12 setembro 2007

Dalai Lama


A visita do Dalai Lama a Portugal evidencia a consumação do triunfo da real politik do Ocidente em relação ao Tibete. Os negócios marcham, sempre, na dianteira da agenda diplomática, não havendo princípio algum de natureza moral que se lhes possa sobrepor. Se bem que o Tibete jamais fosse reconhecido como membro de pleno direito na comunidade das nações - não integrou a SDN nem a ONU - foi, desde o século XVIII uma região dotada de grande autonomia no quadro imperial chinês, tal como o Xinjiang (Turquestão Chinês), a Mongólia Interior e a Mongólia Exterior. O estatuto de nação tributária - que se estendia também, na concepção sinocêntrica em vigor até meados do século XIX, à Birmânia, ao Vietname, ao Cambodja e Sião - privava-o de manter relações com quaisquer outras potências.


Se a Birmânia, o Cambodja e o Vietname saíram da órbita chinesa por intrusão das potências europeias, caíndo na condição de colónias ou protectorado, o Tibete - importa lembrá-lo - foi intervencionado pelos britânicos em 1904. Se os chineses ali cometeram atrocidades inenarráveis a partir dos anos 50, com claros propósitos genocidas ou, pelo menos, etnocidas, os britânicos comandados por Younghusband não se livram do pioneirismo no recurso à força da metralha.



Os ocidentais responderão ao problema do Tibete como Churchill o faria aquando da invasão da Etiópia pelos italianos: "estamos como a venerável senhora, outrora prostituta e dona de um bordel, a respeito da moralidade dos outros; isto é, não temos moral alguma para condenar aquilo que já praticámos".



Se bem que a grandeza da figura do Dalai Lama seja inquestionável, o Tibete não existe enquanto entidade política distinta da China. A clerocracia lamaísta funcionava intramuros como funcionavam os coutos medievais. Mas não mais. A prová-lo, a preocupação, desde Qianlong, em proteger a diversidade das religiões existentes no Império, a devoção do Filho do Céu ao budismo dos Himalaias e a elevação do Lamaísmo a culto oficial da dinastia Qing.



O monopólio do odioso não pertence apenas ao governo comunista ou aos britânicos. No início da década de 1930, a SDN formulou críticas acerbas à violência e arbitrariedades cometidas pelo governo nacionalista de Nanquim contra as minorias étnicas, nomeadamente contra a cultura tibetana.



O que nos incomoda em tudo isto é a atrapalhação das autoridades de Lisboa, sempre ufanas na exibição de facínoras tolerados que aqui aportam no quadro da presidência portuguesa e tão cobardes no esboçar de uma singela demonstração de respeito pelo chefe espiritual do budismo tibetano. Lembro que o príncipe Aga Khan, quando aqui esteve em 2005, foi recebido, condecorado e aclamado pelas autoridades enquanto benfeitor e líder espiritual dos Ismaelitas. Dois pesos, duas medidas.

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