíveis certezas. Destes, Portugal nada pode esperar. Não alfabetizaram, não despertaram um verdadeiro espírito científico nos estudantes e pior que tudo, são totalmente incapazes de construir a base mais sólida de qualquer verdadeira democracia: o espírito cívico. Estejamos ou não em desacordo com Mário Soares - como geralmente estamos -, há que reconhecer que tem sido a única figura pública a tecer comentários válidos acerca dos sucessos do Outono de 1807, assim como à histórica transcendência da decisão de D. João VI e do seu governo. A sua já longa vida, o sentido de oportunidade e, talvez, um certo renascer de um esquecido orgulho nacional, não o têm calado nesta época do Centenário. Não há dúvida que comparando-o ao nanismo mental vigente hoje em Belém e S. Bento, o homem parece agigantar-se, não perdendo qualquer ocasião para vincar aquilo que verdadeiramente interessa. Nem a sua paixão pela França parece fazê-lo esmorecer. Só lhe fica bem, mas espero que esta capacidade de discernimento lhe venha permitir fazer outro julgamento acerca de outro centenário que se avizinha: o do Regicídio. Esperamos para ver.

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