07 fevereiro 2014

A direita amiga dos inimigos


Há alguns anos, envolvido numa linha de investigação que se veio a revelar inconclusiva, pois dela não surgiu qualquer trabalho escrito, procedi na Biblioteca Nacional e na Hemeroteca a levantamento tão exaustivo quanto possível de jornais, revistas e panfletos de acentuadas cores anti-liberais, editados entre 1890 e 1930. Pretendia submeter o trabalho a editora que se pudesse interessar pela génese, raízes e desenvolvimento da Direita-Extrema portuguesa, cruzando-a com similares movimentos e correntes de opinião que pela Europa operaram a transição do nacionalismo liberal para o nacionalismo autoritário. Pretendia, também, compreender em que medida as correntes ditas tradicionalistas - monárquicas e confessionais - se haviam munido de novo arsenal organicista retirado do Positivismo para, assim aggionatas, fundamentarem o requisitório contra o mundo moderno do atomismo individualista, da representação inorgânica e da soberania popular. Cedo, porém, alterei o crivo da análise, esmagado pela indignação. Verifiquei, para meu espanto, que os maiores inimigos da Monarquia entre 1890 e 1910 haviam sido, na ferocidade da difamação, não os republicanos, mas os ditos monárquicos legitimistas que, se bem carregados de moralismo e "bons valores" não poupavam a adjectivação mais reles para lançar sobre a Coroa e seu titular sórdidas atoardas. Foi essa gente, mais tarde, já implantada a república, que da mesma forma procedeu contra o rei D. Manuel no exílio. Foi essa gente, anos volvidos, que deu largas à mais cavernícola selvajaria escrevinhadora contra os grandes arautos do modernismo português, não os poupando aos predicados mais soezes. E quem eram esses "judeus", "comunistas" e "depravados" na sábia opinião de jornalistas semi-analfabetos dos quais a história já não reza ? Ora, eram uns judeuzinhos, uns comunistazecos e uns sibaritas insignificantes chamados Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e António Ferro. Sei que essa dita direita portuguesa dos valores foi sempre assim: do bota-abaixo, da ausência de biblioteca e da mais intransigente incapacidade de pensar. Foi essa "direita do contra-tudo" que quis demolir a Igreja Nossa Senhora de Fátima, por a considerar um "templo-celeiro comunista"; essa direita que nunca abriu mão da estética pequeno-burguesa figurativa do mais estreito realismo e que considerou, sem jamais a ouvir e compreender, a música moderna como encarnação do diabo. Foi essa direita das torres da virtude que intoxicou a ideia de Nação Portuguesa com a degradante ganga importada das revistas francesas. No furor anti-moderno, transformou-se em eco português de circunstâncias que não eram as nossas, impedindo que uma direita capaz de se integrar nas confluências da contemporaneidade se pudesse desenvolver e madurar. Foi porque tal gente exerceu por tanto tempo magistério que, chegado o 25 de Abril, ninguém se atreveu reclamar valores que eram, são e serão - enquanto esta Nação existir - valores da Nação Portuguesa. Pequena, reduzida no arsenal de ideias, sem nada a acrescentar ao que foi dizendo, repetindo e teimando, não encontra interlocutor na realidade que a cerca, preferindo os jogos redondos das leituras gastas, do salvacionismo e dos amanhãs cantantes que, obviamente para ela, nunca chegarão. É curiosa a coincidência gritante entre essa Direita e o PC. No fundo, datados, só partilham uma preocupação: impedir que o calendário se mexa !

Recebi há dias, de mão amiga, um exemplar da biografia intelectual de António Sardinha, da autoria de Ana Isabel Sardinha Desvignes. Li-a com atenção e dei comigo a encontrar similitudes gritantes com o meu Homem Cristo Filho: do Anarquismo ao Fascismo. De facto, essa geração, que teve nas mãos a oportunidade única de fazer uma Direita Portuguesa autónoma, esclarecida, com obra e direito à opinião, estiolou-se, petrificou e foi-se transformando numa verdadeira prenda à esquerda. Hoje, passados oitenta anos sobre a morte de Homem Cristo Filho e Sardinha - dois espíritos irrequietos e agressivos, sem dúvida, mas plenos de ousadia - vejo que deles nada ficou para além das sombras e defeitos de carácter que os dois, talvez pela juventude, tão manifestamente exibiam no furor da esgrima. Ficou, nessa Direita, simplesmente, o dizer não a tudo e ser contra tudo. Que tristeza.

7 comentários:

Justiniano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Justiniano disse...

Excelente texto, caríssimo. Mas quanto a isto "e haviam munido de novo arsenal organicista retirado do Positivismo para, assim aggionatas, fundamentarem o requisitório contra o mundo moderno do atomismo individualista, da representação inorgânica e da soberania popular." muitíssimo bem colocado, problemático foi quando a tal direita, iletrada, aí tropeçou atiçada pela sanha anti liberal...só podia dar escuridão!!! Um breu moral!!

Manuel Marques Pinto de Rezende disse...

Gostei muito do artigo. Infelizmente, do espírito combativo de Sardinha e Homem Cristo resta muito pouco.

Jorge Bravo disse...

Excelente artigo.

Foi pena realmente que não se tivesse chegado a um entendimento entre o grupo do Integralismo Lusitano e grupo do Orfeu e da Seara Nova, e se tivesse arredado os legitimistas para os confins do esquecimento.
Foi pena.

João Alves disse...

Já D. Carlos dizia: Em Portugal só há um monárquico e meio. Ele e o irmão.

Flávio Gonçalves disse...

Realmente ainda me lembro de ler num jornal "da área" o alerta sobre o perigo satânico da música moderna...

Rui F Santos disse...

Brilhante resumo sobre a Direita Portuguesa. Como sempre, pena certeira e sem mácula.
Cumprimentos de um Conservador desta "não-direita" portuguesa
Rui Henrique Santos