18 novembro 2007

Rodrigues dos Santos na Polé


O processo disciplinar movido contra José Rodrigues dos Santos exibe todos os toques e tiques da mais sórdida tradição portuguesa. Num país onde se desconhece em absoluto a frontalidade, pensar é um delito, opinar um crime e não trazer trela ou açaime uma ignominia. O mais escabroso em tudo isto é o facto de, na boa escola dos brandos costumes, nunca se destruir um indivíduo cara-a-cara. "Você é um inimigo, não o queremos por aqui" nunca sairia da boca de um dos pequenos sátrapas mandatados para fazer calar a criação que se entrechoca na cacarejante capoeira do Ministério da Propaganda do governo. Rodrigues dos Santos sai sem picar o ponto; Rodrigues dos Santos vai almoçar e invoca trabalho externo; Rodrigues dos Santos vai à retrete seis vezes por dia; Rodrigues dos Santos bebe oito bicas e consome nove pacotes de açúcar. É nesta terra que se vive: ao sabor do pequeníssimo coxicho, da insinuação torpe, da filigrana envenenada. O essencial não conta: o importante são os pacotes de açúcar, os telefonemas, o fax indevido, o rolo de papel higiénico a mais, o sabão macaco desaparecido. Lá em cima, no ar condicionado, um homenzinho que eventualmente nunca leu um livro, não sabe escrever duas linhas sem pedir um assessor de imprensa, não sabe consultar um dicionário ou uma lista telefónica tem a supina ousadia de destruir um profissional. Onde estão os processos disciplinares contra a legião de desocupados, os ex-directores e ex-administradores que por lá estão, apinhados como resmas sem nada fazer durante décadas ? Onde estão os processos disciplinares contra os imbecis e incapazes que deglutem milhões e milhões sem nada fazer ? Rodrigues dos Santos, ao menos, fez um mestrado e um doutoramento, escreveu livros, investigou e correu o risco de se expor à apreciação do público. Erro tremendo. Em Portugal, as pessoas têm de se parecer umas com as outras; isto é, têm de ser todas, sem tirar nem pôr, como os repolhos. No pórtico das nossas instituições, estando lá sem se ver, inscreve-se a máxima: "Cultivem a mediocridade, sejam mansos como os bovinos e colhereis o reconhecimento".

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