04 setembro 2007

Alpoim Calvão e os milionários descolonizadores


Debitam os noticiários a prisão de Alpoim Calvão na Guiné-Bissau. Alegadamente, o antigo oficial das tropas especiais portuguesas estará na origem do desaparecimento de uma estátua de Ulysses Grant existente em Bolama. A justiça pelas paragens tropicais sempre foi um mero adorno sem préstimo. Em países em que tropa, polícias e governo se portam como bandidos, onde não funcionam serviços de saúde e ensino, não há distribuição de água, nem electricidade, nem telefones, nem recolha do lixo - no caso vertente, na Guiné-Bissau, agora transformada em narcocracia marcada pela Interpol - surge-me como grosseira ironia o súbito interesse das autoridades pela sorte de uma estátua erigida na vigência da colonização portuguesa.

Calvão é algo mais que um sucateiro: dá emprego a mais de mil e quinhentos guineenses - ou seja, alimenta mais de oito mil pessoas - coisa que nenhum empregador local garante. Ao invés, muitos ex-MAF'a transformaram-se em prósperos negociantes de botas em segunda-mão, vinho a martelo, enlatados fora-do-prazo e aparelhos de ar condicionado reciclados, quando não em traficantes de armas e outras barganhas que permitem, com meridiana clareza, saber quem gosta e quem mais ama essa África que foi um dia portuguesa: se Calvão, se os valorosos Capitães. Houve um tempo, senhores - queiram ou não aceitar - em que colonizar era entendido como um dever, uma obrigação. Depois, mudaram os ventos e vieram as independências. Só que, como a realidade o demonstra, as independências não funcionaram e foi necessário, de novo, chamar os portugueses. Ora, os bons empresários da África independente são precisamente aqueles que um dia defenderam a colonização; ao invés, os maus empresários que por lá prosperam são os mesmíssimos que um dia quiseram descolonizar sem condições, cumprir o calendário soviético e enriquecer por fim. Nesta acareação, Calvão é um excelente empresário.

1 comentário:

Mdeoliveira disse...

No texto lido, não consigo dislindar o objectivo final sobre Calvão. Se é de elogio ou de critica negativa.

Quiçá um pouco mais de clareza ajudasse.

meu mail: mdeoliveira1@verizon.net