10 setembro 2007

O comunismo como seita


O Avante teve ontem a homilia costumeira, com catarse de litanias, bandeiras e juras. Como qualquer seita, o comunismo alimenta-se dessa forma menor de religiosidade profana - dessa sacralidade laica sem transcendência que se empareda na dita ortodoxia - e que nunca se questiona para além dos limites daquilo que satisfaz a necessidade de se sentir de bem com aquilo que toma como realidade. Como qualquer religião menor que se desconhece, o comunismo vive a sua realidade de costas voltadas para a sua natureza pseudo-religiosa. Os comunistas dizem-se historicistas, mas socorrem-se do mito para salvar um pensamento carregado de crença - crença na teleologia da História, que se saldará por uma Revolução salvífica e num embate final entre o Bem e o Mal, aqui reduzidos ao ter e não ter - pelo que o seu discurso se torna opaco aos não iniciados, insusceptível de adesão racional e convocador de uma ligação, mais que emocional, mística.

Lembrando Caillois no seu sempre jovem ensaio Instintos e Sociedade, diremos que tal seita "não existe senão por oposição ao resto do mundo" e que, perdido o último arrimo ao bom-senso, com a defecção dos elementos mais inteligentes, "tomados pelo asco ou eliminados pela intriga dos velhacos", dela não mais resta que um teimoso grupo que se vai cristalizando em patéticas demonstrações de coerência. Li e ouvi os discursos dos pequenos sacerdotes do culto. Falam para dentro e repetem a linguagem religiosa - ininteligível para o vulgo - fascinados com o poder encantatório das frases-feitas. Dali já não vem mal ao mundo. Estão condenados à incomunicabilidade, perderam o pé à realidade dos outros - do mundo - e sentem-se cada vez mais fortes na sua distinção. Aquilo vai morrer nos próximos dez anos. O comunismo continua tão jovem como o espantalho de Lénine no mausoléu da Praça Vermelha.

Sem comentários: