08 novembro 2007

Deixem-se de pedantices e venham aprender a arte da humildade


A convite do Vice-Reitor de uma grande universidade longe da capital, passei dois dias no campus dessa quase cidade inteiramente povoada por jovens. Trinta mil estudantes, dois mil assistentes e catedráticos, mais funcionários administrativos, tecnólogos, arquivistas, bibliotecários, médicos, enfermeiros, psicólogos, animadores culturais e desportivos, burocratas, pessoal auxiliar, jardineiros e guardas enxameiam as amplas artérias de um complexo de edifícios administrativos, moradias, anfiteatros, ginásios, piscinas, refeitórios, centros documentais, lojas e parques primorosamente limpos, pintados e arejados. É, na acepção literal, uma verdadeira Cidade Universitária. Nada que se compare às nossas universidades exíguas, malcheirosas, apodrecidas, grafitadas e decadentes. Nada que se compare à arrogante frieza, aos tiques e manias de falsa grandeza e falsa importância que se respira em Lisboa, no Porto, Coimbra e Évora. Tive autorização para me deslocar sem cicerones, entrar onde quisesse, visitar laboratórios, salas de aula, dormitórios, apartamentos, instalações sanitárias, bibliotecas e centros de convívio. Ali não vi um só jovem de cervejola na mão, não ouvi berros, palavrões, altercações. Ali nunca entrou o "direito à contestação", o "espírito de Maio de 68", a revolucionarite roncante, o marxismozinho demolidor. Falei com sessenta ou setenta alunos em inglês, francês, espanhol e até português. Encontrei uma boa dúzia de docentes, todos dedicados, quase militantes no exercício das suas tarefas, uns com mestrados e doutoramentos tirados nos EUA, na Grã-Bretanha, em França, Alemanha e China. Encontrei ali bolseiros vindos um pouco de todos os azimutes asiáticos. Oito horas de aulas diárias, prática obrigatória de desporto, aprendizagem obrigatória de uma ou duas línguas europeias, alvorada às seis, recolher às dez e silêncio absoluto a partir da meia noite. Na véspera da despedida, um jantar com meia centena de professores. Brincalhões, risonhos, sem pinta de cervejola, discreteando sobre as suas experiências. No fim do repasto, a habitual repartição dos lugares pelas viaturas disponíveis. Foi a primeira vez na vida que vi professores catedráticos, alguns com vinte ou mais títulos publicados, sentando-se com a maior naturalidade nas traseiras de carrinhas descapotáveis. Esta é a juventude que está a bater aos pontos o Ocidente pateta, obnubilado e encerrado na ilusão da superioridade. Com esta gente vamos morder o pó da derrota.

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