18 setembro 2007

Os portugueses, sempre esquecidos


Dos últimos dois textos aqui depositados recebi uma dúzia de comentários. Retive três, porquanto, carreando a sensibilidade corrente europeia a respeito de uma certa ideia de Ásia, indiciam a fixação de tópicos e tropos que julgo feridos de preconceito anti-ocidental, vulgarizado por décadas de inculcação de uma "culpa" que não cabe, decididamente, nesta tribuna. Ainda há semanas, relendo Borobudur, de Roger Vaillant, senti o peso desse incómodo sentimento de reparação que os asiáticos das décadas de 40, 50 e 60 atiravam aos europeus sempre que se aflorava o passado das relações euro-asiáticas. Qualquer ocidental, para agradar aos seus ouvintes asiáticos, tinha de se desculpar. Paradoxalmente, esse discurso anti-colonialista, anti-ocidental e anti-branco estribava-se na forma mais radical de imposição da "ciência ocidental" - i.e, o marxismo - e não raro axaltava a revolução dos povos oprimidos, as lutas anti-imperialistas e outros rodriguinhos hoje felizmente decaídos, dela decorrendo a aceitação incondicional de regimes absolutamente tirânicos que se foram instalando na China, com Mao, no Vietname, com Ho Chi Minh, e no Cambodja, com Pol Pot.


Um dos simpáticos censores lembrava-me o comportamento do "homem branco" vis-a-vis dos asiáticos, a brutalidade e as guerras que "movemos" contra povos pacíficos, o esbulho e arbitrariedades por "nós" cometidos no Oriente. Uma outra leitora, que presumo goesa, fazia requisitório cerrado contra o "colonialismo português", considerando-o tão ou mais nefasto que outras experiências coloniais, nomeadamente a holandesa, a britânica e a francesa. Por fim, um "estudante de História" salientava o carácter pioneiro da "pirataria lusa" e procurava demonstrar a intrínseca falta de respeito dos nossos antepassados face a culturas e civilizações "mais avançadas".


Como lembrava Gide noutro contexto, "a literatura não é feita de boas intenções". Mutatis mutandis, diria que o labor historiográfico também não o é. Porém, a verdade é que a História e os temas com ela relacionados envolvem uma componente promocional que se confunde com a propaganda dos Estados, as modelizações ideológicas e a necessidade de vulgarização requerida pela opinião pública; logo, quem tem poder para imprimir, vender e fazer prevalecer um ponto de vista tem oportunidade de reverter, manipular, escamotear e impor perspectivas que não resistiriam a um modesto contraditório.


Compro e leio com interesse obras relacionadas com a matéria asiática, sobretudo aquelas dedicadas ao Extremo-Oriente e Sudeste-Asiático. Nelas prevalece, ora a apologia da Grã-Bretanha - se escritas por britânicos - da França - se escritas por franceses - ou da Holanda. Portugal, bem como a Espanha (que nunca teve grande impacto sobre a Ásia, mau grado a permanência castelhana nas Filipinas até 1898), são liminarmente reputados como agentes de guerra, fanatismo e brutalização das culturas nativas. A história é velha e até os italiotas - sim, porque italianos só os há desde o século XIX - fazem um tremendo esforço em imputar aos "jusuítas italianos" o que de melhor a Europa e o Ocidente fizeram por terras da Ásia.


Comprei há dias um desses álbuns de leitura recreativa, em formato apelativo, belas reproduções e bom papel, destinado à mesa das casas burguesas, onde se recebe bem e onde os anfitriões deitam amiúde mão a objectos lembrando viagens e "mundo" conquistados pelo bem estar que se respira numa casa desafogada. De Gianni Guadalupi, China: Through The Eyes of the West, pretende oferecer uma visão panorâmica dos olhares que a Europa lançou, ao longo dos últimos dois mil anos, sobre esse continente que exerceu e continua a exercer marcante sortilégio sobre todos nós. As páginas e capítulos sucedem-se e vão acumulando os testemunhos da sinofilia - de Du Halde a Voltaire, Leibniz a La Mothe le Vayer, Bayle a Wolf - bem como da sinofobia emergente a partir do segundo quartel do século XVIII, de Rosseau a Vico, de Fénélon a Montesquieu.


Onde estão os Portugueses ? Nem sinal deles. Uma ou outra alusão discreta a Macau, um ou outro apontamento de margem, sempre impreganado pelo desprezo e por uma quase determinação em fazer esquecer que todos os outros europeus - sobretudo os jesuítas "italianos", "franceses", "belgas" (pasme-se) - com os seus telescópios, os seus relógios, autómatos, pincéis e artifícios encantatórios para os olhos do Trono de Jade - entravam em Pequim via Macau, via Portugal e graças ao Padroado. Uma nota de rodapé - uma bagatela - para o papel histórico dos diplomatas portugueses de sotaina. Foi graças ao Padre Pereira que a China dos Qing escapou a uma quase certa invasão russa. Através do tratado de Nerchinsk, o czar de Todas as Rússias e o Filho do Céu estabeleciam um modus vivendi que durante século e meio preservaria as frnteiras do Império do Meio às arremetidas ocidentais. Em última instância, foram os jesuítas [portugueses] que refrearam a perigosa aproximação da Europa. Mas nada disso rezam as obras de divulgação. Um ódio de estimação anti-português aflora, contudo, em textos bem mais cotejados por eruditos e académicos. Lembro L'Europe chinoise (1 e 2), de René Étiemble, um devastador tratado em que saímos em tiras, insultados, redicularizados e enxovalhados por um acérrimo defensor da cultura francesa, a tal que, chegada ao Vietname, tratou de se impor a chicote, trabalhos forçados e confiscações fundiárias; a tal que, numa das invasões da China pelas "potências", pegou fogo ao Versalhes Chinês (Palácio de Verão de Qianlong).


A historiografia oxfordiana, bem como a sorboniana e de Leiden, edificaram desde meados do século XIX um cerrado ataque à memória portuguesa na Ásia. O que lhes custa aceitar é o carácter dessa presença que, como Boxer lembrou, se fez, também de guerras, é certo, mas, sobretudo, pelo trato, pela concessão recíproca, pelo interesse mútuo e até pela criação de figuras vagas de partilha de soberania. Aqui temos lembrado repetidamente o papel que coube aos católicos siameses na preservação da independência do Sião na segunda metade do século XIX. Essa minoria, apelidada "portuguet", facultou aos soberanos thais a utensilagem teórica, os apetrechos tecnológicos e a informação do mundo exterior que tornou possível ao Sião escapar à agressão e colonização europeia. É destas coisas que os "scholars" britânicos e os eruditos franceses não versam nas suas obras.


Cancioneiro Jesuíta: Vau Mei (século XVIII)

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