10 outubro 2007

Povos de banho e povos de bedum


Povos há que descobriram na água, mais que uma via para o comércio, a abastança e a riqueza, um prazer. Karl Wittfogel falava de "civilizações hidráulicas" - centralizadas, despóticas, burocratizadas e codificadoras - para exprimir um certo tipo de organização social e política fundada no controlo, armazenamento e distribuição da água, em oposição a civilizações tendencialmente descentralizadas, fomentadoras da iniciativa individual e da propriedade privada. Nesta dicotomia encerrava a radical oposição entre as ideias de Estado e indivíduo existentes no Oriente e no Ocidente. Contudo, o autor de Despotismo Oriental pouca atenção dedicou à importância da água nos sistemas culturais. E como lavar o corpo é também lavar a alma, sempre duvidei de anacoretas imundos pregando ódio profundo ao asseio.

Ontem passei boa parte da tarde num templo situado nas traseiras da minha casa, tirando vantagem do fresco provocado pelas chuvas diluvianas que se abateram sobre a cidade e regalando-me com os imensos murais recitativos das passagens da vida do Iluminado. Recinto a abarrotar. À porta ficam os sapatos, que não entram em casa, muito menos em recintos sagrados. Nem indício de chulé, coisa que seria impensável na civilizada Europa. Em Portugal, felizmente, somos um pouco "hidráulicos" e temos pitada de "asiáticos". Em regra geral, quando comparados com castelhanos, francos, germânicos e eslavos, o português faz figura de excêntrico: ou seja, cheira pouco mal. Ainda retenho uma frase - supostamente um insulto - com que conhecidos franceses me brindaram um dia: "V. povos pobres compensam a pobreza com extremos de asseio". Senti-me elogiado com tal insulto.

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