04 agosto 2007

O rafeirismo


Os últimos vinte anos têm sido pródigos em obras que destapam o percurso escuso da esquerda francesa - a filha predilecta do comunismo - aqui entendida enquanto quinta-colunista do maior flagelo totalitário do século XX. Se alguma direita não se isenta moralmente de haver prestado pontual colaboração ao comunismo de direita - o nazismo - a esquerda, quase toda a esquerda, dos tíbios bem-pensantes da social-democracia aos mais cabeçudos marxistas louvou, incentivou, relativizou e escamoteou o concentracionarismo, perseguindo, ridicularizando ou silenciando toda a crítica fundada e objectiva às enormidades cometidas em nome do socialismo.´
Já lera François Furet ( Passado de uma Ilusão), Stéphane Courtois e Nicolas Werth (Livro Negro do Comunismo), bem como Michel Winock (Século dos Intelectuais), todos reforçando aquilo que grandes e destemidos académicos chamados Raymond Aron e Jules Monnerot a seu tempo haviam denunciado. Em plena guerra-fria, desmontar e denunciar os artifícios com que comunistas, filo-comunistas e compagnons de route atraíam incautos era sinónimo de banimento: banimento da vida cultural e editorial, banimento dos movimentos e correntes que faziam reputações, condenação à periferia e à leprosaria onde jaziam os "inimigos de classe", os "cães-de-fila do imperialismo" e os "fascistas".
Comprei há dias uma obra que me passara despercebida e cuja capa acima reproduzo. Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévillia, é mais que uma história da cultura francesa contemporânea e suas polémicas: trata-se de original abordagem aos mecanismos de fabricação de um certo tipo de verdade imposta sem debate, à mistura com intimidação, amálgama e sufocação do normal processo de discussão que, juntas, permitem a ciência. Sévillia desmonta esta engrenagem nascida no imediato pós-guerra. Ao prestígio reclamado pelos comunistas - a tão propalada superioridade moral - foi-se edificando uma teia de lugares-comuns inquestionáveis, umas quantas crenças indiscutíveis, uns adornos pseudo-científicos que concorreram para que a percepção dos acontecimentos coroasse o discurso comunista.
Assim, os intelectuais - ah, como detesto o termo - impuseram até meados dos anos 50 um acrisolado culto por Estaline, tão intenso como cego ao ponto de inverter todos os dados de sensibilidade, rasurar todas as consabidas práticas genocidas do tirano comunista e permitir fazer crer aos pacatos leitores de jornais que as causas da paz, da fraternidade entre os povos e da liberdade se encontravam para lá da Cortina de Ferro. Nessas piedosas patranhas acreditaram quase todos. O odioso ficou para os anti-comunistas, tidos como lacaios do americanismo "fascista", do imperialismo" e do belicismo.
Depois, assentaram armas contra o odioso "colonialismo". A esquerda francesa, incluindo o PCF, que sempre havia defendido o império colonial, receberam instruções do Kominform para desencadear a mais que questionável tese dos "ventos da História". Tratava-se, naturalmente, de abrir o campo à acção soviética e carrregar a má-consciência dos europeus, minando-lhes a capacidade de reagir e obrigando-os a reconhecer a inevitabilidade da descolonização. Sévillia desenvolve com particular argúcia esta questão, porquanto desmonta uma a uma as teses da sociologia e historiografia marxistas. Como os estudos mais recentes permitem demonstrar ( vide Jacques Marseille, Empire Colonial et Capitalisme Français), as colónias jamais enriqueceram os colonizadores; antes pelo contrário, foram um peso acrescido e um freio ao crescimento económico metropolitano, um factor de conflitualidade entre as potências coloniais e um cadinho de problemas políticos internos em cada Estado colonizador. Mas aos comunistas interessava diabolizar, imobilizar pelo remorso, desconjuntar as forças anímicas de políticos, militares e administradores coloniais. Quando partiam para a Indochina e a Argélia, os jovens franceses já não tinham ao seu lado e atrás de si o incentivo da nação. Não, partiam como vulgares criminosos e opressores dos povos colonizados. Era o tempo que em Ho Chi Mihn se reverenciava como um sábio confuciano, em que Ben Bella reproduzia os românticos guerrilheiros da literatura oitocentista e em que Lumumba, um simples serviçal dos russos, era exibido como "mártir".
Com a descolonização executada, o rafeirismo voltou-se para outras empolgantes causas: o "black is beautifull", o multi-culturalismo, o proibido proibir, a safada compreeensão da Revolução Islâmica - "tudo o que é anti-Ocidental é bom" - o ecolo-regressismo e dos os mitos climatéricos em voga. Pese a expressão destas fortes correntes, verdade é que lhes falta, a todas, matéria académica credível. Estas opiniões, contudo, ganharam tamanha respeitabilidade que discuti-las acarreta o desprezo da auto-constituída "comunidade de razão", aquela que domina a "inteligência estúpida" do jornalismo, dos "fazedores de opinião" e demais pequenos intelectuais divulgadores. Lembro com particular surpresa o recente debate em Portugal sobre a interrupção voluntária da gravidez, onde a autorizada voz de médicos, cientistas, sexólogos, sociólogos "reaccionários" foi liminarmente cilindrada pela autoridade da rua. Este é o rafeirismo.

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