24 novembro 2007

Nas ruínas do palácio do aventureiro


Fim de semana em viagem na companhia de um dos mais inteligentes homens de cultura da nossa distante terra para lá dos oceanos. Revisitação dos lugares por onde passaram, viveram e morreram gerações de portugueses; ecos grandiosos e esforçados de uma gesta que teima em assomar à lembrança, mesmo quando, regressados e fechados ao autismo da micro-Europa, as pedras das casas, dos entrepostos e das igrejas entretanto caídas em ruínas nos dizem que fomos grandes, que arrostamos perigos, que o mundo suspendeu a respiração perante a nossa feroz ousadia. Passagem por Lopburi, cem quilómetros a norte de Ayuthia, antiga capital do Sião, onde o Rei Narai mandou edificar um palácio. Este lugarejo, agora entregue ao formigueiro do bazar e dos trabalhos agrícolas, foi testemunha de uma tragédia. Constantino Falcão, o aventureiro grego que servira e traíra os britânicos, que se servira dos missionários portugueses para ganhar a confiança do monarca siamês para logo se transformar em factotum dos franceses, aqui mandou construir um verdadeiro palácio. O homem, vindo do nada mas cheio de expediente e inteligência, galgou a hierarquia do mandarinato até se transformar na eminência parda do monarca. Encheu-lhe a cabeça de mirabolantes ideias imperiais, precipitou uma crise nas relações com os holandeses da VOC e com os ingleses da Companhia das Índias e mancomunou-se com os infames padres das Missions Etrangères de Paris, que serviam mais os ânimos do Rei Sol que o interesse dessas muitas comunidades católicas que jesuítas e dominicanos portugueses haviam laboriosamente constituído ao longo de dois séculos. O nosso embaixador Pero Vaz de Siqueira aqui esteve em 1686 na vã tentativa de alertar o Grande Rei para os perigos em que incorria ao franquear as portas a esses sui generis prelados franceses, génios da calúnia anti-portuguesa e mansos servos da megalomania do monarca de Versalhes. Em vão, pois não lhe deram ouvidos. O Grego subiu ao zénite, fez da sua casa o emblema do triunfo e fortuna. Os siameses - o povo, a nobreza, o exército - não gostaram. A água transbordou quando se fez constar que os missionários franceses se preparavam para converter o Grande Rei. A indignação atingiu o rubro quando um exército francês desembarcou em Banguecoque com a pueril desculpa de vir "proteger o Sião". Revolta popular, revolta do exército, aprisionamento do monarca, já doente e incapaz de controlar os acontecimentos. O Grego foi apanhado à porta da sua sumptuosa mansão, arrastado pelas ruas, cortado às postas e dado a servir à canzoada faminta. Os missionários franceses fugiram e só conseguiram sobreviver graças à protecção dos bons padres portugueses. Quanto ao corpo expedicionário francês, meteu a cauda entre as pernas e retirou-se sem dar protecção àqueles que o haviam mandado vir. Ao olhar para estas ruínas, paradigma da inutilidade de tanto esforço, não posso deixar de me lembrar que os padres portugueses e os católicos por eles semeados eram - e continuaram a ser - respeitados por terras do Sião. Em frente à casa do Grego, a suprema ironia. A rua que conduz às ruínas exibe o nome de Avenue de France !



Jean-Baptiste Lully; Ouverture de la Grotte de Versailles

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