27 agosto 2007

O país anda cheio de pessoas "bem vestidas"


O trapismo - adereço mais fácil de uma sociedade recém-burguesa e consumista - parece ter conquistado aqueles que eu julgava manterem a velha e aristocrática inteligência do trajar. O meu caro Francisco Múrias, no termo de uma contestação ao que aqui disse há dias sobre o cadaverismo das nossas direitas, esperou pelo fim para lançar uma elegante piada a respeito do meu trajar de eterno veraneante. Ora, caríssimo Francisco, todos sabemos que não é no fato e na gravata que reside a qualidade de uma pessoa. Saber estar à altura das circunstâncias exige que na praia se esteja de chinelos e numa cerimónia nos aprestemos com a necessária regalia. Saudades teremos todos do tempo em que os operários exibiam com orgulho a bata azul, em que os sacerdotes não se envergonhavam do cabeção e os militares flanavam de farda pelas ruas. Agora, dos vendedores de computadores aos pasteleiros, dos generais aos banqueiros, o gravatismo impera. É o triunfo da uniformidade, a rendição da burguesia à pragmática do pronto-a-vestir. O Francisco, que é um senhor, sabe perfeitamente quão fácil é distinguir um senhor de um labrego, mesmo que este último se encontre recamado de arminhos.



Ty rjadom so mnoj (N.Glejzarov)

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