14 agosto 2007

Socialismos e neofilias


A voga chega a Portugal irremediavelmente atrasada, não tendo ainda sido suficientemente inculcada para permitir mudanças assinaláveis nos comportamentos e atitudes. Na França de finais da década de 70, perante a falência dos credos e "mitodologias" do marxismo, nascia a "Nova Filosofia". Nos EUA, pela mesma altura, revelada a linha genealógica que levava directamente o estatismo, o intervencionismo e o dirigismo ao socialismo - sempre sinónimo de totalitarismo, ora de signo brando ou indisfarçado no grotesco comunista - nasciam os "Novos Economistas". Na Grã-Bretanha, após décadas de socialismo mitigado - partilhado por Conservadores e Trabalhistas - surgia a "Nova Política". A aposição do neo exprimia ainda o medo em revelar o objecto da contestação: o socialismo, o seu sistema de crenças, as suas fórmulas, mandamentos, altares e papas mas, sobretudo, a linha directa que conduzira o esquematismo do Iluminismo, a arrogância racional do positivismo e do marxismo ao concentracionarismo.



Ao tempo, os protestatários - fossem Bernard-Henri Lévy, Gilles Deleuze ou Foucault - tentavam proceder à acareação do comunismo e do nazismo, na vã ilusão de destrinçar a imanência pervertida de um sonho (o comunismo) da objectividade maléfica de um pesadelo (o nazismo). Assim, o estalinismo seria um "fascismo", uma doença saída do corpo do marxismo "desvirtuado". Ora, como a "Nova Direita" (outro neologismo) quis demonstrar - e como Soljenitsin, Arendt e Revel o haviam feito - comunismo e nazismo, mais que vagamente aparentados, eram filhos do socialismo. A questão foi já suficientemente escalpelizada para com ela nos perdermos em delongas. O socialismo, mais que uma ilusão, é uma pulsão sempre pronta a sair da garrafa, seja na fórmula da "democracia social", seja na "social-democracia", ou ainda na forma mais dura que não se inibe em afirmar o nome.



Ouvindo as declarações de todos os líderes políticos nesta fase já anunciando a "reentrada", o socialismo está ali presente, do PC ao PS, do PSD ao PP. Tanta "peocupação social" esconde o interesse em manipular, condicionar e ter na mão as pessoas, características de qualquer socialismo. Já é tempo, caramba, de perder o medo e cortar cerce com essa superstição que esteve na origem das maiores catástrofes do século XX, pois importa lembrar que antes dos Direitos do Homem há os Direitos da Alma, antes da sociedade há os homens concretos, antes da humanidade abstracta há as pátrias, antes da ideologia a cultura, a memória, a história e os afectos. Os socialismos quiseram varrer a riqueza dessa desigualdade que completa, dessas diferenças que potenciam, dessa pluralidade que vivifica.



China: Toda a Força para o Povo (1967)

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