13 setembro 2007

China Town


A ideia não lembra ao diabo. Os chineses não são propriamente atracção para câmaras fotográficas, pelo que uma aldeia sínica em Lisboa só aceleraria a exclusão de uma comunidade que tende a fechar-se no seu particularismo racial, linguístico e cultural. Os chineses não são, também, nem hotentotes nem recolectores do Xingu. Os vergonhosos "zoos humanos" que fizeram as maravilhas de exposições universais, mundiais e nacionais das primeiras décadas do século XX - atracção pelo exótico e pelo misterioso - não têm cabimento nem cumprem a agenda da inclusão das minorias. As comunidades agregam-se espontaneamente em zonas residenciais, pelo que inscrever essa tendência num plano urbanístico surge como excentricidade ou, pior, como um erro histórico tremendo. Os chineses são chineses onde quer que vivam. Não conheço povo mais cioso da sua identidade, mais orgulhoso da sua pedatura, mais compacto na manutenção de tudo o que os distingue dos outros: da Tailândia à Malásia, de Moçambique aos Eua e Canadá, do Brasil a Portugal, os chineses pautam a sua existência pela obediência à sua família, antepassados, líderes locais, aos seus negócios e lucros. São um povo admirável pela capacidade de sacrifício e trabalho, pelo investimento que fazem no futuro dos filhos, pela quase ausência desses impulsos a que chamamos individualistas e em que baseamos o rumo das nossas escolhas. Tal qualidade encerra um defeito. O chinês, quando excluído, acentua o autismo em relação ao mundo exterior. Teríamos, dentro de anos, escolas chinesas, jornais chineses, rádios e tv's chineses, templos chineses, salas de espectáculos chineses, bares chineses. É nessa atmosfera que germinam e prosperam as máfias, velha reacção de comunidades ausentes da vida política das sociedades de acolhimento. Creio que a Dr.ª Nogueira Pinto, ignorante das coisas orientais, não se terá dado conta que uma das forças mais activas no mundo globalizado contemporâneo é a diáspora chinesa. A China recobrou o ânimo, perdeu os complexos e medos face aos Ocidentais e vai alcandorar-se - já o é - em pólo de oposição à Europa e aos EUA. Os chineses não o dizem, mas sinto-o. Toda a minha admiração e amizade pelos chineses não me impede, contudo, de enxergar para onde caminha e ao que a China aspira na ordem internacional.


Zhou Xuan

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