16 outubro 2007

Tout ce qui est excessif est insignifiant !


Para os defensores de formas expeditas de governação - aquelas que se baseiam na aplicação do poder nu, sem negociação e sem controlo, vulgo ditaduras - os partidos políticos constituem, mais que um obstáculo à aplicação da vontade, um freio à realização e à produção de obra. Os ditadores e seus objectos - pois que, em ditadura, o apoiante é sempre um escravo da vontade do governante - confiam na liberdade de acção que o seu poder sem freio faculta para, assim, aspirar a grandes metas históricas. As ditaduras, que vivem obcecadas com a história, transformam o quotidiano em apetrecho logístico para grandes feitos. Aceito sem relutância que algumas ditaduras permitiram operar mudanças necessárias à fixação da modernidade, quando muitas democracias - vulgo sistemas representativos confiscados por elites divididas - fracassaram estrepitosamente. Aceito até de barato que algumas formas degradadas de democracia são nocivas, corruptas e dispendiosas; comprazem-se com o jogo estéril do debate sem ponto de aplicação e se transformam em escolas de mediocridade, de demagogia e mentira. É o velho modelo das "democracias latinas", que sempre convidaram ao retorno das ditaduras e do poder personalizado. Confiando mais no "governo das Leis" que no "governo dos homens" - por melhores ditadores que haja e por piores cumpridores da Lei que existam - não compreendo o afã desculpabilizador de muitas cabeças da esquerda nativa a respeito do processo em curso na Venezuela. As esquerdas, que acreditam na engenharia social, na reconstrução do homem e no governo perfeito, absolvem os ditadores portadores dessas boas-novas. Lembro, ainda, que nos bancos da universidade se ensinava que as "transformações necessárias" se operam com o sacrifício de vidas e que a marcha da história se faz sobre os seus "inimigos" [da história]. Era a desculpabilização marxista do comunismo de guerra de Trotski, do concentracionarismo estalinista e de todas as enormidades que pelo mundo se cometeram ao longo do século XX contra pessoas singulares, grupos sociais, etnias e confissões. Ora, o que nos é dado concluir, tendo presentes os últimos 50 anos, é que as ditaduras - todas, sem excepção, de esquerda - falharam, semearam pobreza, dependência, esvaziaram a iniciativa dos indivíduos e quase mataram a sociedade civil. A Venezuela não será excepção, com a agravante de se saber já, com a experiência vivida, qual o destino de tal aventura.

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